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Crônica / Matheus Pichonelli

Para além da área gourmet

por Matheus Pichonelli publicado 17/04/2015 03h22, última modificação 11/06/2015 17h06
Tempo útil equivale a espaços escassos. É o que nos impede de ver beleza onde sobra e de implementá-la onde falta. Não é só um dilema urbanístico, mas humano
Medianeras

Cena do filme Medianeras, de Gustavo Taretto

Na semana passada, participei de um debate na FAU-USP sobre cinema, urbanismo e arquitetura. O fio-condutor do encontro foi o filme Medianeras, de Gustavo Taretto.

Foi a segunda vez que falei sobre o filme.

A primeira aconteceu há mais ou menos três anos, quando a distribuidora Imovision lançou o DVD do filme no Brasil.

A proposta era falar sobre as mudanças provocadas pela tecnologia em nossa vida, um dos dois aspectos fundamentais do filme.

O outro aspecto, que lamentei não abordar naquele dia, era a relação entre o cinema, a fotografia e a arquitetura.

Para ser minimamente honesto, tive de confessar minha quase total ignorância tanto sobre arquitetura quanto sobre cinema.

Tanto em uma área como em outra eu teria dificuldades em falar sobre o filme em termos técnicos.

Poderia até citar algumas passagens, como quando a Mariana, no auge de sua crise de insegurança, é enquadrada em uma escada em caracol ao lado de um pretendente.

O descompasso daquela subida é um dos muitos encontros felizes entre roteiro e uso de espaço em todo o filme - que é, afinal, sobre a solidão.

Entre amigos, costumo dizer que não entendo de cinema, mas entendo de gostar de cinema. E posso dizer o mesmo sobre arquitetura.

Sempre quando vou a São Paulo, sou capaz de colar o rosto no vidro dos carros e do ônibus para tentar absorver a cidade, as formas das construções, as disposições, os usos adequados e inadequada dos espaços, mais ou menos como aqueles poodles que a gente coloca na janela pra tomar vento.

Não sei dizer o nome das construções nem dos movimentos nem dos períodos em que vigoraram.

Mas quando assumimos este papel de espectador, podemos absorver a cidade com o sabor da irresponsabilidade, mais ou menos como quando assistimos a um filme sem compromisso.

Não precisamos operar uma câmera para saber quando um diálogo é mal construído. Da mesma forma, nós, os pretensos cronistas, não precisamos entender de construção para saber que tem algo estranho no mundo quando existem mais garagens do que áreas verdes em nossas ruas.

Ou que não tem nada mais melancólico do que uma churrasqueira construída no alto de uma garagem vertical. Churrasco pra mim, que venho do interior, não é churrasco sem lago, piscina e mato.

Da mesma forma, sabemos que algo parece estranho quando vemos aqueles antigos prédios da Telesp, de muito tijolo e pouca janela, verdadeiros monumentos à angustia e à claustrofobia.

No filme de Taretto, essa relação entre espaço urbano e melancolia ganha uma dimensão considerável quando, de cara, o personagem Martin faz uma lista de transtornos e compulsões desenvolvidos na cidade enquanto vemos uma série de fotografias de Buenos Aires.

Sempre quando assisto ao filme, a primeira coisa que penso é: não vemos esses prédios com suas gambiarras e paredes descascadas quando a CVC tenta nos vender um pacote de viagens para a Argentina.

A segunda coisa que penso é: ou Buenos Aires se vende muito bem ou São Paulo se vende muito mal.

Em São Paulo, chega a ser um crime ter como primeira imagem e primeira impressão uma marginal congestiona à beira de um rio poluído.

Pois quando me mudei pra capital, em 2002, odiei tudo. E olha que vim morar na Avenida Paulista e frequentava a Cidade Universitária praticamente todos os dias.

Minha referência anterior era uma cidade calma, organizada, sem trânsito, mas viva.

Em Araraquara não brigávamos pelo direito de andar de bicicleta. A gente simplesmente pedalava para ir às casas uns dos outros.

