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Pelo sonho nacional

por Redação Carta Capital — publicado 19/03/2012 10h56, última modificação 20/03/2012 15h07
As memórias de Pedro Nava conduzem a ideal de nação
Pedro Nava

Intérprete do Brasil. Pedro Nava e a mulher, Antonieta Penido, Rio, 1980

Por Renato Pompeu

 

Baú de Ossos
Pedro Nava
Companhia das Letras, 484 págs., R$ 54,50
Balão Cativo

Pedro Nava
Companhia das Letras, 416 págs., R$ 52

Em boa hora são reeditadas as memórias do médico e escritor mineiro Pedro Nava (1903-1984). Nos sete volumes de sua prosa encantadora, há rica documentação sobre a vida da intelectualidade modernista, da qual ele foi um dos baluartes. Publicados entre 1972 e  1983, Baú de Ossos, Balão Cativo, Chão de Ferro, Beira-Mar, Galo-das-Trevas e Círio Perfeito, mais uma obra póstuma, incompleta, Cera das Almas, de 2006, representam a epítome da constituição da nacionalidade brasileira. Agora chegam às livrarias Baú de Ossos (1972) e Balão Cativo (1973), ambos com apresentação de André Botelho, o primeiro incluindo uma nota de Carlos Drummond de Andrade e posfácio de David Arrigucci Jr., e o segundo, contando com poemas de Drummond e de José Geraldo Nogueira Moutinho, acrescido de uma crônica de Paulo Mendes Campos.

Durante a ditadura, as memórias de Nava, nas palavras do crítico Antonio Candido, foram estimulantes por tratarem do “mundo referente”, aquele que serve de referência para todos, exatamente o mundo real. Esse mundo, naquele tempo, tendia, por causa da censura e do clima de repressão, a ser tratado apenas alegoricamente pelas belas artes. Falando do passado, mas com olhos do presente, Nava deu um banho de realidade nos seus leitores ávidos de conhecimentos sobre a sociedade brasileira.

O escritor nasceu em 1903 em Juiz de Fora, filho de um médico cearense aparentado com a futura escritora Rachel de Queiroz. Formou-se no secundário no Colégio D. Pedro II, Rio. Entre 1921 e 1928, estudou medicina em Belo Horizonte, tendo se tornado um dos médicos e historiadores da medicina mais importantes do País. Sempre teve interesses intelectuais.

Conheceu os escritores Mário de Andrade e Oswald de Andrade e a pintora Tarsila do Amaral, quando da visita deles a Minas Gerais, em 1924. A partir dos anos 1930, exerceu a medicina no Rio, onde se suicidou em 1984, segundo se supõe, para fugir à chantagem de um garoto de programa.

Casado, não teve filhos. Por ter ficado surdo, aposentou-se da medicina e se dedicou às memórias, que evocam quase um século de vida, mas principalmente um País rumo ao sonho modernista de ser uma grande nação, mais do ponto de vista cultural do que material. Este ideal nasceu num Brasil no qual a alta cultura era mais um arremedo da cultura europeia fora de lugar. Agora que esse sonho foi em grande parte cumprido, com a cultura brasileira popular transportada para o que se pode chamar de ethos nacional, será que os brasileiros nascidos em meio a essa consagração poderão reconhecer suas raízes nos textos de Nava, belos como costumam ser os sonhos quando não são pesadelos?

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