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Cultura

Refogado

Pequenas contravenções

por Marcio Alemão publicado 23/01/2013 10h06, última modificação 23/01/2013 10h12
Quando a família sai de férias é hora de comer as sobras direto do potinho para não ter sequer de lavar a louça

Esposa e filha viajando. A esbórnia é total e diária. Liga um amigo: “E aí, loucura pura? 48 ­pizzas ou mais?” Quem se lembra do famosíssimo texto do Roland Barthes O Escritor em Férias?

Eu sei que todo mundo lembra. Ainda assim, um resumão: diz ele que o verdadeiro escritor, em férias, não leva bloquinho, Moleskine. Escritor em férias não escreve, assim como médico cirurgião não se distrai fazendo uma lobotomiazinha.

E eu, apesar de não estar em férias de refogar por escrito, decidi relaxar um pouco na cozinha. No começo do ano estive no restaurante Arturito, que continua acima da média, e comi muito bem. Todavia, ao fim dos trabalhos concluí que voltarei a fazer como faziam meus pais: jantar fora no máximo uma vez por mês.  Meus vencimentos não permitem frequência maior.

E depois daquela noite não mais saí de casa. Minto: domingo assamos uma carne na grelha de um amigo.

E na ocasião (eu gosto dessa frase e não me pergunte por quê) comentávamos sobre as diferenças entre homens e mulheres na cozinha quando ambos se encontram sozinhos.

A mulher não muda a rotina. Por certo comerá ainda menos. Vai aproveitar que o chato está fora e abusará das saladas, das sopinhas de nada com um temperinho de menos nada. Comidas saudáveis, festival de missô, verduras escuras, grãos funcionais ou simplesmente um chá.

Disse para vocês que odeio chás? Disse a que ponto chega o meu inconformismo com pessoas que tomam chá no café da manhã? Além do contrassenso verbal, nada que não tenha aroma de café é aceitável para mim como bebida matutina.

E um chazinho à noite? Com torradas a coisa fica ainda pior. Torradas sem nada teriam alguma função? Sim, é fato que estive em nutricionistas que me sugeriram essa balela: um chazinho com torradas. Perguntava: posso lambuzar as torradas com manteiga salgada, requeijão, maionese e algumas fatias de presunto e queijo?

Deixo de lado o chá. Em algum momento farei extensa matéria sobre chás gourmet, cultivados em baixa altitude nas planícies tibetanas do aquém-mar. Por ora, deu.

E vamos agora aos rapazes em férias. Abro a geladeira e encontro uma bonita salada em uma tigela, coberta com filme. Retiro a salada. Retiro também da geladeira um Tupperware com quinoa  cozida. Jogo a quinoa na tigela. Em outro recipiente, sobras de um gostoso arroz com frango caipira. Caço os pedaços de frango que sobreviveram ao último ataque. Vale lembrar que o arroz foi atacado por dois dias, no almoço e na janta. E em duas ocasiões fiz de conta que era salada, coloquei um pouco de azeite extravirgem e comi frio.

Frangos desossados unem-se à quinoa e à salada. Tempero tudo sem grandes criacionices. Azeite, sal e uma pequena colher de molho blue cheese. Misturo tudo, pego a tigela e vou ver tevê com os pés sobre um banquinho. Acompanha um pão sueco que me ajuda a empurrar a mistura para o garfo.

Neste momento você ficou com uma enorme curiosidade e desejou saber: “Mas... você chega a comer direto no potinho?”

A resposta é... sim. Em um deles encontrei cinco almôndegas. A Carminha, nossa colaboradora na cozinha, faz uma almôndega old fashion: carne moída com paõzinho molhado no leite, cebola picadinha, salsinha... boa demais. E essas cinco, que ainda retinham um pouco de molho de tomate, estavam de bobeira num pote de vidro. Esquentei no micro-ondas, cozinhei um macarrão, joguei um tiquinho de manteiga, queijo ralado do bom, juntei no pote e mandei ver. Sem louça e sem panela para lavar. A do macarrão nem conta.

Fiz polenta no domingo. Pouquinho. Só pra mim. Fubá que me foi ofertado por Shirley, de Venda Nova, Espírito Santo, onde acontece a maior festa da polenta do Brasil. Delícia de fubá, moinho de pedra, cheiro bom, massa delicada. Na própria panela misturei, no final, um bom pedaço de gorgonzola dolce, italiano. Panelinha pequena, formosa. Comi de colher e com uma alegria imensa. Semana que vem, volto à mesa. Alegre por dividir com a  família alguma prato que sairá da panela.