A gente jogava bola na rua. E voltava da balada a pé, antes de passar pelo carrinho de lanche no caminho. Hoje chamamos food truck.

Um antigo chefe fez o caminho contrario: saiu de São Paulo para estudar em Araraquara, e só então se deu conta de que o único caipira da turma era ele, que passara a infância numa cidade gigante com espaços reduzidos. Lá, ele aprendeu a andar a pé. A ver a rua além da janela. E outras benesses que nós, os bairristas, costumamos nos gabar.

Morei em São Paulo por 12 anos. E vivo no circuito Valinhos/Campinas há dez meses.

Agora, quando volto, o banzo tem outro endereço.

Outro dia passei pelo Centro Cultura São Paulo e parecia não haver lugar melhor do mundo. Nem em Araraquara.

Ali, já com este olhar de visitante, observei jovens e adultos num casamento perfeito entre imagem, som, espaço, pensamento.

As pessoas estavam num ambiente high tech. Aberto. Livre. Envidraçado. Espaçoso.

Ali as pessoas estão sempre conectadas, mas as janelas estão ampliadas. Elas chegam com seus iPads, colocam alguma musica no YouTube, e começam a treinar passo de dança em grupo. É uma cena belíssima.

Naquele dia, ao revisitar o CCSP, fiz uma espécie de dialogo mental comigo mesmo.

“Você morava tão perto. Por que não aproveitou melhor este lugar?”

No que eu mesmo respondi: “Porque trabalhava dez, onze horas por dia”.

Digo o mesmo sobre a FAU. Quando estava na USP, nunca estive tão perto, e nunca me importei menos com aquele lugar. Na Cidade Universitária eu só tinha sono. Atravessava a praça do relógio depois do almoço pesado no bandejão e tudo o que eu queria era minha casa cercada por árvores de Araraquara.

O banzo tinha outro endereço.

Mas por que eu tinha sono? Por que desprezei tudo isso?

Porque, logo que pisei na faculdade, me disseram que não seria ninguém sem estágio. Poderia não aprender nada em sala de aula, desde que tivesse para onde ir ao fim dela.

Em São Paulo a dimensão de tempo começou a operar em espaços diminutos. Eu saía daqui e corria para o estágio num site esportivo. Desconfio que foi nessa época que me viciei em café para ficar acordado e em álcool para pegar no sono.

Foi nessa época também que aprendi a comer olhando para a tela do computador.

Quando crescemos, começamos a entender algumas músicas que, à primeira vista (ou ouvidos), nos parecem infantis. Naquela época passou a fazer sentido os versos de uma música da Adriana Calcanhoto que eu jamais havia dado pelota: “pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela, eu vejo tudo enquadrado”.

Sim, eu via e ainda vejo tudo enquadrado.

Por isso não respirava. E se consigo fazer isso agora quando vou a São Paulo é porque não levo mais o olhar de morador, mas o de estrangeiro.

É isso que o filme tenta mostrar. Já volto a ele.

Quando comecei este texto, estava tentado a dizer que hoje conseguiria entender e valorizar um espaço como o prédio da FAU, os corredores arborizados da Cidade Universitária ou mesmo o CCSP. Mas estaria mentindo.

Quando me mudei de volta para o interior, caí no conto da busca por “qualidade de vida”, seja lá o que isso signifique.

Dois exemplos de como a gente sai da cidade grande mas a cidade grande não sai da gente – e a cidade grande aqui entendida como um estilo de vida muito bem descrito no filme.

Na nova casa, fiquei encantado, de cara, com a sacada gourmet. Imaginava que não passaria um único dia até o fim da minha vida sem preparar churrascos ou jantares ao ar livre. Minha euforia durou dois dias, e o espaço hoje é bastante útil para pendurar as roupas do varal.

Também há mais ou menos um ano, montei uma empresa e passei a prestar serviços de assessoria de imprensa para o braço cultural de uma companhia de energia em Campinas.

