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Crônica do Villas

Outras palavras

por Alberto Villas publicado 06/09/2012 13h23, última modificação 06/09/2012 13h23
De todo o país, leitores enviam sugestões de palavras que estão sumindo do mapa

Quando cliquei em enviar e disparei os originais do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Morta para a Editora Globo pensei imediatamente com os meus botões que, com certeza, estava faltando algum verbete em meio a quase mil. Não deu outra. Foi só o Dicionário chegar às livrarias que comecei a receber e-mails vindos dos quatro cantos do país.

“Como você foi se esquecer da palavra babujado?” perguntou um leitor de Curvelo, Minas Gerais. No segundo e-mail vindo do Rio de Janeiro, o leitor reclamava não ter encontrado no Dicionário a palavra coió. Eu tinha certeza que aquela não era uma obra completa e definitiva. Até o Aurélio de tempos em tempos acrescenta uma palavrinha aqui, outra ali, não é mesmo?

Para dar uma satisfação aos meus queridos leitores e tirar um peso da consciência, aqui vão algumas palavras que estão sumindo do mapa lembradas por eles e que, impressas, podem virar um adendo ao Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Morta.

Além de babujado que significa sujo – quando um bebê deixava a sopinha cair no babador dizia-se que ele estava todo babujado – e coió, que significa bobo, hoje chamado de mané, aqui vai uma pequena lista de palavras que, se não morreram ainda, estão com os dias contados. Todas elas ficaram de fora do livro.

Escarafunchar. Hoje virou xeretar. Nesses novos tempos ninguém escarafuncha mais e sim xereta.

Mexeriqueira. Hoje virou fofoqueira. Quem não se lembra dos mexericos da Candinha nas páginas da revista Intervalo?

Penei. Ninguém mais diz penei pra chegar lá. É mais comum dizer putz, ralei pra chegar lá. Luiz Gonzaga imortalizou a palavra na canção Pau de Arara. “Viajando num pau de arara/eu penei/mas aqui cheguei”.

Bruaca. Quando uma mulher era feia ninguém perdoava, chamava-a de bruaca. Assim, na lata. Mais tarde a bruaca virou baranga e hoje simplesmente feia. Às vezes, feia de doer.

Desembucha. Vê se desembucha! Ora, hoje não é muito mais fácil dizer vê se desenrola?

Cútis. Significa pele. Era comum nos bondes propagandas anunciando cremes para manter sua cútis perfeita, sua cútis aveludada, sua cútis irresistível.

Oleado. Por exemplo, quando um bolinho de bacalhau estava com muita gordura dizia-se que ele estava oleado. Hoje, você olha um salgadinho e diz que ele esta gorduroso, não eu mesmo?

Esgadanhar. Hoje uma pessoa furiosa diz eu vou te matar! Na verdade, vai matar nada. Mas antigamente dizia-se eu vou te esgadanhar.

Esturricando. Tem gente que ainda fala, não é mesmo? Fiquei lá esturricando no sol. Um bife também quando estava bem passado, estava esturricado.

Matuto. Matuto era o capiau, o caipira, o jeca total. Hoje a gente para dar uma de politicamente correto diz que a pessoa é do interior.

Desmazelado. Ouvia isso todo dia dentro de casa. “Olha só como os seus lápis estão todos comidos. Você anda muito desmazelado!”

Sei que outras palavras, outras expressões que não estão no Dicionário virão. Outro dia mesmo vi um velhinho dizendo pro outro: “Fica mais um pouco, você não vai tirar ninguém da forca”. Lembra que quando uma pessoa estava com pressa a outra dizia isso? “Calma, fica mais um pouco, você não vai tirar ninguém da forca”.