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Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

"Paratodos" contra a lei da gravidade

por Matheus Pichonelli publicado 24/06/2016 17h21, última modificação 24/06/2016 19h59
Não há como ignorar o esforço de um atleta paralímpico para romper barreiras esportivas, culturais e sociais. Isso diz respeito a todos nós
Paratodos

Em 12 de junho de 2012, Alan Fonteles, desbancou, aos 19 anos, o favoritíssimo Oscar Pistorius

Existem muitas formas de assistir “Paratodos”, documentário dirigido por Marcelo Mesquita que estreou durante a semana nos cinemas do país.

Uma delas é observar o filme como o retrato de um ciclo olímpico. Na tela, vemos alguns dos principais nomes do esporte nacional entre treinos, competições, viagens e compromissos familiares e afetivos entre 2012 e 2016.

Como em qualquer esporte, acompanhamos com uma tensão natural os altos e baixos da carreira de um atleta que, como qualquer atleta, tem na conquista da autoestima, da confiança e da motivação o primeiro salto em direção a uma meta. Como também em qualquer esporte, esta meta não envolve apenas um plano pessoal, mas uma história e um símbolo daquilo que o atleta representa: um país inteiro que torce e se reconhece em sua capacidade de reinvenção, doação, improviso, fracassos e glórias.

Mas não apenas. Durante o documentário, não acompanhamos somente a rotina de atletas de alto rendimento em suas modalidades às vésperas da Rio 2016 – e todas as atenções e responsabilidades envolvidas num evento como este em casa. É um filme barreiras, e elas estão por toda parte quando se trata de modalidades paralímpicas, o tema do filme.

A primeira delas é a invisibilidade. Na sexta-feira 17, acompanhei a exibição do filme em uma cabine para jornalistas e participei da coletiva de imprensa com alguns dos atores/personagens. Antes da sessão, todos eles eram desconhecidos para mim – de um apenas tinha alguma referência, mas me envergonhava por não saber sequer seu nome.

A barreira entre nós não perdurou somente um ciclo olímpico, mas uma vida inteira – e eu, assinante dos principais canais esportivos da TV a cabo, frequentador de estádio e consumidor assíduo (pensava eu) do noticiário impresso e online, não poderia sequer fingir que esporte não era uma área de meu interesse.

Pois à minha frente estava, por exemplo, um jovem que em 12 de junho de 2012, aos 19 anos, desbancou o favoritíssimo (e até então, notório apenas por sua performance nas pistas) Oscar Pistorius na prova dos 200m rasos T44 da Paraolimpíada de Londres.

Tenho no esporte uma espécie de baliza de minhas memórias afetivas. Lembro de bate-pronto das finais da Copa de 94 e de 2002. Lembro das conquistas olímpicas do vôlei, masculino e feminino. Lembro quando Gustavo Kuerten desenhou um coração na quadra de Roland Garros. Lembro de todas as conquistas de meu time do coração.

Mas não me lembro onde estava nem o que fazia naquele 12 de junho de 2012 – e só me dei conta do meu descaso quando o diretor decidiu transformar a conquista de Alan Fonteles, um dos principais talentos olímpicos brasileiros, em história de cinema.

Foi como puxar um fio de novelo: com ele vieram histórias de outros destaques do esporte nacional aos quais era apresentado em cada aproximação da câmera.

Ao fim da sessão, me sentia próximo da velocista Terezinha Guilhermina, tricampeã olímpica (duas vezes nos 200m rasos em Pequim e Londres e uma dos 100m, também em Londres) e Yohansson do Nascimento (ouro nos 200m rasos em Pequim), dos paracanoístas Fernando Fernandes, ex-BBB que sofreu um acidente automobilístico e se transformou em máquina de conquistas medalhas, e Fernando Rufino, ex-peão de rodeio que na canoa virou o “Cowboy”, os nadadores Daniel Dias, maior atleta paralímpico brasileiro, e Susana Schnarndorf, triatleta que luta na água e fora da piscina contra uma doença degenerativa, os meninos do futebol de 5 (disputado por pessoas com deficiência visual) e seu treinador desbocado, além de Fonteles.

Deles podemos notar os sotaques, as origens, as distâncias em relação ao centro de um mundo paralelo que concentra recursos, prestígios e atenções em seu esporte nacional favorito: o futebol – aquele disputado, vale lembrar, por homens em meia dúzia de equipes do chamado primeiro escalão.

Entender por que levei tanto tempo para conhecer aquelas histórias era uma outra forma de compreender o filme. Para isso, era preciso ter em conta as particularidades de seus personagens – jamais ignorá-las.

