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Cultura

Mostra Internacional de Cinema

Ouvir estrelas

por Orlando Margarido — publicado 02/11/2010 12h42, última modificação 02/11/2010 12h42
A princípio, o diretor Patricio Guzmán apresenta o documentário Nostalgia da Luz como um estudo sobre a situação do Atacama para a astronomia. Mas quem conhece o cineasta sabe que seu interesse não se limitaria ao plano, digamos, espiritual do tema

A princípio, o diretor chileno Patricio Guzmán nos apresenta ao documentário Nostalgia da Luz, atração obrigatória da 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, como um estudo sobre a particular situação que o deserto do Atacama tem para a astronomia.  A região árida e pedregosa no norte do Chile é uma das mais favoráveis do planeta para a observação das estrelas. Mostra então as bases com telescópios modernos e gigantescos, colhe depoimentos de arqueólogos, astrônomos  e inicia um diálogo sobre os segredos do universo e da origem da vida. Mas para quem conhece o realizador do fundamental A Batalha do Chile (1979), investigação em três partes da ditadura no país disponível em DVD, sabe que seu interesse nesta nova empreitada não se limitaria ao plano, digamos, espiritual do tema. Guzmán estava em busca de algo mais.

Tudo se desvenda  com personagens alheios  aos mistérios dos astros. Também no Atacama, sob o sol inclemente, mulheres chilenas procuram restos dos corpos de companheiros e familiares, desaparecidos políticos enterrados em valas sob os auspícios de Pinochet. Tarefa difícil, quixotesca mesmo, dada a imensidão do território. Pouco se encontra além de pedaços de ossos. Mas elas prosseguem incansáveis, menos celebradas do que as mães argentinas da Plaza de Mayo. Guzmán nos dá a palavra dessas mulheres, mais implicadas num sentido para suas vidas do que propriamente na possibilidade de sucesso. Estar ali é não ser esquecida, como diz uma delas, e não deixar que esqueçam, num país que as trata como lepra. O recorte inesperado de Guzmán não é solitário ao desvendar ecos do período de sombras no Chile.  Mi Vida con Carlos, outro documentário programado no evento, cumpre passos semelhantes na aventura do diretor Germán Berger em reconstituir a figura do pai, vítima do mesmo processo ditatorial.