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Pianomania

por Alexandre Freitas — publicado 17/01/2011 10h09, última modificação 17/01/2011 11h12
Dizem que os violonistas passam metade de suas vidas afinando seus instrumentos e a outra metade tocando desafinado. Pianistas não afinam o próprio piano e afiná-lo custa mais caro que uma seção com um bom psicanalista paulistano

Pianistas não afinam o próprio piano e afiná-lo custa mais caro que uma seção com um bom psicanalista paulistano
Dizem que os violonistas passam metade de suas vidas afinando seus instrumentos e a outra metade tocando desafinado. Sorte deles, porque com a maioria dos pianistas é um pouco pior. Passam suas vidas a tocar em instrumentos desafinados. Os que têm sorte ou dinheiro tocam em pianos com a sonoridade ligeiramente desequilibrada ou com apenas algumas poucas cordas traindo o diapasão. Afinal, os pianistas não afinam o próprio piano e afiná-lo custa mais caro que uma seção com um bom psicanalista paulistano. É praticamente impossível manter um instrumento de estudo em perfeitas condições sem ter à disposição um exímio técnico de pianos. Privilégio de poucos bem aventurados. 
Mas os tantos pianistas, pianeiros, tocadores de piano e companhia que se confrontam diariamente com essa triste realidade podem encontrar refúgio ou consolo no fato de não existir um só instrumento em uma condição perfeita. O piano ideal é platônico e fugidio. É o que mostra o documentário Pianomania, de co-produção austríaca e alemã, dirigido por Robert Cibis e Lilian Franck e recém lançado nas salas de cinema francesas. A insatisfação, maior vocação humana, aparece potencializada naqueles seres que perseveram na busca do som ideal. O curioso do filme é que o personagem principal, o herói, é Stefan Knüpfer, o afinador e técnico que trabalha para a Ferrari dos pianos, a Steinway& Sons. É ele a pessoa que vai fazer a conexão entre o instrumento e o som imaginado pelos ilustres pianistas.
“Você quer que o som seja mais íntimo, fechado, ou um som mais expansivo e aberto?” –pergunta Stefan. Pierre-Laurent Aimard responde: “os dois”. Alfred Brendel busca o equilíbrio do toque, do controle da dinâmica, ou seja, do volume de cada som. Lang Lang escolhe o instrumento mais adequado para a sala e para o repertório, nada mais natural.
Se o som do piano é a voz do pianista, como diz um funcionário da Steinway no filme, o som perfeito seria o resultado do casamento entre o temperamento do homem e da máquina. Como não existe casamento perfeito, logo...
“O fá está abaixo da afinação”, diz um. “Quando tiro o pé do pedal ouço um som estranho”, diz outro. “Poderia experimentar um outro piano? Este está bom, mas...”, novamente o primeiro. E Stefan vai se virando como pode: improvisando soluções, trocando martelos, adaptando placas acústicas que refletem o som para melhorar distribuir as ressonâncias. E dessa forma vai retirando um pouco o peso da insatisfação dos pianistas, tão apegados ao Belo, o Bom e o Justo platônicos.