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Para inglês entender

por Francisco Quinteiro Pires — publicado 09/11/2011 12h21, última modificação 09/11/2011 12h30
O biógrafo Benjamin Moser coordena novas traduções dos clássicos de Clarice Lispector, respeitando o texto original da autora
Benjamin

Edições de A Hora da Estrela, vertida por Moser para a New Directions, buscam recuperar o tom literário da escritora, perdido em traduções anteriores. Foto: Luiz Maximiano

A escritora Clarice Lispector (1920-1977) ganhou uma segunda chance no mundo que fala inglês. Cinco dos seus livros, Perto do Coração Selvagem, A Paixão Segundo G.H., Água Viva, A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida, vão receber novas traduções. Coordenador do projeto, Benjamin Moser vê na empreitada a oportunidade de Clarice ser mais conhecida nos Estados Unidos e no Reino Unido. Segundo Moser, dada a má qualidade das versões em inglês, quem lê a autora brasileira corre o risco de não entendê-la. “O erro das antigas traduções foi querer tornar o seu estilo mais legível”, diz.

Autor de Clarice, uma Biografia (Cosac Naify), Moser considera praticamente impossível traduzir os livros da ficcionista. “O dela não é um português normal, ele é agressivamente estranho.” Moser assina a nova tradução de A Hora da Estrela (1977), a ser publicada em novembro pela New Directions (EUA) e pela Penguin Classics (Reino Unido). Alison Entrekin vai traduzir Perto do Coração Selvagem (1944); Idra Novey, A Paixão Segundo G.H. (1964); Stefan Tobler, Água Viva (1973); e -Johnny -Lorenz, Um Sopro de Vida (1978).

Fundada em 1936, a New Directions angariou respeito ao revelar autores modernos, como Dylan Thomas e Law-rence Ferlinghetti, e traduzir, entre outros, Roberto Bolaño, Louis-Ferdinand Céline, W.G. Sebald e Javier Marías. Baseada em Nova York, ela iria reeditar a antiga tradução de A Hora da Estrela por Giovanni Pontiero (1932-1996), com uma introdução do escritor irlandês Colm Tóibín. Moser convenceu Barbara Epler, presidente da New Directions, e Paulo Gurgel Valente, o segundo filho de Clarice, de que um novo projeto seria melhor.

Em carta para Valente, o biógrafo listou os problemas da versão de Pontiero, celebrado por traduzir José Saramago. Frases inteiras desaparecem. Palavras da língua portuguesa são ignoradas e soluções em inglês, inadequadas. Às vezes, Pontiero adiciona expressões para reforçar o comportamento dos personagens. Para o trecho “Ela uma vez pediu a Olímpico que a telefonasse. Ele disse:”, o tradutor sugere o equivalente em inglês a “Ele deu uma resposta devastadora”. Segundo Moser, Pontiero poderia ter colocado apenas “Ele disse”, respeitando o texto original. Uma figura medieval, por exemplo, transforma-se em primitive creature (criatura primitiva). “Não há fidelidade ao estilo de Clarice.”

Machado de Assis também sofreu ao ser vertido para o inglês. Especialista na obra machadiana, John Gledson lembra que, quando Robert Scott-Buccleuch traduziu Dom Casmurro, nove capítulos foram suprimidos. “É um caso escandaloso”, diz Gledson, “não havia nem o índice com os títulos dos capítulos.” Publicada pela Peter Owen, editora independente de Londres, a tradução foi reeditada pela Penguin Classics e depois desapareceu do mercado. Embora Moser e a Penguin Classics afirmem que Clarice é a primeira escritora brasileira a figurar no catálogo da editora, os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (Epitaph of a Small Winner) e Dom Casmurro foram lançados pela empresa britânica nos anos 1960 e 1990, respectivamente.

Gledson traduziu Dom Casmurro, em meados dos anos 1990, para um projeto da Oxford University Press. Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba ficaram a cargo de Gregory Rabassa, autor da primeira tradução para o inglês de um romance de Clarice, A Maçã no Escuro (1961). O trabalho de Rabassa em relação a Memórias... é, segundo Gledson, “cheio de erros, grandes, pequenos, e de infelicidades”. Ele não adota, como Gledson fez na sua versão, notas explicativas. “Não olhei em detalhes a tradução de Quincas Borba, mas algumas verificações me fazem pensar que o mesmo problema aconteceu”, diz o crítico inglês.

Harold Bloom elogiou as traduções deficientes de Rabassa. O fracasso literário de Quincas Borba, ele afirmou, deve-se ao fato de ser narrado em terceira pessoa, “que não é o forte de Machado”. Para Gledson, Bloom é o “exemplo mais grotesco” da separação entre forma e conteúdo na interpretação das obras machadianas. Essa leitura crítica no mundo anglófono criou o Machado brasileiro e o Machado modernista. “A tarefa de dar um perfil em inglês para Machado de Assis apenas começou”, diz Gledson. Parece ser esse o caso de Clarice Lispector.

