Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Pesos desiguais numa premiação frustrante

Cultura

Cinema

Pesos desiguais numa premiação frustrante

por Orlando Margarido — publicado 03/10/2016 13h45
O júri do FestBrasília pode ter acertado no varejo, mas não correspondeu no todo ao esforço da curadoria
Divulgação/FestBrasília

De uma premiação pode-se tentar fazer toda uma radiografia de um festival, em que se pese as decisões da pré-seleção, da curadoria e por fim do júri oficial. Nesta 49ª edição do FestBrasília terminada na última terça o saldo parece comungar de certa afinidade entre algumas das etapas e apontar discrepâncias entre outras. Surgiu positiva a princípio uma competição que buscou conjugar produção de novos realizadores com aquela mais veterana, mas que na continuidade  se mostrou favorável ao primeiro bloco. 

De todo modo, a recepção de público confirmada nas sessões e um tanto dividida quanto a crítica especializada mostrou peso maior a obras de envergadura mais sólida, não por acaso de quem tem estrada.

Coube por fim aos jurados carimbar com suas escolhas destaque excessivo aos recém-chegados e duvidoso tanto quanto injusto a quem faz decididamente a história de uma mostra importante como Brasília. Ouve mesmo quem, entre os nomes da pré-seleção, dissesse com humor, mas de forma sintomática, que o júri estragou o esforçado trabalho inicial.

Na representação do pólo experiente espantou a muitos a estranha manobra de que se valeu o colegiado para não ignorar o feito de realização e empatia de Martírio. O documentário de Vincent Carelli levantou a platéia do Cine Brasília, em inesquecível e talvez inédita ovação, ao abordar um painel trágico do genocídio dos índios Guarani-Kaiowá em sua luta para demarcação do território.

Em quase três horas de duração, esse conhecedor e defensor da causa indígena no cinema traça um painel histórico que parte do século 19 e chega aos dias atuais. É cinema de urgência, de grande vínculo de engajamento e pesquisa, mas que talvez não atraia a todos por abdicar de linguagem mais elaborada, de algum expediente de narrativa corrente hoje entre determinado segmento de novos documentaristas. 

O fato é que se confirmou para Martírio a expectativa do prêmio do júri popular, ou seja do público, mas causou controvérsia o Prêmio Especial do Júri, o oficial. Como se sabe, paira algo de presente de consolação sobre tal categoria e ficou mais uma vez bem clara a postura dos espectadores ao aplaudir a escolha do público. Por vezes é melhor não dar recado algum, do que dar um equivocado.

Não se pode falar em equívoco, pelo contrário, do prêmio de trilha sonora para Vinte Anos, no qual Pedro Cintra faz uma bela recuperação da música cubana. O documentário de Alice Andrade, a filha de Joaquim Pedro com ligação umbilical a Cuba, onde se formou, volta a ilha de Fidel passado o tempo referido pelo título para rever personagens de filme seu anterior. É trabalho primeiro emotivo, visado a partir do coração, mas revelador das transformações profundas pelas quais o país, e os cubanos que emigraram, passam. 

Tem um jeitão um tanto esquemático, diga-se, e não por acaso agradou o mestre Vladimir Carvalho, outro documentarista que abre mão de todas as firulas para ir direto ao ponto, a exemplo de O Compadre de Picasso, exibido na Mostra Brasiliense. Alice segue a escola e levou do paraibano-brasiliense um troféu criado por ele e batizado de Conterrâneos. 

No atacado, no entanto, o recado do júri surgiu claro. Premiou-se uma geração e um tipo de cinema jovem e autoral de que aqui e ali se pode discordar, mas que instiga a novos olhares e debates. Nesse sentido, é  unânime a boa acolhida ao híbrido de documentário e ficção A Cidade Onde Envelheço, da mineira Marília Rocha, origem aliás que dominou a edição nos longas e curtas-metragens.