Quando cheguei à sede, fiquei impressionado com a beleza do lugar, todo adornado por jardins e plantas que não sei o nome, com corredores abertos, espelhados, café ao ar livre, cadeiras de madeira, telhados de vidro, espelhos d’água e mezanino.

Chegava ali e me sentia vivo ao pisar as passarelas daquele jardim. Me imaginava ali sentado, pensando na vida, com um bom livro e em boa companhia. Não poderia haver lugar mais perfeito para me encontrar.

Pouco depois, descobri um atalho para chegar mais rápido à nossa sala. E agora, toda vez que chego ou volto do almoço, entro por uma porta escondida ao passar a catraca e cruzo um corredor escuro e sem graça. Ganho um minuto e perco o jardim.

Detalhe: ninguém me cobraria por esse minuto. Ninguém, a não ser eu, daria tanta importância ao tempo gasto em um jardim. Só eu.

Porque tudo o que importa parece estar ali dentro. Não por acaso, a equipe de ginástica laboral é que vai até nós. Fazemos exercícios duas vezes por semana entre computadores, armários de fórmica e cortinas venezianas fechadas.

O problema, portanto, não é a falta de espaço, mas um estado irritadiço permanente. O problema é que somos ansiosos. E por sermos ansiosos queremos resolver tudo o quanto antes para ter sempre mais tempo para buscar novos problemas.

Tem ambiente menos propício para se aproveitar um jardim do que a empresa onde trabalhamos? Tem. A nossa casa. A TV e o sofá são a mortalha de qualquer inspiração, mas é tudo o que queremos ao fim do dia. Por quê?

Porque o tempo é avassalador. Ele te leva a olhar tudo enquadrado. Pela tela. Ou pela janela. E as telas estão cada vez menores.

Não precisamos ver o mundo fora delas. Somos o que produzimos. E por isso não nos importamos com uma força gravitacional que nos EMPURRA para os ambientes internos e climatizados.

Por isso entramos quando vamos ao restaurante.

Entramos quando vamos ao trabalho.

Entramos quando chegamos em casa.

Entramos e entramos o tempo todo.

Quase não temos espaços compartilhados. Quase não temos áreas em comum. E de vez em quando levamos nossa individualidade para essas áreas de contato e produzimos faíscas.

A verdade é que não nos suportamos.

No nosso prédio pululam as áreas gourmet, mas só alcançamos os vizinhos quando descemos para a quadra ou ao playground. Ali, os meninos mais velhos e os pais dos mais novos vivem às turras para saber quem tem direito a usar o espaço. Ninguém cede. Poucos se cumprimentam.

E os assuntos são quase sempre banais.

Essas diferenças ficam mais expostas quando transgredimos os retângulos perfeitos do estacionamento. Precisamos o tempo todo andar na linha, ficar cada um em seu quadrado, para não haver bate-boca dentro do salão de reuniões. Este salão, aliás, é a prova de que perdemos a capacidade de conviver. Porque nunca temos tempo a perder. Nem espaço a ceder.

É por isso que, nesses espaços vendidos como paraísos pelas incorporadoras, existem mais vagas de garagem do que espaços compartilhados.

Mas o que nos impediria, por exemplo, de descer para a área comum e regar uma planta que outro plantou? Ou colher um pé de alface que alguém deixou por lá?

Essa ideia se torna inconcebível à medida que crescemos para dentro, e lá nos fechamos. A nossa ideia de lar é uma ideia fechada, segura e trancafiada, como bem demonstra o psicanalista Cristian Dunker em seu livro Mal Estar, Sofrimento e Sintoma. O muro é a alegoria deste mal-estar, da troca de uma ideia de segurança por uma vida vigiada.

Trabalhamos cada vez mais por cada vez menos. Vale mais batalhar por um bom automóvel do que por um bom ponto de ônibus. Pensamos, tacanhamente, que dividir o espaço coletivo com o outro é vergonhoso.

Para que plantar, colher, jogar conversa fora se a ideia de maximização do tempo nos coloca sempre à disposição de qualquer desejo com um clique?