Quando Giovanni Pontiero verteu para o inglês A Hora da Estrela, Perto do Coração Selvagem e Laços de -Família, ele suavizou “a linguagem vívida e peculiar- que é parte considerável da personalidade literária da autora brasileira”. Por muitos anos, Gledson adotou Laços de Família (1960) como tema das suas aulas. “Livro mais acessível e sedutor, ele precisa desesperadamente de uma nova tradução.” A depender da recepção do mercado, o próximo passo, segundo Benjamin Moser, será traduzir os contos completos da ficcionista.

“Uma tradução feliz não necessariamente levará à fama, mas acho que é uma condição sine qua non”, diz Gledson. O custo médio da tradução bem-feita de um romance é 7 mil dólares. “Mas o maior obstáculo é a gigantesca e ainda crescente importância do inglês.” Essa supremacia resulta na falta de interesse por outros idiomas e culturas. Segundo Gledson, o fato de ficcionistas australianos, sul-africanos e indianos que empregam a língua inglesa ganharem mais destaque e prêmios (The Man Booker Prize é o melhor exemplo) só reforça o monopólio cultural. “É difícil ser otimista.”

Em Is That a Fish in Your Ear?: Translation and the meaning of everything, lançado pela Faber & Faber neste mês, o tradutor David Bellos discute a ânsia mundial pela língua inglesa. Não à toa, 75% das traduções feitas durante um ano são de obras escritas em inglês. Na última década, 103 mil dos 132 mil livros traduzidos foram do idioma de Shakespeare para as sete línguas mais faladas.

“A literatura traduzida ocupa, de fato, um espaço quase insignificante na academia”, diz César Braga-Pinto, professor do Departamento de Espanhol e Português da Northwestern University. “Mesmo assim, Clarice é lida nas universidades norte-americanas.” Ele explica que os EUA sempre precisam de um rótulo para digerir escritores estrangeiros. A descoberta de Clarice veio com o boom latino-americano. No fim de 1967, escritores como Jorge Luis Borges, Alejo Carpentier, Gabriel García Márquez, Vargas Llosa e Carlos Fuentes receberam a rubrica de “realismo mágico”. Àquela altura, a tendência, diz Braga-Pinto, era tornar palatável a prosa de Clarice. O resultado foi problemático. “Pontiero cometeu erros primários de incompreensão linguística tanto por conservadorismo quanto por desleixo.”

Ele diz ser possível fazer uma boa versão de Clarice em inglês, por mais estranha que seja sua sintaxe. “A melhor tradução é de Água Viva (Stream of Life), feita por Earl E. Fitz e Elizabeth Lowe”, diz. Braga-Pinto questiona se traduções fiéis ao estilo da autora poderiam ter espantado ainda mais os leitores. “A princípio limitadores, os rótulos podem colocar a obra de Clarice em diálogo com mais tradições. Não há por que estudá-la apenas sob a perspectiva da literatura brasileira.”

Foi o que pretendeu sua biografia. “Uma abordagem mais recente, na qual se inclui o livro de Moser, interpreta a vida e a obra da autora brasileira segundo a diáspora judaica”, diz Marta Peixoto, professora da New York University. Clarice nasceu na Ucrânia e, ainda bebê, imigrou com a família para o Brasil. Marta se pergunta quem leria “os textos difíceis e agressivos” de Clarice fora da academia. “O grande interesse despertado pela biografia, a julgar pelas muitas resenhas publicadas na mídia, surgiu não de um conhecimento prévio do público norte-americano, mas da escolha feliz do biógrafo de narrar a trajetória de Clarice no contexto da perseguição e das migrações dos judeus no século XX.”

Autora de Ficções Apaixonadas: Gênero, narrativa e violência em Clarice Lispector, publicado em inglês pela University of Minnesota Press, em 1994, Marta conta que a recepção da obra lispectoriana depende das modas acadêmicas. A escritora foi tema de estudos existencialistas, psicanalíticos, feministas, estruturalistas, pós-estruturalistas e pós-colonialistas. O maior renome de Clarice entre os norte-americanos não foi criado nos EUA, mas na França, a partir dos anos 1970. “Os textos de Hélène Cixous, logo traduzidos para o inglês, apresentaram Clarice como exemplo perfeito da écriture féminine.” Segundo esse conceito teórico, certos escritores, não necessariamente do sexo feminino, criam textos que “favorecem o gasto, a doação, o risco”.

Para Earl E. Fitz, professor da Vanderbilt University e autor de Clarice Lispector (1985), a divulgação da obra lispectoriana depende de uma apresentação crítica competente. As expectativas dos leitores têm de ser consideradas, assim como as dificuldades de estilo, sintaxe e pontuação, ao traduzir a autora brasileira. “Complexidades estilísticas e ambiguidades temáticas não agradam a um país de raí-zes utilitárias como os EUA”, diz. “É preciso explicar a singularidade da ficção de Clarice no contexto brasileiro e no internacional.” Quando estudante, Fitz teve Gregory Rabassa como mentor. “As traduções, ele dizia, deveriam ser refeitas de tempos em tempos para dialogarem com cada geração.” O futuro de Clarice está em jogo.