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Partido humano

por Orlando Margarido — publicado 04/10/2010 12h51, última modificação 04/10/2010 12h51
Daniel Burman e o afeto com as crises familiares em "Dois Irmãos"

Daniel Burman e o afeto com as crises familiares em "Dois Irmãos"

O diretor argentino Daniel Burman não acredita que as relações humanas sejam muito distintas em seu país. Nem que elas se reflitam de maneira especial no núcleo familiar. Mas seu cinema deve a essas duas faturas parte da empatia com o público e o respeito da crítica. Desde Esperando o Messias, de 2000, Burman enfoca a família pela mira da crise, seja o conflito entre pai e filho (Abraço Partido e As Leis da Família), seja entre um casal (Ninho Vazio). Dois Irmãos, estreia do sábado 8, alardeia no título a configuração que faltava ao conjunto. Solitários, Marcos e Suzana (os atores Antonio Gasalla e Graciela Borges) tentam reatar a convivência depois da morte da mãe, apesar da complacência de um e do temperamento opressor da outra.

É um filme tomado por esse elemento afetuoso e humano tão próprio de Burman e talvez de uma geração recente argentina, mesmo quando a rispidez se impõe na cena em que o irmão ressentido diz o que pensa da irmã apenas em sonho, enquanto esta lhe atira na cara sua condição vulnerável. “Agora que falamos nisso, talvez haja um ponto em comum no cinema realizado nesse período”, atenta o cineasta de 37 anos a CartaCapital, em sua passagem por São Paulo. “Mas ainda que perceba o interesse nos dramas humanos em Lucrecia Martel, por exemplo, creio que cada um promove seu olhar de maneira diferente.” E de onde viria a recorrência do tema da família? “Tudo o que nos cerca remete a ela, mesmo quando não convencional, como as relações de trabalho, e caminham para um inevitável fracasso.”

Colada a essa questão, aparece outra, a da identidade. Burman é judeu de ascendência polonesa, referência e discussão de seu primeiro filme. Considera natural a abordagem em nossos tempos. Diz não querer fazer apologia de algo que muitas vezes resvala para o território moral e que o assunto lhe ocorre nos filmes quando o contexto exige. Só assume uma postura mais convicta ao ser lembrado de sua formação como advogado, anterior ao cinema, e a constante relação que faz ao universo legal, óbvio em As Leis da Família, decisivo em Dois Irmãos na questão do patrimônio herdado.

“Acho positiva a visão da legalidade. É a única maneira de responder a casos, por exemplo, de infidelidade.” Ele prefere não legislar, contudo, em um debate que já se tornou corrente, opondo o cinema brasileiro ao argentino no que toca à superioridade deste último em manejar os dramas do cotidiano e conferir a eles força na tela. Burman não tem assistido a filmes daqui pela raridade de distribuição em seu país, mas arrisca que, longe de ser fenômeno local, o saber contar uma história humana tem a ver com saber olhar a realidade.