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Cultura

Festival de Gramado

Os latinos na dianteira da seleção brasileira, ainda desequilibrada

por Orlando Margarido — publicado 13/08/2015 20h34, última modificação 13/08/2015 21h36
Ineditismo dessas produções sempre confere maior relevância e interesse, mas não necessariamente isso se reflete na qualidade
Divulgação
Cena de 'O Último Cine Drive In'

Cena de 'O Último Cine Drive In'

Desde o início do festival um rumor nos bastidores dava conta de que a seleção latina estaria melhor do que a brasileira. Isso nem só pelo quesito qualidade, mas pelo fato de que alguns dos títulos nacionais escolhidos já haviam passado por prova anterior em outros eventos, inclusive com direito a prêmios. É verdade que o ineditismo dos latinos por aqui sempre confere maior relevância e interesse, mas não necessariamente isso se reflete na qualidade. 

Foi-se metade da competição e pode-se dizer que há um equilíbrio no que toca a esse aspecto. Se a seleção da casa começou bem com o filme de Anna Muylaert, não se manteve o pique com os concorrentes seguintes, Introdução à Música de Sangue, que comentei em coluna anterior, O Fim e os Meios e O Último Cine Drive-in, voltando a elevar o nível com Ausência, que sabemos ótimo desde a Mostra de São Paulo do ano passado. Há ainda o problemático O Outro Lado do Paraíso, exibido ontem. 

Quanto aos latinos, o painel se equacionou numa média alta ou pelo menos instigante com En la Estancia, Zanahoria e Ella, deixando a desejar com Venecia e Presos. Mas festivais não são corridas de adestramento e os filmes merecem sempre ser relativizados fora deste contexto, o que faço a seguir, separadamente, conforme a correria por aqui permite:

O Fim e os Meios – Uma coisa é certa: Murilo Salles é um realizador que busca, e muitas vezes acerta, sintonizar seu tempo. Antecipou a violência que substitui a infância em Como Nascem os Anjos, as crises e frustrações do jovem a caminho da maturidade em Seja o que Deus Quiser e Nome Próprio.

Agora é a vez do depauperado painel político atual, ou o que sobra dele, o que envolve corrupção e valores como honestidade e ética. O filme competiu no Aruanda em dezembro último, a mostra de João Pessoa, onde fui jurado da Abraccine.

A reflexão proposta, porém, não é apenas sobre este estado de coisas mas como a sociedade está paralisada e autocentrada nesta discussão. O casal de personagens, uma jornalista e um publicitário, são atirados no centro da arena quando se mudam para Brasília, levados por um emprego irrecusável para ele.

A mulher também quer seu quinhão, atraída por atuar no centro do poder. Aos poucos consomem seu afeto, interesse e por fim o casamento no desgaste das ambições e pressões. A teia de interesses envolve, claro, muito dinheiro, e certo esquematismo então começa a vigorar na história, com os desdobramentos esperados. Um diretor maduro, de posições esclarecidas e politizadas como Salles, poderia ter desviado com mais afinco do contraponto simplista do bem e do mal. Ainda sim, um filme necessário para dialogar com o que está aí.  

O Último Cine Drive-in – Já havia visto o filme de Iberê Carvalho numa situação tão peculiar como ainda é o drive-in em funcionamento em Brasília, cenário inspirador para a trama. Na tela montada na praia de São Miguel do Gostoso, pés na areia, mergulhei no impacto inicial com o filho (Breno Nina) que briga para poder entrar no hospital e ver a mãe vítima de câncer. A doença o reaproximará do pai distante (Othon Bastos), dono de um cine drive-in decadente, onde trabalha também uma jovem dedicada.

Este núcleo, muito melhor estruturado, andará em paralelo com as cenas de reencontro do trio familiar e o desejo do filho em proporcionar um retorno da matriarca ao empreendimento. Carvalho assume a vontade de tratar a parte mais dramática no registro do melodrama, o que me parece tomar conta e enfraquecer todo o filme. Mas é sensível na homenagem a arte, dividida em igual equilíbrio pelo bom elenco.

Ausência – O diretor Chico Teixeira não escondeu do público de Gramado o drama pessoal que atravessa no momento. No vídeo que enviou a organização exibido antes de seu filme, ele surge muito otimista e bem-humorado, seu traço reconhecido de personalidade, justificando não ter vindo em função de tratamento médico. Tirou seu chapéu e mostrou estar sem cabelos, em razão da radioterapia. Foi um toque extra de emoção a um filme que busca conte-la para valer-se apenas de uma história sensível, que venceu a Mostra Aruanda no ano passado.

Em torno de Serginho, um garoto de família desestruturada, o pai ausente e a mãe dependente do álcool pouco ou nada dedicada a cria-lo, está o cotidiano penoso na feira, aliviado por amigos e uma garota com quem flerta. Mas sobretudo há um professor (Irandhir Santos), a quem ele toma como figura paterna.

Chico é mestre em retratar a classe média, em seu degrau talvez mais rente ao chão, como fez em A Casa de Alice. Não por acaso se vale de instituições populares como a feira urbana e o circo para dar dimensão mais representativa dos bairros distantes. O elenco, o estreante Matheus Fagundes como o garoto, Gilda Nomacce, atriz que muda o registro por vezes over no papel da mãe, só soma qualidade a um dos melhores filmes do ano.