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Resenha

Para uma história das fantasias brasileiras

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 25/08/2011 15h11, última modificação 25/08/2011 15h13
Chega às livrarias o volume 'As Melhores Novelas Brasileiras de Ficção Científica', organizada por Roberto de Sousa Causo

A Devir Livraria, que também opera como editora, tem publicado com o selo Pulsar uma série de antologias que buscam recuperar a história da ficção científica brasileira. Depois de dois volumes de Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, chega às livrarias o volume As Melhores Novelas Brasileiras de Ficção Científica (224 págs., R$ 29,50), organizada por Roberto de Sousa Causo com quatro obras escritas dos anos 1930 aos 1990 por Afonso Schmidt, André Carneiro, Rubens Teixeira Scavone e Finisia Fideli.

Vale observar que, no sentido estrito, apenas “Zanzalá” de Afonso Schmidt, falecido em 1964, é mesmo uma novela, tanto pelas convenções dos editores do gênero (narrativa de 17,5 mil a 40 mil palavras) quanto pelo conceito estrutural de encadeamento de células dramáticas (cada uma com começo, meio e fim), que originalmente foram capítulos publicados em série, em 1936, no suplemento literário do jornal O Estado de São Paulo. As outras três são “noveletas” pela convenção editorial (7,5 mil a 17,5 mil palavras) e pela estrutura são contos longos. Nenhum dos textos, além disso, chega realmente a explorar algum tipo de especulação fundamentada na ciência ou na tecnologia. São histórias de fantasia sobre temas religiosos, esotéricos ou de terror psicológico, que recorrem apenas superficialmente a convenções da ficção científica. Nem por isso deixam, porém, de ser interessantes.

“Zanzalá” é uma peculiar utopia na Cubatão de 2028, quase um século à frente dos leitores originais. Inclui robôs, redes mundiais de televisão, eletricidade transmitida pelo ar, grandes aeronaves que viajam entre os continentes em menos de meia hora e maiôs (dos anos 1930, deve-se supor) usados como traje social entre arranha-céus construídos na encosta da Serra do Mar (e a Mata Atlântica quase desapareceu, o que não parece perturbar o autor apesar de seu declarado amor pela natureza).

Mas esse cenário, mero divertimento para o leitor, é usado de maneira pouco consistente. Apesar da devoção dessa civilização futura à “simplicidade”, um dos personagens, o mestre Flanela, é um músico que enlouqueceu depois de abandonado por uma namorada que se resolveu casar-se com um “patrício” (ou seja, um quatrocentão da velha elite paulista) para “montar casa e ter muitos filhos” com futuro garantido porque “a vida não era aquilo”. Os personagens têm vidas simples em casinhas bucólicas e trabalham como artistas e agricultores entre imensas avenidas, arranha-céus, monumentos grandiosos, sem sinal das indústrias que teriam de sustentar tudo isso. É como sonhar com comunidades alternativas modestas e autossuficientes, sem abrir mão do 4x4 e da TV de plasma de 40 polegadas.

O tema é a aceitação da morte, tão exagerada que soa como negação ansiosa. Tuca, a bailarina cuja história articula a narrativa, anuncia aos pais o noivado com um colega. Soa “moderno”, mas o pai via e ouvia um videolivro enquanto a mãe “esmagava os espinafres na cozinha” (são vegetarianos). Logo depois, a jovem sente-se mal e um médico cuja única função parece ser prever a morte avisa que ela morrerá em três meses porque “gastou o quinhão de vida que trouxe do berço”.

Todo mundo parece contente, inclusive ela. Mas no fundo nem tanto, porque o noivo procura primeiro um pai-de-santo que não dá nenhuma resposta e deixa uma impressão desagradável, depois um médium espírita que invoca um ectoplasma que lhes garante que “a morte não é castigo, é bênção” e depois um teosofista (sequência apresentada mais ou menos como evolutiva) que os conduz ao plano astral para lhes mostrar os desígnios divinos, nos quais a morte é apenas o outro lado da vida e mesmo os déspotas que promovem guerras e genocídios são instrumentos da Divindade para “revolver o mundo como um tacho” quando a humanidade “estaciona e se torna incapaz de evoluir”. Para concluir o capítulo, um discípulo de Krishnamurti garante que um “ser que morre é uma flor que murcha e nada mais”.

