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Pede pra sair

por Rosane Pavam publicado 21/02/2008 16h54, última modificação 16/09/2010 16h56
Se você está metido em um tanque de guerra no campo de batalha, não é capaz de ouvir as bombas que explodem longe, embora elas lhe sejam visíveis. Isto ocorre porque o carro que você dirige é mais barulhento que os explosivos. Mas quando alguém detona a bomba perto de onde você está, não há como deixar de ouvi-la.

Se você está metido em um tanque de guerra no campo de batalha, não é capaz de ouvir as bombas que explodem longe, embora elas lhe sejam visíveis. Isto ocorre porque o carro que você dirige é mais barulhento que os explosivos. Mas quando alguém detona a bomba perto de onde você está, não há como deixar de ouvi-la.

Esta situação foi descrita com um sorriso, em documentário da “National Geographic”, por um sargento inglês que participou da invasão da Normandia, em 1944. As metáforas guerra-vida surgidas a partir dela são irresistíveis. Aliás, comparações com a guerra estão fora de moda no Brasil, embora prestes a voltar, ao lado das futebolísticas, depois que até mesmo os jurados do festival de cinema de Berlim aplaudiram “Tropa de Elite”.

Este filme brasileiro tipo swat, feito para agradar americanos e muito inteligente ao nacionalizar o modelo do policial heróico a partir da miséria de uma sociedade sem a mediação da justiça, encanta pela reação que causa, por exemplo, nos adolescentes de classe média da avenida Paulista. Eles agora gritam em pequenos grupos, como os boinas do filme, que é hora de pedir para sair.

Mas por que os jovens não comunicaram seus problemas em alto e bom som antes que este filme aparecesse? De uma forma quiçá inesperada até pelo diretor José Padilha, o “Tropa” devolveu-lhes um espaço de convivência roubado pelos condomínios. Impedidos de exercitar a agressividade livremente nas ruas, os adolescentes encontraram no filme um meio de sarar suas dores de inferiores. Sem que ninguém os perturbe, eles agora podem andar pela principal avenida de sua cidade e lá dizer as palavras de ordem daqueles que têm a força para determinar o destino de todos.

Voltou-me a metáfora bélica do inglês. As bombas explodiam ao longe, mas o condutor do tanque não as via, distraído que estava ao ouvir o barulho do próprio veículo. Uma bomba como “Tropa de Elite” foi detonada ao lado de alguns desses espectadores meninos. Agora eles sabem que vivem uma guerra. Mas por que o “Tropa”, filme de qualidade e gosto discutíveis, os fez perceber isto, e não um grande livro escrito por um artesão das palavras e do pensamento?

Porque os livros talvez tenham perdido a função de emocionar e de ligar um ser humano a outro, como o filme fez. Mudaram os veículos que operam a comunicação e a transformação. Em uma entrevista que concedeu a esta repórter em 1995, o crítico búlgaro radicado na França Tzvetan Todorov disse, sobre a arte ser considerada um instrumento de mudança social: “Pode ser um instrumento, pode não ser. Para o artista, a arte é realização, uma forma de alcançar o que ele pode fazer de melhor. Para o artista, a arte é o meio que ele tem de se tornar um super-homem, um meio caminho para Deus.”

Não gostei, à época, de identificar em um artista esta posição decadentista. Que utilidade teria então um escritor, raciocinava eu, além de servir a si mesmo? Mas, para Todorov, que experimentara as agruras do poderio militar soviético e nem por isso se tornara a besta-fera conservadora que muitos hoje reclamam ser, respondeu: “Só existimos em função de nossos relacionamentos. Aquilo de que mais necessitamos é que necessitem de nós.” O escritor, um necessitado como eu...

Passados treze anos desde estas considerações, descubro numa entrevista ao “La Vanguardia” que Todorov está desanimado com o estado da literatura, inconformado como um dia esteve Clarice Lispector com os professores que tornavam desinteressantes os textos literários. Todorov, que bem conhece a França e já esteve em algumas ocasiões no Brasil, uma delas durante a ditadura militar, crê que as pessoas estudem literatura naquele país, hoje, para que possam se tornar professores de literatura _ críticos, não escritores.

A literatura que não liga... Para ele, esta concepção redutora “não se manifesta só nas aulas das escolas ou das universidades; também é representada em abundância entre os jornalistas que resenham os livros e inclusive entre os próprios escritores”. Houve uma evolução, ele afirma, que fez com que os criadores dessem a impressão de “escrever para a crítica”, algo que também aconteceria com a pintura e a arte conceitual.

Mas então é isto! Os escritores teriam um público, sim, mas este seria a crítica, e somente ela lhes encheria de realização... Triste fim. Neste caso, melhor ser um critico que um escritor.

Mais: para Todorov, a literatura não avança porque está submetida a três correntes atuais de escritores: os formalistas, nos quais a literatura só fala dela mesma, com construções engenhosas, simetrias e ecos; os nillistas, segundo os quais “os homens são estúpidos e malvados e a destruição e a violência mostram a verdade da condição humana”; e os solipsistas, vertentes de nillistas para quem, “quanto mais repugnante for o mundo, mais fascinante será o eu”.

Dentro dos tanques barulhentos de sua sobrevivência, não é de estranhar, então, que a maioria dos brasileiros jovens só se sinta capaz de entender as palavras redutoras proferidas em som alto por um filme pequeno e forte. Um livro nascido de um período sabático em Paris, seja formalista, niilista ou solipsista, segundo a classificação de Todorov, tem pouco a lhes mostrar.

Solicitado por uma professora a identificar um lugar onde gostaria muito de estar naquele instante, meu filho de 11 anos não respondeu que seria a própria casa onde mora ou a praia onde surfa, mas o bosque que ele conheceu em um conto de C.S. Lewis. Quero ser otimista e imaginar que neste ponto as coisas literárias recomecem.