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Para alimentar a imaginação

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 19/11/2009 18h10, última modificação 08/09/2010 18h11
Depois de muitos anos de estagnação pontuada apenas por valentes fanzines de qualidade incerta e variável, antologias de contos brasileiros (com participação ocasional de portugueses e hispanoamericanos) de ficção científica, horror e fantasia, com autores de categoria profissional, estão voltando a se tornar rotina.

Depois de muitos anos de estagnação pontuada apenas por valentes fanzines de qualidade incerta e variável, antologias de contos brasileiros (com participação ocasional de portugueses e hispanoamericanos) de ficção científica, horror e fantasia, com autores de categoria profissional, estão voltando a se tornar rotina. Da gaúcha Editora Não, têm sido lançados desde o final de 2008 três livros da coleção Ficção de Polpa. Da paulista Editora Tarja, foram lançados desde 2005 três livros da coletâneaNecrópole, em 2008 a Histórias do Tarô e em 2009 a série Paradigmas (três livros já lançados, mais um previsto para dezembro) e a coletânea Steampunk.

Surge agora uma nova série, a Imaginários, da também paulista e estreante Editora Draco ( http://editoradraco.com/ ), cujos dois primeiros livros serão lançados simultaneamente em 28 de novembro, na Livraria Cultura do Shopping Market Place, em São Paulo. Cada volume tem 128 páginas ao preço de R$ 22,90 e ambos foram organizados pelos escritores Tibor Moricz, Saint-Clair Stockler e Eric Novello.

Deve-se dizer que as capas, embora bem cuidadas, não correspondem bem ao conteúdo. Sugerem um tipo de aventura fantástica adolescente, ao estilo dos quadrinhos do gibi Heavy Metal, no qual não se enquadra nenhum dos contos das duas antologias, ambas de tom bem mais maduro e sofisticado – mesmo se frequentemente também muito divertidas.

Imaginários 1 reúne onze contos, todos de autores brasileiros, mas com propostas especulativas das mais variadas. Dois ou três brilhantes, um ou dois relativamente fracos e os restantes de bom nível profissional.

Coleira do amor, de Gerson Lodi-Ribeiro é ficção científica da mais moderna. Não é redundância, pois não são poucos os autores se prendem a antigas ideias sobre o futuro, que perderam relevância para as preocupações e especulações do presente. O tema é o uso voluntário da manipulação bioquímica dos sentimentos – no caso, a exacerbação do amor, cujos problemas surgem quando morre um dos parceiros – em um cenário futurista surpreendente, mas cientificamente plausível, muito verossímil e que dialoga com questões relevantes para o futuro da sociedade e da ética.

Eu, a sogra, de Giulia Moon é fantasia da mais divertida. Uma bruxa é apresentada à nora em um momento pouco conveniente, criando uma situação de ofuscar os melhores episódios de seriados como A Feiticeira.

Veio... novamente, de Jorge Luiz Calife, um veterano que escreve ficção científica desde os anos 80, tem um sabor algo saudosista. Uma família estadunidense algo idealizada tem um Contato Imediato quase spielbergiano no deserto de Mojave.

A encruzilhada, de Ana Lúcia Merege, segue os caminhos clássicos da fantasia medieval, embora sem elfos ou anões. Sutil e com uma linguagem muito bem trabalhada, só lhe falta um fechamento satisfatório como conto, pois termina abrindo e anunciando possibilidades ainda mais interessantes, como se fosse o prólogo de uma história mais longa.

Por toda a eternidade, de Carlos Orsi é uma breve história de crime no espaço com um toque de humor. Com apenas duas páginas, esse miniconto não se classifica na mesma divisão dos outros, mas vale a leitura.

Twist in my sobriety, de Flávio Medeiros, pertence à tradição paranoide (e, com frequência social e politicamente conservadora, como neste caso) da invasão extraterrestre, neste caso realizada de maneira peculiar e original.

