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Paris antes da queda

por Araújo Lopes — publicado 06/02/2011 13h46, última modificação 06/02/2011 13h46
Como teriam artistas e intelectuais convivido com o crescente poder nazista? O historiador William Wiser respondeu à questão em um livro publicado pela primeira vez há dez anos. Por Araújo Lopes

Quando, em junho de 1940, Paris foi tomada pelas tropas nazistas, a Europa sentiu-se golpeada. Era a vitória da incerteza, sinal de que algo tomava o caminho errado. Depois de uma campanha que durara apenas 39 dias, blindados alemães andavam pelas ruas da capital francesa. E Adolf Hitler exigia que a rendição fosse assinada no mesmo vagão de trem em que alemães e franceses acordaram o fim à Primeira Guerra Mundial. Com a diferença de que, em 1918, a França era a vencedora.

Como teriam artistas e intelectuais convivido com o crescente poder nazista? O historiador William Wiser respondeu à questão em um livro publicado pela primeira vez há dez anos. Se Paris era a cidade, a luz estava com o escritor Ernest Hemingway, o compositor Cole Porter, o pintor Pablo Picasso, a estilista Coco Chanel. E com tantos outros artistas e empreendedores, como Salvador Dalí, Sylvia Beach e Anaïs Nin.

Wiser já havia detalhado a década anterior em Os Anos Loucos – Paris na década de 1920, e se saído muito bem. As duas décadas merecem comparação. A euforia dos anos 20 na Paris libertária cedeu lugar, após o crack da Bolsa de Nova York, em 1929, à depressão, à crise financeira e ao desânimo dos anos 30. Muitos americanos que mantinham Paris esfuziante voltaram a seu país em razão das dificuldades econômicas, deixando na capital francesa um gosto de croissant frio.

Nos anos 30, contudo, muitos artistas ainda estavam lá. Wiser nos conta, por exemplo, que durante todo o outono e o inverno de 1939 os bailes e soirées espalhavam-se. Neste meio tempo, a França construía 50 aviões por mês, e a Alemanha, 500. É quando os capítulos ganham nomes mais sugestivos do sentimento de derrota que se espalhava: “Presságios e alarmes”, “A última dança”, “Êxodo”, “A queda”.

Curioso notar como parte dos artistas se recusava a acreditar no avanço de Hitler, mesmo que os sinais fossem evidentes. Nos cafés, os garçons pediam que os fregueses pagassem as gorjetas antes que alguma sirene antiaérea tocasse. Durante as festas de fim de ano de 1939, James Joyce, que vivia angustiado, decidiu dançar. “Vamos, você sabe muito bem que é o último Natal”, disse à sua parceira. No fim daquele ano, os bombardeios começaram e as festas não aconteceram mais.

OS ANOS SOMBRIOS – PARIS NA DÉCADA DE 1930
William Wiser, 366 págs., R$ 55
José Olympio