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Os vermelhos do futebol

por Gianni Carta publicado 22/06/2011 20h05, última modificação 25/10/2011 11h49
A história do Red Star, da quarta divisão da França, está ligada aos ideais de esquerda. Por Gianni Carta
Os vermelhos do futebol

A história do Red Star, da quarta divisão da França, está ligada aos ideais de esquerda. Por Gianni Carta

Sexta-feira 13 de maio, Stade Bauer, Saint-Ouen, subúrbio ao norte de Paris. Trinta minutos do segundo tempo, entra em campo o atacante brasileiro Wellington Dantas, a substituir Jérémy Gazeau. E eis que o lateral-esquerdo Peguy Ngman dribla o zagueiro perto da área e marca, com a esquerda, um golaço. Restam dez minutos de jogo, mas o Red Star, jogando em casa, manterá o resultado de 2 a 1 contra o Bastia. “Demos uma lição a esses corsos”, exulta um torcedor.

O jogo não foi ruim. Especialmente levando-se em conta que o Red Star, também conhecido como l’Étoile Rouge, é um time da quarta divisão. Fofana, o autor do primeiro gol do AC Bastia aos 24 minutos do primeiro tempo, joga muito. Do outro lado, os destaques são o capitão do Red Star, Vincent Doukantié, de 34 anos, que foi da seleção do Mali, e o goleiro Michael Germain, que fez incríveis defesas.

A história do l’Étoile Rouge é pontuada por altos e baixos e momentos de glória. “Trata-se de um clube mítico”, me diz Jean Cormier, jornalista esportivo do diário Le Parisien e biógrafo de Che Guevara. O que explicaria a presença de 2.124 torcedores no jogo contra o CA Bastia, excluídos os que vieram da Córsega? Um número superior a qualquer evento de terceira divisão na Espanha ou na Itália.

Paixão e lealdade ao seu time são traços transparentes entre os torcedores do Red Star. E embora a estrela vermelha, símbolo do time, não tenha sido inspirada por inclinações políticas, o pendor ideológico do time e de vários torcedores é de esquerda. Olivier Hercy, presidente do Collectif des Amis du Red Star, associação independente, mas ligada ao Red Star, é claro: “Os tempos mudaram, mas continuamos firmes na esquerda”.

A história do Red Star remonta ao início de 1897, num café em cujas redondezas dois anos mais tarde seria erguida a Torre Eiffel, para a famosa Exposição Universal. Seu fundador é tão lendário quanto o próprio Red Star: Jules Rimet, criador da Copa do Mundo de Futebol. Rimet fez muito mais: presidiu, décadas a fio, a Federação Francesa de Futebol. Seus 33 anos na chefia da Fifa, de 1921 a 1954, o tornam o mais longevo dos presidentes da federação internacional de futebol. Rimet era um homem elegante e honesto, nada parecido com a turma que comanda o esporte nos tempos atuais.

Num primeiro momento, o presidente do Red Star era o cunhado de Rimet. O secretário era seu irmão. O comitê reunia-se no café, aquele onde nasceu a ideia. O clube promovia esgrima, tênis e ciclismo, já então bastante populares. O futebol viria depois. O Red Star era financiado pelos seus cem integrantes, com contribuições de 1 franco por mês.

E por que o nome Red Star? No livro sobre a história do time,  Pierre Laporte e Gilles Saillant lembram que, no fim do século XIX, o único meio de locomoção entre a Franca e a Inglaterra, e desses países para as Américas, eram os navios. Quando Rimet pediu conselho à sua ex-governanta, a britânica Miss Jenny, sobre o nome mais apropriado para o novo clube, ela “tirou da bolsa um vestígio de sua última viagem”. Tratava-se de um bilhete, ou etiqueta, de bagagem com as cores da companhia, na qual jazia a famosa estrela vermelha. Com seu sotaque britânico, Miss Jenny sugeriu: “Red Star”.

Por numerosas temporadas o Red Star esteve na primeira divisão. Venceu nada mais do que cinco Copas da França (1921, 1922, 1923, 1928 e 1948), o segundo torneio mais importante do país,- atrás do campeonato nacional. Em 2006, l’Étoile Rouge venceu o Campeonato da França da segunda divisão. Em 1930, integrou o grupo de fundadores do futebol profissional francês. Naquela temporada foram rebaixados para a segunda divisão.

Laporte e Saillant chamam o Red Star de “time elevador”. Ao longo dos anos, a equipe oscilou entre a primeira e a quarta divisão. Em 1981, alcançou a terceira divisão. No ano seguinte, a segunda. Dez anos depois, disputou as quartas de final da Copa da França contra o Cannes. Ao mesmo tempo, ao longo de sua história, foi um time camaleão. Fez várias fusões com outros times, mudou de nome, de estádios, retomou as tradições. Uma coisa, porém, não mudou desde a década de 1930: as cores branca e verde.

Mas, no estádio em Saint-Ouen, ao lado de um mercado de pulgas, constata-se que os torcedores não são vira-casacas. Imene, por exemplo, vende produtos do time: bolas, camisetas, livros. “Adoro esse time. Trata-se de um legado familiar.” A jovem de 17 anos conta que seu pai, operário, era torcedor. Imene joga no time júnior feminino do Red Star.

Olivier, do Amis du Red Star, parece ligado ao time porque adora  futebol – e política. Seu collectif organiza, entre outros eventos, coletas de roupas e concertos beneficentes. Mas Olivier concorda: a estrela vermelha do Red Star não foi criada por conta de movimentos de esquerda. Em outros tempos, Georges Marchais, líder do Partido Comunista Francês, vinha ver os jogos de seu genro, o goleiro Xavier Perez.

Olivier pondera: a história do time continua ligada à esquerda. O maior exemplo é Rino della Negra, homenageado com uma placa na entrada do estádio. Filho de um antifascista italiano, o operário Della Negra era atacante do Red Star nos anos 1940. Exímio driblador, chutava com os dois pés e corria 100 metros rasos em 11 segundos. Ao mesmo tempo, fazia parte do grupo de Resistência do poeta armênio Missak Manouchian. Em fevereiro de 1944, os nazistas fuzilaram Della Negra e os outros 21 de seu grupo. Antes de morrer, o atacante, então com 21 anos, escreveu para o irmão: “Mande um bom-dia e um adeus para todos do Red Star”.