Na coletiva, todos diziam ter como meta não apenas uma conquista olímpica, mas um reconhecimento. Esse reconhecimento passa, sim, por medalhas, buscadas com treinos intensos, trabalho afinado (mais do que qualquer esporte olímpico dito convencional) com a equipe, treinadores, equipamentos, classificação de modalidade e outras dificuldades comuns a todo esportista. Mas passa também pelo reconhecimento da humanidade daqueles atletas, palavra citada sempre ao fim da fala de cada um ao fim da sessão.

De fato, como lembrou Susana Schnarndorf, é possível assistir ao filme sem sequer lembrar que se trata de atletas portadores de deficiência – mérito do diretor que optou por colocar em foco o que os atletas têm em comum com a maior parte do público – como o conflito do adolescente que por pouco não trocou a carreira de treinos pelo prazer de uma vida sem regras entre churrasco e coca-cola – e não as suas imitações.

É como se estas limitações migrassem da tela para a plateia, e é aqui que entram as tais barreiras dos primeiros parágrafos. Entre o esforço e o reconhecimento daqueles atletas existe um fator chamado invisibilidade, resultado direto da distância entre ser e querer ser tratado como uma pessoa, não um atleta, “normal”, e ser de fato reconhecido como tal.

Esse desejo é um caminho de mão dupla. A chegada é uma questão em aberto para a plateia – que, querendo ou não, precisa colocar em xeque o conceito de normalidade para ampliar, em sua própria vivência, as noções de diversidade e acolhimento. Estamos longe disso, e nosso esquecimento em relação à conquista, e não à dor, de um supercampeão olímpico é sintomática desse ruído.

A ideia de uma identidade, afirmou o psicanalista Benilton Bezerra Jr. durante o Café Filosófico CPFL sobre “O Valor das diferenças em um mundo compartilhado”, que a TV Cultura levou ao ar recentemente, é pensada a partir de contraposições – o que é legitimo e o que não é – e deve ser sempre questionada. É da nossa natureza produzir diferenças, explica ele. No entanto, quando produzimos diferenças, produzimos também hierarquias; estas criam identidades e naturalizam as diferenças.

Pensar em um mundo melhor não significa ignorar as diferenças, mas criar um “embrião daquilo que um dia pode levar a uma sociedade melhor”. Essa sociedade melhor é uma sociedade que não precisa classificar quem deve ou não ser excluído da vida pública, amplia a ideia de “nós” e compreende que a dor do outro também nos diz respeito.

Quando tema é esporte, dor e alegria andam quase sempre na mesma linha, mas as hierarquias criadas a partir de uma ideia de “normal” e “diferente” são ainda consagradas.

“Paratodos” é, sim, um filme sobre os trabalhos de Hércules para a construção de conquistas olímpicas. Mas é também um exercício de reconhecimento da plateia sobre a forma como convivemos com as diferenças.

Essa convivência nem sempre acolhedora faz com que os atletas paralímpicos se deparem com uma espécie de força gravitacional extra mesmo quando a vitória é (ou deveria ser) notável. Em determinado momento, o filme capta a tentativa dos atletas de escapar de questionamentos feitos por jornalistas a respeito não das conquistas ou dos preparativos para as provas, mas da “deficiência”. “É de nascença?”; “Você lida bem com isso?”; “Qual é o seu problema?” são perguntas que eles devem responder o tempo todo como se tivessem, também fora das provas, de pular barreiras, se afirmar e devolver aos interlocutores: “Qual o seu problema de vocês?”

Para parte do público, o problema não é abordar esses diferenças, mas fazer dela um impeditivo – a “pena” que tenta transformar grandes atletas em coitados muitas vezes não impede o interlocutor de estacionar ou usar os banheiros preferenciais nem de se questionar de que maneira nossas cidades estão preparadas para trazer os portadores de deficiência ao centro convívio.

Para os personagens do filme, driblar a invisibilidade, muito mais do que qualquer limitação física, requer um esforço extra contra a força gravitacional que tem no confinamento de suas casas uma delimitação da própria existência em direção ao mundo.

Não há como ignorar o esforço extra para romper barreiras que são culturais e sociais, e não naturais, para subir ao pódio. Por isso tanta gente saiu engasgada da sessão: porque essa sociedade diz respeito a nós.

Entre tantas histórias de superação, ora divertidas, ora mais tocantes, “Paratodos” deixa uma pergunta em aberto: por que boa parte do país que se tornou uma potência paralímpica ainda mal conhece seus protagonistas? A resposta não está só nos atletas, mas na nossa capacidade de conviver e conviver com a diversidade. Basta notar o quanto nossas atenções, que descambam nas vias públicas e estruturas privadas, ainda pecam em questões como visibilidade e acessibilidade. Que a disputa, agora em solo pátrio, ajude a derrubar ao menos parte desses muros.

Em tempo. Com o filme, torci, vibrei e comemorei vitórias olímpicas como se elas acontecessem ao vivo – para mim, que não sabia o resultado das provas e jogos, era como se fosse. O restante da história só vou descobrir quando os Jogos tiverem início.