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Os múltiplos Bowies

por Piero Locatelli — publicado 05/04/2013 08h09, última modificação 05/04/2013 09h15
Exposição em Londres, que vem ao Brasil no ano que vem, explora versatilidade do cantor inglês
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Bowie veste roupa desenhada pelo estilista japonês Kansai Yamamoto. Foto: Masayoshi Sukita

David Bowie foi muitas coisas durante os últimos 50 anos: um astronauta, um amigo de extraterrestres, um ser meio homem, meio cachorro,  e, por isso mesmo, o mais versátil artista da música popular. O nome da exposição David Bowie Is (David Bowie é), sem o complemento do verbo, escancara as mudanças do artista inglês.

A exposição mostra justamente o excesso de referências do cantor inglês, que, como disse certa vez a cantora Siouxsie Sioux, é o único popstar que vem com um roteiro de leitura junto à sua música. Mais de 300 discos, livros, roupas e vídeos do acervo pessoal do artista estão expostos no Victoria and Albert Museum, em Londres. A exposição deve chegar no ano que vem ao Museu da Imagem e do Som, em São Paulo.

Grande parte do acervo é formada pelas roupas usadas por Bowie ao longo da carreira. Logo na entrada, o visitante se depara com um terno listrado e hipnótico desenhado pelo estilista japonês Kansai Yamamoto para a turnê do disco "Aladdin Sane", de 1973. Uma roupa que Bowie depois diria ser “excessiva, provocativa e inacreditavelmente quente para ser usada num palco”.

Outro terno, criação do estilista Alexander Mcqueen, mostra a época em que Bowie se encantou com a música eletrônica dos anos noventa. Calcado nas batidas do drum and bass e no peso do Nine Inch Nails, Bowie encarnou um gótico industrial em sua fase mais sombria.

 

Depois, bebeu no rock cru e minimalista dos Pixies, a mesma banda que faria Caetano Veloso mudar completamente seus rumos alguns anos depois. Na exposição, há uma entrevista da época, em que Bowie explica como voltou a compor de uma forma mais tradicional e despretensiosa.

O processo de criação de Bowie aparece em papéis rasgados e jogados de forma aleatória. Eles mostram como o artista, no final dos anos 70, começou a utilizar o acaso em sua composição, a exemplo do que Marcel Duchamp tinha feito nas artes plásticas e John Cage, na música.

Enquanto observa os objetos, o espectador conta com um sistema de som feito especialmente para a exposição. Nos fones de ouvido, entrevistas e músicas são sincronizados com o local onde o visitante se encontra para complementar os objetos que ele vê diante dele.

Ator, músico e pintor

Uma entrevista feita em 1970 mostra o artista indeciso entre ser ator, cantor ou pintor. Bowie, no fim das contas, decidiu ser todos ao mesmo tempo. Contra a autenticidade e sinceridade buscada pelos músicos dos anos sessenta, ele assumiu personagens, abraçou a moda, ergueu palcos pretensiosos e transformou sua música em somente mais um elemento de um espetáculo mais abrangente. Das capas de disco a cada detalhe dos seus shows, tudo era indissociável da música.

Enquanto isso, usava a sua vida pessoal para fazer diferença em outras frentes. Numa entrevista à revista Melody Maker, em 1972, foi o primeiro artista popular a se revelar gay na Inglaterra, abrindo espaço para que outros fizessem o mesmo.

O Bowie possível

Quase ao final da exposição, uma tela de cerca de seis metros de altura mostra Bowie em um show de 1974. Antes de cantar Rock and Roll Suicide, ele promete: aquele show seria o último da sua carreira - mais tarde, ele mudaria de ideia.

A turnê feita após o lançamento do disco Diamond Dogs era mais um exemplo da necessidade dos roteiros de leitura citados por Sioux. Bowie tentou fazer um álbum e uma turnê baseados no livro 1984, de George Orwell. Sem autorização da família do autor, se inspirou em filmes como Metropolis, de Fritz Lang, e Gabinete do doutor Caligari, de Robert Wiene, além dos livros e conversas com o poeta William Burroughs.

Isso tudo, somado a outras referências, resultou na série de shows que serviram como o modelo das megaturnês de rock dali em diante: dançarinos, músicos profissionais escondidos, cuidados extremos com a luz e um palco gigantesco onde tudo é controlado de forma meticulosa. Aquela turnê, porém, nunca chegou à terra natal do músico e os ingleses só puderam ver suas imagens agora.

Enclausurado e recluso em Nova Iorque, Bowie lançou seu primeiro álbum em mais de uma década no último mês. Mas qualquer chance de turnê nova foi descartada pelas pessoas próximas a ele. Desta forma, a exposição é o mais perto que os britânicos e os brasileiros poderão chegar de uma nova apresentação de Bowie.