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Crônica do Villas

Os Silva

por Alberto Villas publicado 14/02/2013 10h06, última modificação 14/02/2013 10h06
Por que essa crônica de Rubem Baga me chamou a atenção? Ela foi escrita no país de Luiz Inácio Lula da Silva em 1935

Quando acabei de ler a matéria de capa da revista do Globo sobre a cidade de Cachoeiro de Itapemirim, deu uma vontade danada de reler crônicas de Rubem Braga, justo nessa semana em que ele completaria cem anos. Procurei, procurei, procurei até achar numa das estantes do meu escritório onde os livros convivem na mais perfeita harmonia, completamente fora de ordem. Braga estava entre Günter Grass e Gay Talesse, sem a menor cerimônia.

Abri o livro aleatoriamente e caí na crônica Luto da Família Silva, que começa assim:

“A assistência foi chamada. Veio tinindo. Um homem estava deitado na calçada. Uma poça de sangue. A assistência voltou vazia. O homem estava morto. O cadáver foi removido para o necrotério. Na seção dos Fatos Diversos do Diário de Pernambuco, leio o nome do sujeito: João da Silva. Morava na Rua da Alegria. Morreu de hemoptise”.

Era um tempo em que ambulância era chamada de assistência e a seção de Polícia dos jornais era chamada de Fatos Diversos. A ambulância que hoje vem voando, naquele tempo vinha tinindo

Rubem Braga continua descrevendo o drama em bem traçadas linhas :

“João da Silva – Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os joões da silva. Nós somos os populares joões da silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós pertencemos, como você, à família Silva. Não é uma família ilustre; nós não temos avós na história. Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os índios. Depois fomos os negros. Depois fomos imigrantes, mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam nosso nome. É por engano. Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pela rua e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. Às vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de família. Usamos o sobrenome de Tal. A família Silva e a família de Tal são a mesma família. E, para falar a verdade, uma família que não pode ser considerada boa família. Até as mulheres que não são de família pertencem à família Silva”.

Rubem Braga poético e sentimental, continua:

“João da Silva – Nunca nenhum de nós esquecerá seu nome. Você não possuía sangue azul.

O sangue que saía da sua boca era vermelho – vermelhinho da silva”.

Rubem Braga fala de outras famílias, da família Crespi, da Matarazzo, da Guinle, da Rocha Miranda e da família Pereira Carneiro. E termina sua crônica assim:

“Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política”.

Por que essa crônica de Rubem Baga me chamou a atenção? Porque ela foi escrita no país de Luiz Inácio Lula da Silva em junho de 1935.