O restante são variações sobre o mesmo tema. O capítulo mais lírico descreve um grandioso concerto regido pelo Mestre Flanela – contra a oposição dos músicos profissionais, mas com apoio dos bailarinos liderados por Tuca e seu marido – com os sons do vento, do canto dos pássaros e de outros sons da natureza e o bailado de seus amigos, que se mostra um grande sucesso. Cumprida sua missão, o maestro-compositor morre algum tempo depois.

O capítulo mais extremo, digno de uma peça de Eugène Ionesco, conta a insurreição de uma comunidade vizinha formada por “caborés”, que são “europeus” que insistem em viver à maneira do século 20, com roupas, chapéus e dinheiro e atacam a utopia de Zanzalá com canhões, metralhadoras e bombardeiros. Após o espanto inicial, os moradores parecem não aceitar a morte tão facilmente, pois a maioria deles (inclusive a recém-casada moribunda) tenta fugir. O resto do mundo, porém, mostra curiosidade pelo fenômeno, e milhões de turistas descem de São Paulo ou vêm de outras partes da América do Sul e do mundo para presenciar esse espetáculo que não era visto desde o século anterior – e parece que muitos se deixam matar por pura diversão, até que os invasores aparentemente desistem por exaustão ou esgotamento da munição ante a massa de turistas e são capturados e encaminhados às famílias interessadas na sua reeducação.

A noveleta “A Escuridão”, de André Carneiro (1963), autor ainda em atividade, lembra muito o romance Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago (1995), mas as pessoas não ficam cegas em massa. De maneira ainda mais misteriosa e cientificamente inexplicável, toda luz (inclusive a do Sol) e toda energia utilizável pela humanidade (inclusive a mais básica, a do fogo) se extinguem, embora a temperatura não caia e o ar continue respirável. O resultado, porém, é o mesmo: por dias a fio, a civilização entra em colapso, há saques em toda parte, muitos morrem de fome e aqueles que já eram cegos são os únicos a conseguirem se orientar em meio ao caos.

Ao contrário do que se passa no livro de Saramago, nesta noveleta se enfatiza os atos de solidariedade mais que os de egoísmo. Os cegos se mostram benevolentes e dão uma ajuda desinteressada a pelo menos alguns dos desesperados, dentro dos modestos recursos de que dispõem. Apesar da situação absurda, a narrativa é muito convincente e consegue fazer do infantil medo do escuro algo mais aterrorizante que qualquer monstro, vampiro ou psicopata de filmes de terror. A sensação de desamparo e impotência que nos invade a cada vez que somos surpreendidos por um apagão noturno de poucas horas é aprofundada até ao limite.

“O 31º Peregrino”, de Rubens Teixeira Scavone (1993), decepciona tanto em relação ao restante da coletânea quanto a outras obras do mesmo autor, que desde 1957 explorava o tema dos discos-voadores sob diferentes aspectos. Este texto é do último livro desse autor, falecido em 2007 e é em parte um exercício estilístico não muito bem sucedido. O cenário é a Inglaterra do século XIV, entre os peregrinos dos Contos de Canterbury (ou de Cantuária) e o texto é atribuído ao próprio Geoffrey Chaucer. Mas se o que se pretendia era dar à linguagem um sabor medieval, o texto é um fracasso.

Vale a pena deter-se nisto porque erros semelhantes continuam a ser cometidos com frequência por jovens autores que tentam escrever fantasia e ficção histórica “medievais”. Talvez por influência do romantismo do século 19, confundem “antigo” com “pedante”, enchendo o texto de palavras difíceis que nada têm a ver com uma linguagem medieval autêntica. Esta por vezes confunde o leitor moderno com termos ou construções arcaicas, mas é quase sempre simples e direta, às vezes grosseira pelos padrões de hoje. Eis um trecho do verdadeiro Chaucer, na tradução de Paulo Vizioli:

Era forte o Moleiro, era um colosso,

De músculo era grande, e grande de osso,

E onde lutasse, no país inteiro,

Sempre levava o prêmio do carneiro.

Era entroncado, largo atrás e à frente.

Tirava qualquer porta do batente,

Ou na testa a quebrava em disparada.

A barba era uma pá, larga e arruivada,

Como porca ou raposa no matiz.