Um toque do real: óleo sobre tela, de Roberto de Sousa Causo, talvez seja a mais fascinante das fantasias deste volume. Um pintor perde-se em um universo paralelo formado por sua própria pintura.

Alma, de Osíris Reis combina de maneira complexa e ousada na qual fantasia e ficção científica se misturam do ponto de vista de uma extraterrestre que habita um mundo exótico.

Contingência, ou Tô pouco ligando, de Martha Argel é uma ficção científica sobre o mundo contemporâneo, com um argumento político ecologista muito bem fundamentado, bem-humorado e integrado na trama. É um confronto fluente e vivo com a ciência tal como realmente é praticada, embora exija um mínimo de disposição de lidar com termos e conceitos de biologia.

Tensão Superficial, de Davi M. Gonzales, é a aventura de um estudante que encontra um mistério inexplicável em um prédio muito antigo. Um conto curto e comparativamente fraco.

Planeta Incorruptível, de Richard Diegues – que é sócio e editor da concorrente Tarja –, poderia ser chamado de uma ficção teológica, mais que científica: invasores alienígenas confrontam santos e milagres da Igreja Católica.

Imaginários 2 vem com sabor transatlântico – pois junta cinco brasileiros a quatro portugueses: João Barreiros, Jorge Candeias, Sacha Ramos e Luís Filipe Silva – e uma qualidade mais regular, pois todos os nove contos são de boa qualidade. É difícil apontar qual mais se destaca.

Se acordar antes de morrer, de João Barreiros, acompanha um robô que, programado para personificar Papai Noel a cada Natal, insiste em representar seu papel em meio ao um dos apocalipses mais absolutos e deprimentes já concebidos pela ficção científica.

Às vezes eu os vejo, de Saint-Clair Stockler, uma mulher simples do interior do Brasil com a capacidade de ver seres louros e misteriosos que ninguém mais vê – talvez os intraterrestres de certas crenças esotéricas – conta sua história e se mostra mais culta e ousada do que se poderia suspeitar.

Flor do Trovão, de Jorge Candeias desafia o leitor a se pôr na pele de um alienígena sem nada de humano, em um mundo estranho e primitivo. É uma história para leitores dispostos a enfrentar uma ficção científica experimental e especulativa, que busca questionar mais que divertir.

O toque invisível, de Alexandre Heredia, trata de um software tão complexo e sofisticado que acaba por ganhar consciência e vontade própria. O tema, já tradicional na ficção científica, é retomado com especial vivacidade e humor, com personagens e ambiente empresarial muito convincentes.

O cheiro do suor, de Eric Novello, é um sujo conto noir de crime e violência, na qual um lobisomem presta diferentes tipos de serviços a policiais corruptos.

A Rosa Negra, de Sacha Ramos, combina crime, amor, fantasia e ficção científica com habilidade e beleza e arma o drama pungente de um jovem português do futuro que tenta escapar ao peso da tradição familiar de cultivo de rosas transgênicas, legada por um avô terrível, para se unir à noiva no Brasil.

A casa de um homem, de Luís Filipe Silva, conta a história de um homem cuja odisseia para recuperar a casa roubada o leva a peregrinar por um pedaço de Portugal vendido (para cobrir a dívida pública) para um regime neonazista, por uma Nova York decaída e transformada em uma nova Hong Kong e por uma Nova Inglaterra devorada por insetos mutantes.

Eu te amo, papai, de Tibor Moricz, um horror meio científico, meio fantástico, com um protagonista que se esforça para se manter insensível às implicações morais de trabalhar em uma central que explora a energia paranormal gerada por crianças confinadas em casulos desde o nascimento, enquanto estas armam uma rebelião sem precedentes.

Uma questão de língua, de André Carneiro, decano da ficção científica brasileira (começou a escrever no gênero em fins dos anos 50), mais uma vez recorre a seu enredo favorito, um homem obcecado por uma mulher misteriosa. Neste caso, um homem especializado em invisibilidade e uma mulher que faria qualquer coisa por um livro raro de Jorge Luís Borges.