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Teatro: especulação imobiliária X cena independente

por Paloma Rodrigues — publicado 27/02/2014 05h04, última modificação 27/02/2014 13h30
Enquanto São Paulo inaugura 3 novas casas de espetáculo, grupos independentes penam com a alta do IPTU e cobram mais incentivos para sobreviver
Divulgação
Commune Coletivo Teatral

Peça Nem Tudo Ladrão Vem Para Roubar, dirigido por Augusto Marin, da Commune Coletivo Teatral

Enquanto São Paulo inaugura mais três grandes teatros para superproduções no centro expandido da cidade, as companhias independentes sofrem para permanecer em atividade. A dificuldade é manter as peças em cartaz: os espaços públicos demandam estreias, que atraem o público, e as sedes próprias se tornam insustentáveis com a especulação imobiliária e os altos valores do IPTU. Os grupos tentam impulsionar um Projeto de Lei proposto pelos vereadores Floriano Pesaro (PSDB) e Nabil Bonduk (PT), que pretende dar isenção de impostos a teatros independentes.

Idealizado em dezembro, o PL 888/2013 pretende dar incentivo aos “imóveis utilizados exclusiva ou predominantemente como teatros ou espaços que sejam abertos ao público e tenham caráter artístico e cultural”. A expectativa é que seja votado até o início do segundo semestre.

O desafio das companhias independentes foi tema de reportagem da Folha de S. Paulo da última semana: os incentivos gerados pela Lei de Fomento ao Teatro não foi suficiente para dar estabilidade aos grupos. Enquanto isso, três novos teatros serão construídos Shopping Vila Olímpia, Shopping JK Iguatemi e no cruzamento entre a Avenida Faria Lima e a Rua Leopoldo de Magalhães. As capacidades variam de 700 a 1200 espectadores, o que trará para a cidade uma ampliação de quase três mil cadeiras para a produção teatral na cidade.

Os novos empreendimentos são de iniciativa privada, mas contam com o apoio municipal, como isenções fiscais, conforme se firmou no Decreto nº 37.105/1997. O decreto afirma que as áreas do teatro "não serão computáveis para efeito de definição da taxa de ocupação e do coeficiente de aproveitamento utilizados no projeto de construção". Para o diretor artístico do Teatro Commune, Augusto Marin, a questão é delicada. “Conceder isenção a grandes teatros que tem um grande valor comercial e não dar isenção de IPTU para pequenos espaços, que atendem uma demanda pública e oferecem uma programação a 10, 20, 30 reais é bastante complicado.”

Marin acredita que toda expansão teatral na cidade é positiva, inclusive de superproduções, que dão movimentação ao mercado. “São Paulo é uma metrópole, ter mais teatros grandes é um benefício à cidade. Eles demandam bons coreógrafos, bons maquiadores e se cria um mercado. Mas é preciso incentivar a cultura na rua, o uso da rua, que é o que nós estamos cada vez mais perdendo em São Paulo, o acesso ao público.”

Carlos Canhameiro, da Companhia Les Commediens Tropicales, também acredita que a criação dos novos teatros não impacta diretamente as pequenas companhias. “Eles são voltados exclusivamente para grandes produções, em especial, grandes shows, programações mais pontuais, balés internacionais. Não é o mesmo público, infelizmente. São Paulo é difícil de generalizar, mas quem vê o Rei Leão não vê uma peça de grupo em São Paulo.”

A dificuldade de encontrar aparelhos culturais na cidade que sustentem os pequenos grupos também os leva a buscar um espaço próprio. “A maioria das programações do Sesc e do CEU demandam estreias, que atraem mais público, atenção da imprensa e mais renda. Então você não tem um lugar para manter o seu trabalho”, diz Canhameiro. Uma temporada no Sesc dura em média seis semanas. Segundo Canhameiro, é cada vez mais difícil emplacar segundas ou mais temporadas de montagens.

A Cia Les Commediens Tropicales, por exemplo, é uma das muitas companhias da cidade que não têm sede própria. “A gente não quer ter uma sede, porque a gente teria de tirar do próprio bolso para se manter”, diz. “Hoje, em São Paulo, eu acho impossível alguém ter uma sede e ter lucro.”

MoTin. A ausência de políticas públicas direcionadas aos pequenos e médios grupos de teatro levou à criação do Movimento dos Teatros Independentes (MoTIn). O grupo já se reuniu com o secretário de cultura da cidade de São Paulo, Juca Ferreira, e com a ministra da Cultura, Marta Suplicy. Nas discussões com os representantes do poder público, duas ações foram definidas: um mapeamento cultural dos teatros da cidade e um seminário internacional para discutir políticas públicas e estratégias de gestão para a área.

Ainda sem números oficiais, o grupo estima que São Paulo tenha atualmente entre 150 e 160 espaços, que variam de 20 a 400 lugares. Nenhuma cidade do País tem um mapa com todos os seus pontos de teatro detalhados, modelo já consolidado na Europa e nos Estados Unidos.

Arquitetados para apresentações a públicos menores, os pequenos teatros não conseguem o retorno financeiro necessário apenas com a renda gerada pela bilheteria.

O caso do Teatro Commune serve como um parâmetro para o desafio: de 2007 para cá, o aluguel do espaço da sede passou de 3 mil reais para mais de 8 mil. “O aumento dos alugueis e a especulação imobiliária nos colocaram em uma situação em que estivemos seriamente ameaçados de fechar no ano passado”, diz Augusto Marin.

“São espaços que mantêm um modo singular de produção. O nosso teatro, por exemplo, deixa os atores a 1,5 metros do público, que vira testemunha daquela experiência. É um processo diferente de uma superprodução”, diz ele.

Mais do que promover a estrutura, Canhameiro aposta que a saída para a cena cultural de São Paulo seja repensar o seu modelo de gestão. “Tem bastante gente que ainda concebe política cultural como construção de equipamentos públicos, como se o teatro fosse brotar por conta da abertura de novas salas”, diz ele. “Na verdade, a gente tem um programa crônico relacionado com o interesse do publico, o valor dos ingressos e isso precisa ser repensado.”

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