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Cultura

Crônica do Villas

Onde fica a farmácia mais próxima daqui?

por Alberto Villas publicado 02/05/2013 12h40, última modificação 02/05/2013 12h40
A troca de correspondência entre um francês que não falava português e uma brasileira que não falava francês
Guia de Conversação em francês

Guia de Conversação em francês

Outro dia, conversando com um amigo meu, ele fez a seguinte observação: “Onde você arranja tanta história pra contar?” Ainda pequeno, nunca poderia imaginar que com o passar dos anos eu colecionaria tantas histórias na memória. Mas será mesmo que tenho muitas histórias assim?

Hoje me veio uma à cabeça, uma que aconteceu lá em meados dos anos 70, tempo de exílio. De tanto ouvir falar das nossas praias, das nossas matas, das nossas mulatas, das maravilhas do nosso país tropical, um amigo francês – o François Guillot – resolveu pegar um avião daVarig e passar suas férias de verão em terras brasileiras.

Sem falar uma palavra de português, François desembarcou no aeroporto do Galeão e, em seguida, voou pra minha Belo Horizonte. No aeroporto da Pampulha, meus pais, que não falavam nadinha de francês, estavam a postos esperando aquele exótico amigo francês do filho que não falava nadinha de português.

Se eles se entenderam não sei. Só sei que um mês depois François voltou pra Paris encantado com o Brasil dizendo que adorou “aquela fruta amarela que vocês servem com caviar por cima”, o nosso bom e velho mamão. E tem mais. Voltou apaixonado! Gamado por uma tal de Marcia, que ele carinhosamente chamava de ma petite Marciá.

Marcia não falava francês, mas pelo que deu pra perceber os dois se entenderam muito bem porque  François voltou louco por ela. Como quem não se comunica se trumbica, os dois começaram a trocar uma correspondência intensa numa época em que enamorados ainda trocavam cartas. Ele escrevendo em francês e ela não entendendo nada, ela escrevendo em português e ele não entendendo nada. As primeiras cartas foram assim e François toda semana ia até a minha casa para que eu fizesse a tradução. Que paixão!

Para agradar o seu gostoso francês e se fazer entender, Marcia teve uma ideia. Comprou um pequeno guia de conversação para turistas e danou a escrever em francês para o pobre François. Coisas do tipo: Onde posso trocar dólares? O senhor tem acomodação para duas pessoas? O serviço está incluído? Você aceita cheque de viagens? Onde fica a farmácia mais próxima daqui?

François entendia a frase em francês mas, preocupado, não conseguia decifrar por que diabos Marcia estava perguntando onde ficava a farmácia mais próxima daqui. E o papo não ficou só nisso. Marcia escrevia também algumas palavras soltas como mouton, veau, fromage, lapin,allumettesjus de raisin. Perplexo, ele perguntava: “Mas por que ela está falando de carneiro, vitela, queijo, coelho, fósforos e suco de uva?”

A troca de correspondência durou algum tempo mas acabou morrendo como alguns casos de amor tendem a morrer. Com certeza, François deve ter guardadas até hoje todas as cartas dentro daqueles envelopes verde e amarelo com os dizeres via aérea/par avion e Marcia provavelmente também. Quem sabe um dia eles irão se encontrar novamente e François vá perguntar pra Marcia:

- O hotel tem lavanderia, Marciá?

E ela vai responder:

- A farmácia mais próxima fica a um quarteirão daqui, François.