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Oito e oitenta: Idomeneo e Platée

por Alexandre Freitas — publicado 01/02/2010 15h47, última modificação 20/09/2010 15h48
Quando entro na sala da ópera Garnier de Paris meu primeiro reflexo é olhar para cima. As cores da gigantesca cúpula pintada por Chagall liberam um grande acorde. E é esse acorde que faz a minha ida à ópera sempre boa, mesmo quando não é boa (parodiando um ilustre colunista).

Quando entro na sala da ópera Garnier de Paris meu primeiro reflexo é olhar para cima. As cores da gigantesca cúpula pintada por Chagall liberam um grande acorde. E é esse acorde que faz a minha ida à ópera sempre boa, mesmo quando não é boa (parodiando um ilustre colunista).

Há três meses, quando o tenor Giuseppe Filianoti engasgou na famosa ária Una furtiva lagrima do Elixir do Amor, . Disse que tinha gostado do erro por ele ter humanizado uma montagem excessivamente boa, coesa e coerente. Ontem, quando Tamar Iverie, a Electra da ópera Idomeneo de Mozart, cantou maravilhosamente a ária D'Oreste, d'Ajace gostei por uma razão análoga. Humanizou colocando algo de bom em meio a uma representação que não me foi nada convincente.

As movimentações cênicas, os cenários quase inexistentes, o figurino, entre outros fatores, não permitiram que a música decolasse. Nem sei se daria para decolar. O papel de Idamante, filho do rei de Creta, Idomeneo, foi feito pela mezzosoprano Vesselina Kasarova, e não por um tenor. A opção de colocar uma mulher para o papel do príncipe não é tão ruim, já que o rei também é um tenor e as duas personagens femininas são sopranos. Acaba por levar mais variedade de registros. O problema é que nosso o príncipe parecia um adolescente mudando de voz. Todo começo de frase tinha apoio vocal esquisito, que no começo estranhei e depois me deixou extremamente incomodado. Não sei se, por representar um homem, ela quis colocar uma grave antes de cada nota real. É verdade que um estilo se constrói baseado na repetição. Mas, 500 vezes em duas horas é demais.

A economia de meios, o clean, as formas geométricas, a sugestão mais que a representação, é opção arriscadíssima em uma ópera tão difícil quanto Idomeneo, re di Creta de Mozart. Sugerir a fúria de Netuno com gestos e alguns simples efeitos de luzes funcionaria com grandes atores. Exigir isso dos coristas funcionários da Opera de Paris é um exagero. A direção cênica de Luc Bondy é teatral, não operística.

Do oito, vamos ao oitenta. Platée de Jean-Philippe Rameau na mesma Opera Garnier. Assisti no penúltimo dia do ano passado e, há alguns instantes desta tarde de 21 de janeiro, me arrependi de não ter deixado ao menos uma notinha na coluna digital desta nobre revista. A direção musical era de Mark Minkowski e a cena era dirigida por Laurent Pelly, o mesmo do Elixir do amor citado acima. Cada cantor, cada músico, cada dançarino parecia cativado pela obra e pelas opções cênicas. Isso nos atinge no primeiro ataque da Orquestra de Câmara dos Músicos do Louvre. A ópera é cômica e tem como personagem principal uma ninfa aquática de beleza duvidosa, encenada por um homem travestido. A montagem é impecável e deu origem a um DVD incrível, produzido há alguns anos. Uma cena particularmente marcante é a da personagem Loucura (Folie) em que Rameau ironiza os floreios do barroco italiano. A soprano Mireille Delunsch entendeu o recado e o transmitiu.

A cena da Folie, além de várias outras, está disponível no youtube.

Vale conferir também a soprano brasileira Eliane Coelho no papel de Electra de Idomeneo de Mozart.