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Cultura

Crônica do Villas

Piauí

por Alberto Villas publicado 15/01/2016 06h04
O Estado que deixou de ser apenas motivo de chacota
Embratur
Teresina

Teresina, capital do Piauí

Quando eu era pequeno, ainda de calças curtas, achava que o Piauí era apenas uma piada. Nas rodas de cerveja e cachaça na minha casa, a turma do Serviço de Meteorologia se divertia com o Piauí.

- Qual é o estado pior que o Piauí?

- O estado de coma! 

Oswaldo, Aurino, Matheus e Jesus se divertiam, rolavam de rir e o meu pai cutucava: 

- Sabiam que vão unir o Piauí com o Ceará pra criar o Piorá? 

Mais gargalhadas. 

Só fui saber que o Piauí era um estado – de verdade – do Nordeste brasileiro nas aulas de Geografia no Colégio Marista. Ali, fiquei sabendo, primeiro, que a capital era Teresina. Depois tive de decorar para a arguição oral, a população, a área e as cores da bandeira, listrada de verde e amarelo e com uma estrela branca dentro de um quadrado azul. 

Mesmo assim, continuava achando o Piauí o fim da picada, o ó do borogodó, um lugar pra lá do fim do mundo e tão quente quanto o inferno. 

Achava isso porque o Piauí continuava sendo só chacota. Quando as pessoas viam uma situação de penúria num pronto-socorro de Belo Horizonte, por exemplo, sempre comentavam:

- Se aqui está assim, imagine no Piauí.

Pra piorar a situação do Piauí, quando o cantor Paulo Diniz colocou nas paradas de sucesso a música I want to go back to Bahia, uma homenagem a Gil e Caetano, exilados em Londres, Juca Chaves, o menestrel e rei da paródia, atacou de Take me back to Piauí:

Adeus Paris tropical, adeus Brigite Bardot

O champanhe me fez mal, caviar já me enjoou

Simonal que estava certo, na razão do Patropi

Eu também que sou esperto vou viver no Piauí!

Hey hey, dee dee, take me back to Piauí

Muitos anos depois, fazendo uma palestra pela TV Globo em Maceió, conheci uma menina do Piauí, a repórter Neyara Pinheiro. Ela me contou tantas histórias bacanas do Estado dela que eu mudei de ideia e fiquei até com vontade de conhecer o Piauí, um dos poucos Estados brasileiros que não conheço.

Quando eu ainda gostava de carnaval, como eu me divertia no salão com uma marchinha que dizia assim:

Chegou um telegrama

Lá do Piauí

Xi! Minha sogra vem aí

Minha sogra é muito boa

Igual eu nunca vi

É boa, muito boa, ela lá e eu aqui

Me contaram um dia que as madames do hight society de Teresina organizam festas em salões com ar condicionado com a temperatura de Moscou, só para esnobarem seus casacos de pele e suas luvas de pelica. Pode até ser verdade, mas eu não acreditei muito não.

Um dia, aqui no sul maravilha, anunciaram o lançamento de uma revista chique e inteligente, que iria se chamar Piauí. Achei que não passava de mais uma brincadeira mas era verdade. Se os americanos têm a New Yorker, nós teríamos a Piauí. Desconfio que foi ai que a coisa começou a mudar.

Essa semana, o Piauí voltou a ser assunto aqui em casa. Minha sogra saiu de carro de Belém rumo a Natal e atravessou o Piauí de cabo a rabo. Ela contou que ficou encantada. O que era só tristeza e pobreza – é a segunda vez que ela atravessa o Piauí – hoje viu sinais de progresso e beleza. 

Mas o Piauí não foi notícia aqui em casa apenas por causa do post da minha sogra. Mais duas notícias chegaram pela internet. A primeira dizia o seguinte: 

"A potencialidade dos ventos do Piauí tem repercutido no mundo, tanto que, o Estado foi considerado o vencedor do leilão de fontes alternativas realizado pelo Ministério de Minas e Energia, através da Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE). Dos 800 Mega Watts comprados no leilão, 240 são do Piauí, somados aos 420 MW que já foram vendidos pela Casa dos Ventos em outros leilões. Com o funcionamento, a Usina Eólica piauiense estará produzindo mais energia do que o estado consome. O Piauí será um dos primeiros estados da Federação a ter 100% da sua energia consumida proveniente de fonte renovável.
"

 No dia seguinte, outra notícia virou manchete: 

Estudante do Piauí tem a maior nota no Enem

Sim, o estudante piauiense Vitor Melo, de 18 anos, do Instituto Dom Barreto, em Teresina, foi o candidato inscrito na edição de 2015 do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) que obteve a maior nota do País. 

Quer saber de uma coisa?

Hey hey, dee dee, I want to go live in Piauí!