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Em 'Permanência', o silêncio delator dos amantes

por Matheus Pichonelli publicado 28/05/2015 17h30, última modificação 11/06/2015 17h16
No filme de Leonardo Lacca, Irandhir Santos, o maior ator da atualidade, em São Paulo, a maior cidade do Brasil
Permanência

Cena de 'Permanência'

Irandhir Santos em São Paulo. O maior ator brasileiro da atualidade na maior cidade do País. Era questão de tempo para que a “loucura” da metrópole que “nunca para” e “tem quatro estações num mesmo dia”, como definem os personagens de Permanência, estreia na quinta-feira 28, inspirasse o protagonista a rasgar a blusa emprestada pela amiga e ex-namorada e saísse declamando poesia no teto de um automóvel, contivesse uma rebelião no presídio, pulasse da senzala para assaltar a casa-grande, incorporasse a mulher para cantar Esse Cara ou o doido a dublar Ney Matogrosso no meio da rua.

Mas não. Tanto seu personagem, Ivo, como a cidade das efervescências parecem sob controle no filme de Leonardo Lacca. Parecem.

Ao chegar de Recife para sua primeira exposição individual de fotos em uma galeria, Ivo é questionado o tempo todo sobre o sol da capital pernambucana. Recife é o exotismo possível em uma metrópole mergulhada no (enganoso) recalque de um dia frio.

“Ali só chove”, avisa o personagem.

Dali em diante, os diálogos entre ele e a ex-namorada, Rita (Rita Carelli), e as pessoas com quem esbarra pela cidade são quase sempre banais. Os temas variam entre o clima, a hospitalidade, o trânsito, viagens, pequenos projetos, as ruas e seus perigos. Ironia das ironias, o fotógrafo circula em uma cidade adormecida. Todos parecem estar dormindo quando ele sai de casa ou quando volta.

Cena de 'Permanência'

Em vez de multidões, o vazio, como quando caminha em dupla pelo bairro ou observa sozinho o túnel da Linha 4 do Metrô. Nessa cidade silenciosa, é possível ouvir a máquina de espremer laranja, de selecionar os grãos do café ou de cortar papeis.

Ao diretor interessam os detalhes dos espaços desocupados. A fala é uma delas. No filme, não importa o que é dito, e sim o que não é dito. Os personagens falam o tempo todo para que o silêncio não delate uma tensão e essa tensão não delate o que realmente querem dizer: medo, desejo, pulsão. É mais ou menos como a São Paulo que os recebe. Dela espera-se ruídos, berros, explosões, descaminhos, mas ela se revela tanto no silêncio de suas ruas das manhãs e das madrugadas como nos espaços diminutos - um apartamento, uma galeria, a claustrofobia de um elevador. Essa solidão ilhada numa multidão é o que permite topar com a gente mesmo – daí o pânico.

Nesses encontros inevitáveis dos vazios que se expressam por si, resvalamos em uma pretensa naturalidade organizada pelo pensamento. Mas elas não dizem o inevitável: que as relações humanas, formais ou desmanchadas, são também um discurso. Nesse discurso, o que é o acolhimento? O que se dissipa? O que engendra? O que permanece?

“Eu não tenho mais o que falar. A gente perdeu o assunto”, admite o personagem, entre o desapontamento e a serenidade, após o reencontro com Rita, agora casada, agora responsável, agora contida.

Cena de 'Permanência'

Permanência é a história não só do que foi, mas do que poderia ter sido e do que ainda é. É a foto em preto e branco na parede. É o que se esquece e o que se registra. É o não-dito. É o que permanece e reaparece nas novas pessoas que, como na música de Caetano Veloso, engendramos em nós e de nós. A travessia da ponte-aérea não é só o retorno, mas a continuação revelada. Rita, como Recife ou São Paulo, é tudo, menos uma foto dolorosa pendurada – e estática – na parede.