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Cultura

Entressafra?

Outra cilada

por Matheus Pichonelli publicado 11/10/2011 10h20, última modificação 13/10/2011 16h05
'Meu País' revela a entressafra do cinema nacional e o abismo com os trabalhos mais recentes dos vizinhos argentinos

“Meu País”, o tão falado filme de André Ristum, é inacreditável. Reúne alguns dos mais celebrados atores da atualidade (os galãs Rodrigo Santoro e Cauã Reymond, o veterano Paulo José e a doce Débora Falabella), levou seis prêmios no Festival de Brasília e o trailer parecia tirar o fôlego. Com tanta estridência, passei os 90 minutos de filme acreditando que a má impressão que me atacou logo no começo seria limada a qualquer instante. Inacreditavelmente, não foi.

Ao deixar a sessão, custei a acreditar que o filme havia sido rodado nos anos 2000. Nele estavam todos os vícios que fizeram o cinema brasileiro virar piada quando comparado a outras produções estrangeiras. Inacreditavelmente, o que assisti foi: diálogos terríveis, uma história comum, um desfecho óbvio e atores que pareciam treinados na escola Cigano Igor de má atuação. Mas o mais inacreditável foi ver, em pleno 2011, propaganda de café e prefeitura no meio do filme.

Para quem bate no peito para falar da maturidade do cinema nacional – e fica durante meses com sorriso no rosto a cada novo filme de Marcelo Gomes, Karim Aïnouz, Walter Salles e Fernando Meirelles – o filme é uma punhalada nas costas. Para mim, ao menos, uma sensação de deja vu que só havia experimentado quando vi “Falsa Loira”, o famigerado longa de Carlos Reichenbach (que também tinha Cauã Reymond no elenco) e que nos leva a viajar para a profundeza dos anos 80.

A história é mais ou menos assim: Marcos (Rodrigo Santoro) é um empresário bem-sucedido que vive na Itália e vem ao Brasil para o enterro do pai, Armando (Paulo José). Em São Paulo, descobre que o irmão, Tiago (Cauã Reymond), terá de assumir os negócios do velho. Menino-problema, Tiago passa a vida (e o filme) na piscina, gastando o que tem e o que não tem em jogos e bebidas e sem demonstrar o mínimo talento para a responsabilidade. Id e superego, Esaú e Jacó, Caim e Abel...com tanta inspiração para falar de rixa entre irmãos, por que fazer algo novo se podemos repetir tudo o que já foi feito, não?

No fim, a discussão é a mesma dos filmes confeccionados pela Disney à medida “para toda a família”. A sacada foi: vamos humanizar o workaholic, vamos mostrar que a família está acima de tudo, vamos mostrar que as pessoas têm jeito e que basta ouvir a voz do coração. Os Ursinhos Carinhosos e seu eterno duelo com o famigerado Coração Gelado não fariam melhor.

Fora isso, o filme é um inacreditável apanhado de boas intenções: Manuela, a personagem interpretada por Débora Falabella que tem deficiência intelectual e precisa ser retirada de um internato pelos meio-irmãos, não convence nem emociona. Justiça seja feita: sobra nela esforço e falta bom papel.

Cauã Reymond, festejado em outros filmes recentes, parece um ator menor (e chega a deixar dúvida sobre se não é, de fato, supervalorizado) com o personagem e os diálogos que colocaram em suas mãos. Dá pena. De novo, não convence nem emociona.

De todos, só Santoro se destaca. Parece gente grande no meio de amadores – é o único que não precisa colocar todos os “esses” em todas as frases para se impor em diálogos que pecam pelo conteúdo e pela forma (porque ninguém fala de maneira tão formal). Numa das cenas mais constrangedoras, um sócio da empresa do pai tenta explicar para Marcos o sentido da vida, enquanto joga golfe. Após uma tacada malsucedida, diz que, como no golfe, a empresa deveria deixar as bolas que não atravessam o lago no lago. E diz algo como: “Ninguém precisa sujar as botas para buscá-las”. É constrangedor.

Santoro se esforça: chora, cora, ri, fica impávido, se humaniza, fala alto, fala baixo. Parece uma pessoa de verdade (e não um ator encenando, como todos os outros). Mas nem 15 deles dariam conta de salvar o filme.

Na saída, lembrei da bateria de textos publicados no início do ano passado questionando, à esteira de “O Segredo dos Seus Olhos” por que o cinema argentino estava tão à frente do brasileiro. Desprezava o argumento, eu e minha lista de nacionais favoritos, “Linha de Passe” entre os mais recentes à frente.

Mas “Meu País” me fez rever minha posição. Se explicasse a um desavisado que foi feito no mesmo ano de “A Terceira Margem do Rio”, filme de Nelson Pereira dos Santos de 1994 que tinha propaganda subliminar até de cerveja e aparelho de televisão, poucos duvidariam. Fica guardado na lista dos filmes mais decepcionantes da língua portuguesa, carinhosamente ao lado de “Salve Geral”, de Sérgio Rezende, “Lula, o Filho do Brasil” (Fábio Barreto) e “Garrincha – Estrela Solitária” (Milton Alencar).

Ficam numa prateleira próxima das comediazinhas chupinhadas da tevê, as supervalorizadas ciladas em cartaz e todos os filmes inspirados nos relatos do espírito de André Luiz.

Ainda no corredor do cinema, conferi os três últimos lançamentos argentinos: o brilhante “” e o comovente “”. Filmes que, sem a pretensão dos colegas brasileiros, fazem exatamente o que se espera de um bom trabalho: noção de seu tempo e espaço e, sobretudo, originalidade. Que convencem e emocionam, sem precisar dar nenhum tiro (ou entrar nos intestinos da própria miséria pra chocar). Apenas quando me lembrei deles é que o filme de Ristum finalmente despertou em mim a vontade de chorar.

A esperança é que seja apenas uma entressafra. E que logo algo original, falado em língua portuguesa, me queime a língua. Por enquanto, resta aplaudir o que está sendo feito no país lado, com Ricardo Darín sendo tão falado quanto o conterrâneo Messi. Mas e aqui? O que ainda vale ser falado?