Daí a merecer o excessivo reconhecimento do júri como melhor filme, direção e intérpretes femininas principais (as portuguesas Elisabete Francisca e Francisca Manuel) e coadjuvante masculino (Wederson Neguinho) são outros quinhentos. Ou mais exatamente 135 mil reais, valor total dos respectivos prêmios em dinheiro.

Vistos separadamente, são Candangos justificados. Em especial, as atrizes nos papéis de amigas de Lisboa que se estabelecem em Belo Horizonte e vivem ali seu cotidiano trivial, no que reside a graça do filme. Quando somados, no entanto, não se entende porquê contemplar categorias que por fim estariam sintetizadas no prêmio máximo.

Festivais estrangeiros como Cannes ou Veneza proíbem, inclusive, que se outorgue demais prêmios importantes ao título vencedor do festival. Mais justo seria conferir reconhecimento pelas beiradas, no caso, diga-se mais uma vez, procedentes, e reservar o troféu principal a um projeto definidor desta edição.

Não se fala aqui de distributivismo, o pior método para se atender a uma premiação. Nesse sentido, categorias técnicas e mesmo importantes como de ator principal foram acertadas, ainda que subjetivas. Não havia muita dúvida que caberia a Rômulo Braga, mineiro em projeto mineiro mais uma vez, o troféu por seu personagem angustiado e ensimesmado em busca da mulher ausente em Elon Não Acredita na Morte. Filme lacunar, repleto de frestas abertas ao espectador pelo diretor Ricardo Alves Jr. 

Martírio
O documentário de Vincent Carelli levantou a platéia, em inesquecível e talvez inédita ovação (Foto: divulgação/FestBrasília)

Se tanto, parecia estar no páreo com Rômulo o não-ator de Rifle, Dione de Oliveira, que representa sua experiência real de jovem dedicado a defender terras de camponeses da especulação nos pampas gaúchos. O filme talvez tenha saído do evento um tanto injustiçado. Teria força para ir além de melhor roteiro, do diretor Davi Pretto em parceira com Richard Tavares, e melhor som. 

Embora categorias técnicas tenham muitas vezes a função de diluir a concentração de prêmios, as escolhas ainda de melhor direção de arte para Renata Pinheiro, em Deserto, fotografia para Ivo Lopes Araújo e montagem para Clarissa Campolina, ambos em O Último Trago, tem o mérito de unir bons conceitos de trabalho a nomes que são reconhecidos craques em seus ofícios. A bem da verdade, optou-se por certo conforto e segurança e não por apontar a novidade. 

Apenas uma escolha, aliás, se deu sob este signo, o da atriz Samya de Lavor como coadjuvante, ironicamente no papel de uma índia em O Último Trago. Vale ressaltar que este último, sob direção de Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti, e Deserto, estréia na direção do ator Guilherme Weber, dialogam na franca opção pela alegoria. Que de tão excessiva incomodou mais do que foi apreciada. 

Lançar mão de linguagens tão arriscadas como a alegoria é capricho para poucos e exige repertório sofisticado. Há muito que a vertente de narrativa não realista tem nome certo e não desaponta, jamais, quando vinda de Julio Bressane. O festival abriu com uma síntese muito particular e poética do Cinema Novo, por Eryk Rocha, e terminou no último dia de concurso, mas em caráter não competitivo, com Beduíno. 

Bressane, como sempre, exige a quem assim quiser um instrumental refinado para dar conta de todas as citações utilizadas comumente em seu cinema. Ou basta apenas seguir a beleza que ele opera na tela, como se disse em debate de altíssimo nível.

Se o júri não chegou ao melhor desempenho, o olhar de organizadores e curadores tratou de compensar algum desaponto com biscoitos finos ao final, como dizia Oswald de Andrade.  

O fecho na noite de premiação veio com a homenagem aos 20 anos de Baile Perfumado, o longa de Paulo Caldas e Lírio Ferreira que restaurou nossa crença no cinema brasileiro quando este caiu moribundo. Nos sete dias de festival ficou claro no palco, com os habituais gritos de Fora Temer, e na tela de múltiplas experiências, que fantasmas do passado não podem voltar a nos assombrar.