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Os bichos

por Alberto Villas publicado 27/03/2014 10h59
Cachorro, coelho, pombo, passarinho, tartaruga, galinha, galo, porquinho-da-índia. Essa era a minha casa
Animais

Cachorro, coelho, pombo, passarinho, tartaruga, galinha, galo, porquinho-da-índia. Essa era a minha casa

Domingo passado o dia amanheceu muito nublado, o céu cinza e quando coloquei a mão pra fora na janela senti que caia uma garoa fina e quase invisível. Desisti de ir à feira porque é muito chato feira com chuva e ainda de pijama pensei com meus botões, vou ler os jornais. Abri a porta e lá estavam eles, os dois que assino em cima do capacho.

Peguei um, peguei o outro, fechei a porta e quando fechei a porta a revista da Folha que estava dentro de um saco plástico caiu no chão. Caminhei pra mesa, gosto de ler jornal na mesa, levando os dois jornais numa mão e a revista da Folha dentro do saco plástico na outra. Sentei e como já estava com a revista na mão, rasguei o plástico e resolvi que seria ela a primeira a ser lida.

A manchete estampada na capa – Bolsa-cachorro – chamou a minha atenção, bem como as chamadinhas secundárias: Classe A gasta mensalmente 417 reais por cachorro. Creches de mil reais têm até seis meses de espera. Cidade terá primeiro clube canino do Brasil.

Condomínios barram empresas que querem pets no trabalho. Antes mesmo de abrir a revista fiquei pensando: Meu Deus, como o mundo mudou. Quando eu era pequeno, na minha casa tinha muitos bichos. Tinha um cachorro vira-lata chamado Tupi, tinha coelho, porquinhos da índia, quatro gaiolas de passarinhos com canarinhos belgas e periquitos australianos, uma tartaruga, seis galinhas e um galo. Não tinha gato, quem tinha gato era o vizinho do lado, mas o gato dele vivia na nossa casa filando a boia de Tupi, quando ele dava bobeira e cochilava.

Essa bicharada toda ficava no quintal da minha casa e éramos, eu e meu irmão, quem cuidava de tudo. O pombal era o nosso xodó. Num caderno de capa dura nós anotávamos cada acasalamento, cada nascimento, cada morte.

As pombas comiam milho, as galinhas e o galo também. Os coelhos comiam capim que íamos buscar quase todo dia na BR-3 que era puro mato. Comiam também cascas de cenoura que minha mãe jogava para eles lá de cima da escada.

Os porquinhos da índia também comiam o mesmo capim dos coelhos e eles, se você observasse bem, não paravam de mastigar. A tartaruga vivia de brisa, acho. Não me lembro da gente dando comida pra ela, mas ela também parecia estar sempre mastigando alguma coisa, sei lá, acho que uns caules de plantas que tinha no quintal. Pros periquitos era  alpiste e pros canarinhos, além de alpiste, um meio jiló por semana. Eles adoravam a semente do jiló e viviam beliscando até a última semente.

O cachorro vira-lata comia o que sobrava do almoço e o que sobrava do jantar. Todo domingo ele se fartava mas, de vez em quando, dava um susto na gente engasgando com o osso do frango. Banho nele era nós que dávamos no tanque que ficava no fundo do quintal. O bicho tremia que nem vara verde, coitado, com aquela água tão fria. A tartaruga, os coelhos e os porquinhos da índia não tomavam banho.

Os passarinhos, quando estava muito calor, entravam na banheirinha e chacoalhavam respingando água pra todo canto. Eles adoravam tomar banho quando fazia sol. Vacina, eu me lembro de Tupi ter tomado uma vez só. Foi quando a carrocinha passou e levou ele preso. Para resgatá-lo tivemos que dar vacina, lá na prefeitura mesmo.

Minha mãe deixava a gente ter essa bicharada toda mas nos obrigava a limpar tudo direitinho. Sábado lavávamos o pombal, limpávamos o cercado onde ficavam os coelhos, o galinheiro, lavávamos as gaiolas dos porquinhos-da-índia e na gaiola dos passarinhos, colocávamos areia que roubávamos das obras no bairro do Carmo. Tinha muita obra por lá, a gente não passava um mês sem ter um caminhão de areia despejado na calçada. A tartaruga, coitada, vivia lá solta andando pra lá e pra cá, sem a menor pressa. Vivia na dela.

Esses bichos nos deixavam muito felizes. Um dia a coelha sumiu e nós ficamos muito preocupados. Chegamos a colar um cartaz nos postes oferecendo uma recompensa para quem a encontrasse. E não é que num dia, bem cedo, quando fomos jogar capim pra eles lá estava ela, acompanhada de nove coelhinhos? Ela tinha feito um buraco perto do muro para parir os bichinhos e a gente nem percebeu. Bem, agora deixa eu ler a revista da Folha pra saber o que eles estão dizendo.

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