Havia, no espigão de seu nariz,

Verruga de pelugem tão vermelha

Quanto as cerdas que a porca tem na orelha,

Suas narinas, antros de negrura.

Tinha broquel e espada na cintura.

A boca era fornalha desmedida.

Só matracava casos de má vida,

Histórias de pecado e putaria.

Compare-se com um trecho da noveleta de Scavone, parte de uma longa fala atribuída à filha de um modesto granjeiro:

– Ao começo do outono, quando recolhia na floresta o mel das abelhas selvagens, as aparições terminaram. A natureza se esvaía aos poucos, mas eu cobrava rápido alento, esfumaram-se as quimeras: o Senhor teve piedade de mim; se as folhas amarelavam eu renascia rubente. O tempo voou, a invernia eclodiu sem anúncios; a nortada e a neve fustigavam as tábuas mais finas da cabana e, cessando, uma paz sagrada pousava sobre os campos (...)

Claro que Chaucer jamais escreveria coisa parecida e uma camponesa não diria (nem entenderia) algo do gênero. Em vez de retratar a Idade Média, essa escrita a falsifica sob uma grossa camada de chavões. Se o objetivo era brincar com esse tipo de estilo, o cenário adequado seria um sarau parnasiano.

A noveleta sai-se menos mal ao especular sobre as interpretações de homens medievais de um mistério ao estilo de Arquivo X (ou, considerando a época, Além da Imaginação ou Os Invasores), envolvendo uma mulher engravidada por extraterrestres e a aterragem de um disco-voador. Ainda assim, restringe-se ao que é lugar-comum sobre a mentalidade religiosa e supersticiosa da época e os acontecimentos em si não fogem dos estereótipos do terror ufológico – não uma especulação racional sobre visitantes extraterrestres, mas a exploração do horror ante uma violência grotesca e inexplicável, que funcionaria da mesma forma caso se tratasse de vampiros ou lobisomens.

A última noveleta, “A Nós o Vosso Reino” (1998), é de Finisia Fideli, escritora ocasional de ficção especulativa, médica homeopata e esposa do organizador Causo. Mais uma vez, predomina a fantasia. Uma assistente social espírita com uma “relação pessoal com Deus” é conduzida pelo professor de ioga a uma reunião do que aparentemente é mais uma seita filosófica New Age que pretende salvar a humanidade do apocalipse esperado para o ano 2000.

Embora cética em relação às profecias e pretensões do líder, a protagonista acaba por aceitar participar do trabalho social do grupo com ex-drogados. Mas isso não basta para o suposto profeta, que a quer forçá-la a todo custo a entrar no núcleo dos iniciados, até que seus verdadeiros motivos são revelados: trata-se de escolher certas pessoas, inclusive ela, para serem possuídas e utilizadas por estranhos seres que parecem feitos de fumaça escura.

Tenta-se analisar, de maneira em parte metafórica, em parte realista, como pessoas cultas e aparentemente inteligentes podem aceitar crenças absurdas e se deixar manobrar sem resistência. Mas sua força está na caracterização realista da heroína como mulher independente e de ideias próprias, que encara a vida, o amor e o mistério no qual se envolve com uma bem equilibrada de fé e ceticismo. Mostra-se capaz de amar com sinceridade sem se perder na paixão e sem tentar aprisionar o amado, deixando-o partir quando ele assim o quer, assim como de cooperar com a seita naquilo que lhe parece ter de positivo, sem perder a distância e a atitude crítica.

Mais uma vez, não se vê especulação propriamente científica: os seres ameaçadores são extraterrestres (ou assim creem os personagens), mas fariam mais sentido como demônios ou maus espíritos.

Se há alguma ciência bem explorada nestes textos é apenas a da psicologia. O que esta coletânea exemplifica – como já indicava Ficção Científica, Fantasia e Horror No Brasil, estudo do mesmo Roberto de Sousa Causo –, é que a ficção científica brasileira do século 20 foi na maioria das vezes um pretexto para jogar com fantasias inusitadas, com novas lendas urbanas ou com a atualização de tradições místicas e esotéricas. Ideias técnicas e científicas, quando aparecem, são tratadas como se fossem mais uma fantasia inexplicável, não como possibilidades a serem exploradas ou criticadas de maneira racional. Uma atitude de intelectual clássico, perplexo com uma modernidade que lhe parece cair do céu. Até quando?