Pela internet, desenvolvemos a impressão de que podemos ter tudo o que quisermos e quando quisermos. E não percebemos que é essa a sensação que nos leva a assimilar, acriticamente, os espaços diminutos.

Os espaços se adaptam às nossas pretensões, e é fato que desaprendemos a sonhar.

Com pretensões cada vez menores, quem precisa apreciar sol? Quem precisa de ar? Quem precisa de amigos para compor música, como faziam os compositores do Clube da Esquina em Belo Horizonte?

Vai chegar o dia em que teremos a impressão de que tudo o que precisamos está em nossos bolsos, onde guardamos os cartões de crédito e o smartphone.

Fora dali só precisaremos de um lugar para dormir e trocar de roupa.

Quando vejo apartamentos construídos em poucos metros quadrados, feitos especificamente para pessoas incapazes de vivenciar o que não apita dentro bolso, penso que este dia se aproxima.

Os cubículos onde vivem os personagens de Medianeras são simbólicos dessa disposição. Essas laterais de prédios, que não temos tradução para o português, que não são nem frente nem verso, mas lados inúteis, são a alegoria de uma perda frequente de luz e de capacidade de enxergar.

Não de nos enxergar, mas de enxergar o outro. É culpa dos arquitetos da cidade, como diz o personagem?

É e não é. Pois, no filme, é justamente quando o personagem assimila essa precarização da existência que ele, sem perceber, se rebela contra ela. É quando ele deixa de ser um homem a serviço de uma ideia: a ideia de tempo útil.

Busco em outro filme argentino uma definição desses tempos. No filme Clube da Lua, sobre um clube decadente e perto de fechar às portas na crise financeira dos anos 2000, o personagem de Ricardo Darin se questiona por que, de repente, a prática do esporte, a convivência, a conversa fora com os amigos, as festas típicas, os encontros de namorados se tornaram obsoletos.

A resposta, arrisca ele, é que nosso objetivo é cada vez mais sobreviver, e não viver. Logo, conviver é descartável.

Por mais que seja discutível a ideia de espaço coletivo para grupos de associados, cito este filme porque só quem cresceu em um clube recreativo e não tem mais acesso a qualquer área de lazer sabe o que isso significa.

Tempo útil equivale a espaços escassos. É o que nos impede de ver beleza onde sobra e de implementá-la onde falta.

Não é só um dilema urbanístico, mas humano. Os cronistas não estão menos perdidos.

Mas ainda temos a opção de olhar. E de reaprender a olhar. Os personagens do filme Branco Sai, Preto Fica, que se passa na insípida Ceilândia, nem isso têm. Não estranha que o resultado mais latente desta violência visual seja a violência urbana.

Mas não estamos livres. Se somos capazes de provocar hecatombes quando cruzam nossas linhas pré-definidas das vagas de garagem, que faríamos onde essas linhas são um emaranhado?

O homem é o lobo do homem, dizia Thomas Hobbes, já sabendo da nossa disposição ao medo e da nossa baixa vocação em conviver e ceder espaço. Mas ele não contava com o cinema nem com os artistas que nos mostram diariamente que é preciso ver além. Que é preciso ser gente, e não lobo nem gado.

Temos, portanto, um alento. Como os personagens de Medianeras, temos hoje as ferramentas para estourar essas paredes. A janela não é apenas um respiro, um espaço para a entrada de ar e luz. É um espaço de saída. É um convite à amplidão. Para notar o outro, é preciso respirar. Ou seria o contrário?

Esse tipo de questionamento provocado pelo filme nos leva a observar o óbvio: nós, humanos, nos adaptamos a muitas coisas, mas não podemos viver sozinhos.

Não é uma tarefa fácil. Mas o filme nos ensina a tentar. É para isso que serve o cinema. São essas janelas representadas no filme que inspiram os cronistas, os arquitetos e todos os habitantes da mesma cidade. Elas nos ajudam olhar o mundo para além do nosso próprio quadrado.