Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Obra da política ou escolha artística?

Cultura

Cinema

Obra da política ou escolha artística?

por Gabriel Bonis publicado 15/01/2013 07h11, última modificação 15/01/2013 09h54
Lobby do Congresso tira de Kathryn Bigelow a indicação ao Oscar de melhor diretora por filme que mostra tortura da CIA na caçada a Bin Laden

 

Em Hollywood, não há dúvidas sobre o conservadorismo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável por uma das mais importantes premiações do cinema mundial, o Oscar. Exemplos não faltam. O mais recente era a escolha de Crash, em 2006, como melhor filme, enquanto as apostas voavam alto no romance de temática homossexual Brokeback Mountain, de Ang Lee. A escolha que parecia óbvia aos críticos não venceu porque envolvia delicadas questões de gênero. E a Academia abomina polêmicas.

Mas trouxe para si um bom punhado delas ao, por razões de origem bem distintas, ignorar Kathryn Bigelow e Ben Affleck, tidos como indicações garantidas na categoria de melhor diretor. Ao abordarem, em temas diferentes, a atuação da CIA, serviço secreto dos Estados Unidos, ambos ficaram de fora da disputa. No caso de Bigelow, única mulher a vencer nesta categoria por Guerra ao Terror, fica mais que evidente a intimidação política do Congresso dos EUA.

Em A Hora Mais Escura, que narra a caçada do governo norte-americano ao terrorista Osama bin Laden, a diretora retrata uma CIA que tortura impunemente como forma de buscar informações. Já Argo aborda a tensa relação dos EUA com o Irã com o islamismo em plano de fundo. Em ambos os casos, os críticos cinematográficos tecem dezenas de motivos para justificar a presença da dupla entre os indicados.

          

O mais evidente deles é a vitória de Affleck como melhor diretor e filme no Globo de Ouro, no domingo 13, categorias em que Bigelow também concorria. Mas como alguém pode vencer um Globo de Ouro e ser esnobado pelo Oscar? A resposta está na forma como a escolha dos indicados ocorre na segunda premiação. Os cerca de 6 mil membros da Academia, profissionais de todos os setores da indústria, votam nos candidatos de sua área. Todos escolhem o melhor filme. Então, ambos foram ignorados por seus pares, os diretores. No Globo de Ouro, quem decide os premiados são os integrantes da Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood.

A situação de Bigelow é mais clara. A Hora Mais Escura despertou tanta polêmica que em dezembro os senadores Dianne Feinstein, Carl Levin e John McCain, candidato republicano à presidência em 2008, enviaram à Sony, estúdio do filme, uma carta denunciando a produção como “grosseiramente irreal e ilusória ao sugerir que o resultado de tortura levou à localização de Bin Laden”.

Na carta, os congressistas disseram-se desapontados com a forma como a CIA é mostrada, o que inclui oficiais em cenas de tortura de prisioneiros responsáveis por informações vitais na localização do ex-líder da rede terrorista al-Qaeda. Os congressistas disseram ter tido acesso às gravações do serviço secreto, motivo pelo qual garantem serem irreais as cenas do filme. “Acreditamos que você [presidente do estúdio] tem a obrigação de declarar que o papel da tortura na caçada a Osama bin Laden não é baseado nos fatos", diz o texto.

Os protestos se concentram em supostas falhas de contexto do filme, às quais o roteirista Mark Boal (indicado ao Oscar pelo filme) respondeu não ser “tratar de um documentário, e nas cenas de interrogatórios com simulações de afogamento de membros da al-Qaeda.

Os oficiais que participaram das sessões não são punidos ou questionados por suas ações. Os críticos esperavam uma cena de repreensão a este tipo de comportamento ou, ao menos um paralelo ao que desencadeou a busca por Bin Laden: os ataques de 11 de setembro. Isso não ocorreu, e Bigelow foi chamada por alguns veículos de imprensa de nazista.

A diretora despertou também a ira de alguns atores. Ed Asner, Martin Sheen e David Clennon enviarão uma carta para "conscientizar" os membros da Academia antes da votação que definirá os vencedores. Em uma das partes, a mesagem diz: “esperamos que A Hora Mais Escura não seja honrada pelos membros da Academia”. O recado é claro.

Outro aviso vem do Senado. O filme começa com o alerta de que é “baseado em fatos de primeira mão sobre os verdadeiros eventos”. Por isso, o Comitê de Inteligência da Casa investiga quem poderia ter vazado informações à diretora e o roteirista do filme. Entre os suspeitos, está um diretor da CIA que se encontrou com a dupla.

Parte da imprensa saiu em defesa do filme. Em artigo na Foreign Policy, Laura Pitter, conselheira de contraterrorismo da ONG norte-americana Human Rights Watch, destacou que a produção “pega muito leve” com a CIA. Segundo um levantamento feito por ela para a organização, o tipo de prática mostrada (e outras mais brutais) são comuns na agência.

O trabalho cita a entrevista com cinco líbios opositores do regime de Muammar Kaddafi detidos pela CIA entre 2000 e 2005, quando a cassada a Bin Laden já estava em vigor. Eles relataram que durante a custódia dos EUA, que variou de oito meses a dois anos, foram acorrentados nus a paredes em celas apertadas e escuras por semanas, além de serem repetidamente atirados contra as paredes, espancados e colocados em posições dolorosas durante dias. Alegaram ainda terem passado fome, ficado incomunicáveis com suas famílias e expostos a músicas em volumes altos para que não pudessem dormir. Documentos revelaram que um procedimento para colocar um dos prisioneiros, sabidamente com medo de insetos, em uma cela com estes bichos foi aprovado.

Houve ainda relatos das simulações de afogamento mostradas no filme. Um dos presos passou por ao menos 183 sessões deste tipo. Seria a produção tão fora da realidade? O fato é que desde a revelação em 2004 dos abusos cometidos por soldados americanos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, contra prisioneiros iraquianos o governo procura rebater mais firmemente acusações de tortura.

À época, foram divulgadas fotografias de torturas e humilhações impostas aos presos que variavam de estupro a eletrocução e ataques de cachorro. O comportamento fazia parte da Doutrina Bush de combate ao terror, que incluia uma tolerância e até incentivo à tortura de suspeitos de terrorismo nas prisões da CIA ou em locais fora do território americano. Anos depois, em 2008, um relatório do Senado culpou os profissionais da cúpula do governo de George W. Bush pelos abusos.

O filme de Affleck, sobre o resgate de seis diplomatas americanos em Teerã, no Irã, após a invasão da embaixada dos EUA no país em 1979, também é crítico ao governo. Produzido, entre outros, por George Clooney, Argo culpa os EUA pela situação de tensão política no Irã que levou a depredações antiamericanas e à retomada do poder pelos aiatolás.

Em meio ao lobby antiBigelow, os membros da Academia têm a chance de dar a A Hora Mais Escura o maior prêmio do evento. Seria uma das poucas vezes em que o diretor do melhor filme não levaria estatueta em sua categoria, mas também uma resposta singela à intimidação. Uma reação que parece já ter sido iniciada pelo público: o filme estreou em 11 de janeiro na liderança da bilheteria norte-americana com 24 milhões de dólares. É mais que o total arrecadado em toda a trajetória de Guerra ao Terror.

Confira o trailer de A Hora Mais Escura (sem legendas):

Confira o trailer de Argo: