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O tigre asiático

por Orlando Margarido — publicado 15/11/2010 13h37, última modificação 15/11/2010 13h37
Assistente de Kurosawa relembra a ira do gênio

Assistente de Kurosawa relembra a ira do gênio

À ESPERA DO TEMPO

Teruyo Nogami

CosacNaify, 320 págs., R$ 69

Há uma curiosa recorrência ao mundo animal que pode ser transformada em analogia na trajetória do mestre japonês Akira Kurosawa. Começa com cobras e sanguessugas em Rashomon (1951), passa por carrapatos e um tigre siberiano indolente em Dersu Uzala (1975) e prossegue com cavalos em Kagemusha –
A sombra do samurai (1980), além de corvos em Sonhos (1990). Quem explica as referências é Teruyo Nogami, afável senhora de 83 anos que por mais de cinco décadas trabalhou na produção dos filmes do cineasta. “Os animais talvez simbolizem melhor do que nós, os colaboradores, a obstinação de Kurosawa e os obstáculos a que os filmes dele nos infringiam”, disse bem-humorada na sua passagem por São Paulo, enquanto montava a exposição de desenhos do diretor, em cartaz até o domingo 28 no Instituto Tomie Ohtake. Convidada da 34ª Mostra de Cinema, Nogami também veio lançar À Espera do Tempo – Filmando com Kurosawa, livro de memórias sobre a relação com o genial e temperamental realizador, no ano de seu centenário.

A exemplo do capítulo dedicado à relação com os animais, incômodos numa floresta sufocante ou elevados à categoria de quase protagonistas, os relatos de Nogami procuram o tom espirituoso, sem ser banal, para talvez aliviar a tensão no relacionamento com o homem de quem dispôs da intimidade como poucos. Iniciou a parceria em Rashomon, depois de colaborar com o influente diretor japonês Mansaku Itami, pai do também cineasta Juzo Itami. Prosseguiu com Kurosawa até Madadayo, o filme-testamento de 1993, primeiro como continuísta e depois assistente de produção, posto suscetível a intempéries de toda ordem.

E elas se deram na ordem do perfeccionismo e mesmo na do trágico. Numa passagem que ironiza o título, Nogami lembra a espera do tempo, aquele meteorológico, para a realização da tomada externa perfeita. Eram horas na expectativa pela definição de Kurosawa, na qual contava até o desenho das nuvens, mas também momentos de descanso para a equipe. Sua obstinação alcançava detalhes como a construção do castelo em Ran (1985), que para lograr um incêndio convincente teve o isopor de sua estrutura recoberto de cimento e então pintado para parecer antigo. A assistente, no entanto, nem sempre aceitou calada os desmandos do irascível diretor. Este, certa vez, arremessou-lhe um prato ao ouvir uma impertinência durante as sofridas filmagens de Dersu Uzala na Rússia. Sobre esse período de grande pressão para Kurosawa, Nogami faz o único ato de penitência no livro: não soube compreender a difícil fase pela qual ele passava, a ponto de ter tentado o suicídio.