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Passou, ainda bem

por Marcio Alemão publicado 11/01/2011 17h36, última modificação 11/01/2011 17h36
Pensando no que esteve em voga, 2010 não foi um grande ano para esta coluna

Pensando no que esteve em voga, 2010 não foi um grande ano para esta coluna
Não diria que foi um grande ano para o Refogado. No começo do ano pude estar em Paris, Roma, Amsterdã e ter algumas experiências saborosas. Em Roma, o pequeno restaurante toscano Terra di Siena foi uma descoberta e tanto, totalmente por acaso. E melhor ainda: alguns leitores, seguindo minha humilde recomendação, lá estiveram e me enviaram carinhosas fotos, ao lado de Marco, o proprietário. Afirmaram que ali fizeram suas melhores refeições. Também o Tuna, um sofisticado restaurante de peixes e frutos do mar me encantou.
No Brasil, nenhuma lembrança de um grande prato. Foi, 2010, o ano brasileirinho, o ano da gastronomia verde-amarela. Não faltaram descobertas seguidas de gritinhos de excitação: umbu com redução de siriguela em lombo de cateto selvagem aromatizado com semente de jaca cozida a baixa temperatura. Encontros, convescotes, troca de confetes e serpentinas e a turma que caminha pe las ruas das cidades continua comendo muito mal. E a outra turma, a que deixa os carros com o manobrista, continuou a ser enganada, roubada, mas com inefável satisfação, para perpetuar a mediocrização da gastronomia nacional.
Vou repetir: nunca fomos tão roubados para comer.
Em 2010 o mundo continuou acreditando piamente nos ingleses da revista Restaurant, que afirmou que o melhor restaurante do mundo está na Dinamarca, chama-se Noma e está com reservas completas até... 2100, acho. Isso para seres normais. Todos os críticos do planeta estão frequentando o Noma, como nós frequentamos a garagem de nossa casa. E essa mesma publicação deixou claro que entre os 50 melhores do mundo não existe nenhum restaurante português.
Os vinhos estiveram caros para o meu bolso e por mais um ano ouvi a explicação de sempre: impostos. Acredito nela. Em todo caso, comprei muito pouco vinho durante esse ano. Evitei comer fora ao máximo por falta de grana. Falta de grana e falta de paciência para a já citada mediocridade que pilota os fogões da cidade. Viagem pelo país- não foi possível realizar sequer uma.
Faço uma pausa porque agora me lembrei de um assunto que faz tempo que gostaria de comentar e sempre esquecia: a tal opinião pessoal. Deveria ser obrigatório, antes de qualquer comentário enogastronômico, um alerta: o comentário a seguir não pode ser lido, encarado ou interpretado como uma verdade. Trata-se apenas e tão somente da opinião daquele que o assina.
Eu, por exemplo, gosto de poucas coisas que estão à venda nos restaurantes da cidade. Muitos outros, milhões de outros, amam e não se incomodam em ficar duas horas à espera de uma mesa para comer um rango ordinário... na minha opinião. Tem gente que adora bacalhau com vinho tinto. Na minha boca essa combinação chega a ressoar de tão metálica que se torna. Conclusão: químicas diferentes. Imagine eu propondo uma harmonização... Opa, isso também esteve em voga durante 2010. Muita gente dizendo à turba o que beber para combinar com o comer.
Na verdade, chego a ficar com uma baita dúvida: as pessoas estão de fato ficando abobalhadas ou tudo é uma grande preguiça. Ninguém mais tem paciência de ousar, experimentar, fuçar. Me dê logo nota 90 do Robert Parker e não se esqueça de me dizer com o que eu devo harmonizá-lo.
No meio desta semana encontro, não vou dizer amigos, mas apenas conhecidos conversando sobre  restaurantes. Diziam-se fãs de um local que eu abomino. Uma das piores cozinhas de mundo, certamente. O que disse eu? Concordei. O que fazer diante de tão abissal diferença de paladares?
Certos eles e certo eu. Previsão para o novo ano, não arrisco nenhuma. Desejo, sim: poder levar até você experiências melhores.