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Cariocas Quase Sempre

Paul McCartney está na linha

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 27/04/2011 09h51, última modificação 27/04/2011 09h51
O dia em que o ex-Beatle fez aquele alvoroço numa redação de prestígio

Paul visitará o Rio pela segunda vez. Dois shows estão programados para maio na cidade. É sempre um acontecimento. Mas o impacto da chegada do ex-Beatle já foi maior, embora as bilheterias esgotadas para os espetáculos no Engenhão confirmem a atualidade do mito. No ano passado, tocou em São Paulo e em Porto Alegre e, claro, bombou igualmente.

Anos atrás, o País não costumava ser escala de celebridades de alta linhagem. Paul, além ser a cara dos caras de Liverpool,- é um artista completo, atual, antiestrela e, sobretudo, um sujeito legal. Paul veio depois, mas os Beatles não vieram ao Brasil. É um ressentimento macerado das gerações beat. Mais ou menos como acontecia com Frank Sinatra, que só deu as caras em 1981, trazido por Roberto Medina, também responsável pelo Paul in Rio, em 1990.

Naqueles anos de swinging London etc., não éramos um mercado relevante. A geo-política sempre influenciou os negócios, inclusive o fonográfico. E não tinham inventado o download para deprimir as vendas de discos. Paul estreou no Brasil, no Rio, em 1990. Quem esteve no Maracanã não esquecerá – os filhos do redator, Manoela e Caetano, ainda crianças, lá foram e viraram beatlemaníacos. Veio a Eco-92 e Paul quis se fazer presente, preo-cupado com o futuro do planeta. À véspera da reunião que trouxe ao Rio autoridades mundiais, o telefone tocou na redação do Jornal do Brasil, ainda um dos maiores e melhores jornais do País. Era um assessor de Paul, dizendo que ele gostaria de deixar uma mensagem para a Eco-92.

Alvoroço entre os repórteres. Seria trote? Paul não fora convidado oficialmente para o encontro. Então por que ligar para o jornal? As coisas foram esclarecidas, e era mesmo McCartney querendo marcar um horário para deixar, pelo telefone, sua mensagem solidária. Outro alvoroço se seguiu pela escolha do JB como o porta-voz exclusivo do ex-Beatle para a Eco-92. Ah, e era o Paul ao telefone...

A editora de Internacional, Regina Zap-pa, marcou encontro telefônico com Paul para o dia seguinte, um andar acima da redação do jornal, onde funcionava a Rádio JB. Assim, a conversa poderia ser gravada em estúdio. Mais reboliço na rádio entre técnicos e repórteres. Um ex-Beatle é e sempre será um Beatle. Regina contou não ter dormido direito, imaginando sua conversa com Paul, direto de algum ponto de Londres para a Avenida Brasil, onde ficava o prédio do JB. Em casa ainda, a jornalista tentou explicar sua ansiedade à filha pré-adolescente, contando que estava à véspera de um “grande acontecimento”. A menina não compreendeu bem a dimensão histórica da coisa para a mãe repórter e fã.

No dia seguinte, pontualidade britânica, eis Paul na linha mandando o seu recado para a Eco-92, enquanto Regina, com sua excelência profissional e inglês de exportação, questionava-o sobre o até hoje mal resolvido Tratado de Kyoto e outras pertinências. Paul mostrou opiniões claras e, de quebra, ainda falou de música.

A matéria foi publicada no Jornal do Brasil. Na Rádio JB, a reprodução da conversa da jornalista com o ex-Beatle, com tradução simultânea, foi a grande notícia do dia. Choviam pedidos de ouvintes, atendidos, para que a gravação fosse repetida ao longo da programação. Não é todo dia que Paul McCartney telefona para a casa da gente.

Com o fim do sistema Jornal do Brasil, os arquivos sonoros da rádio foram para o espaço. Mas algumas fitas cassete restam em nossos pequenos baús como documentos sentimentais de tempos que deixaram marcas na história das redações e na vida dos repórteres que por elas passaram. Assim como qualquer canção dos Beatles. •