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Oliver come tudo

por Rosane Pavam publicado 28/05/2008 16h14, última modificação 16/09/2010 16h15
Meu espírito que anda adentra a livraria paulistana, substituta das varandas célebres de Congonhas, e não pode acreditar naquilo a que por lá chamam livro.

Meu espírito que anda adentra a livraria paulistana, substituta das varandas célebres de Congonhas, e não pode acreditar naquilo a que por lá chamam livro. Ou o intitularão Electra? Sei que se trata de um objeto capaz de encher os olhos dos passageiros ligeiros e efusivos enquanto passa voando pelo corredor de embarque cheio de estantes. Viverão alguns desses homens e mulheres, pelo menos, os estágios de uma dureza material como a minha, e se verão dispostos a experimentar o saboroso cheesecake com cobertura de morangos enquanto lêem “Persépolis”, rápida e disfarçadamente, na mesa do café?

Não sei muito sobre eles, os passageiros, mas me parece que não será a obra de Ivo Ándritch, o bósnio que detalhou a matéria terrível de que é feito o homem em um cenário de guerra, a atrair sua graça pelas vitrines do corredor principal do saguão acarpetado e impotente. Não estará, Jack London, explicando-lhes o que é o jornalismo numa seção de literatura estrangeira. Os tomos de relíquia artesanal de Renato Pompeu se esconderam. Não haverá Márcia Denser a agredi-los com seus tiques, ou tíquetes para um gracioso inferno, que é o de todos nós.

Não, claro, eles, os grandes escritores, estarão todos um pouco quietos enquanto sorvo um café depois de muito insistir por ele, na fila do balcão. É esta a seção da livraria que mais cresce e se enfurece. Enquanto os escritores se calam, cedem espaço àqueles que falam em boa altura, como Jamie Oliver.

Sim, Oliver, o cozinheiro inglês. O que ele terá que tanto os fascina? É um menino, autor de livros de receita sobre os quais, sempre e necessariamente, estará estampado um sorriso condescendente e célebre. Ele sorri para a câmera com os cabelos complicados, empastelados por falsa ventania, e loiros. É um boneco de beiços róseos que simpaticamente engorda e cresce diante dos olhos benevolentes de seu público de tevê. Oliver como companheiro de viagem, de afetos, de ensinamentos. Oliver come tudo.

Não me recordo de qualquer outro momento da história em que um cozinheiro a seu modo, cujo nome remete ao abandonado de Charles Dickens, tenha adquirido tal aspecto de monumento. Cozinheiros devem ser ternos. Nos tempos de eficiência que vivemos, talvez este jovem seja, no fim das contas, o único a falar sem afetação, num timing real de correria, a uma mulher ou mãe ou animador de amigos envoltos nesta tarefa difícil de alimentar os outros todos os dias. Já que alguém da produção ensinou aos espectadores que cozinhar é alfinetar, destrinchar um burro com lâminas de ferrugem numa cozinha do inferno, é preciso que Oliver exista muitas vezes, ele que contrariará a gritaria do exército turco, como nos livros de Ivo Ándritch, em busca do melhor sabor.

Mas será necessário que esteja sempre presente, no saguão de embarque livreiro, o menino cor de rosa? Que viva, sem que nos demos conta, atropelando todos os que nos podem ensinar a ser como homens, e só depois, então, fogareiros?

Suas receitas são simples. Gostam de levar azeite. Ele aprendeu com os italianos e ensinou aos ingleses da merenda escolar a importância do extra-virgem. Aprecio o truque de torcer os espaguetes crus antes de jogá-los ao fogo. Vão todos para o fundo da panela lentamente, e por igual, quando seguimos este ensinamento. Também não é preciso esperar que caiam os tomates da lata para que os picotemos. Devemos cortar os bichinhos dentro da lata mesmo. Oliver gosta de manjericões frescos. Tudo tem de cheirar. O tomilho deve estar sempre por perto, sem complicações, nos vasinhos da horta, que não precisa estar em um quintal.

Não sabemos disso, então?

Parece que não sabemos e queremos ouvi-lo como quem absorve uma canção de ninar, repetidamente. A diferença é que, agora, quem canta para nós é um bebê. E esta monstruosidade não será maior ou menor que todas as outras de nossa vida presente.