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O tempo não é o senhor da razão

por Celso Marcondes — publicado 05/02/2010 19h37, última modificação 18/08/2010 19h42
Crítica do filme O que Resta do Tempo

“Uma crônica de um ausente presente” ("Chronique d'un absent présent"). Este é o subtítulo que Elia Suleiman apresenta para seu O que Resta do Tempo, que estreia nesta semana em São Paulo. Nascido em Nazaré, Suleiman se ampara nos diários de seu pai para começar a contar, em quatro episódios, um pouco da história da dominação israelense e da reação do povo árabe, majoritário na cidade.

Tudo começa em 1948, pouco depois da partilha da Palestina, no momento da chegada das tropas de Israel em Nazaré, onde enfrentam e vencem a resistência árabe-palestina, da qual seu pai fazia parte. A narrativa é feita tendo como foco seu núcleo familiar e vai mostrando, ao longo dos episódios que se desenrolam até os dias de hoje, como seu povo vai convivendo com a nova realidade.

Nascido em 1960, Suleiman vira em determinado momento personagem do filme, que passa a criar recorrendo a fragmentos de suas memórias, prestando também uma bela homenagem a seus pais. Apresenta situações que expõem as contradições nos comportamentos dos habitantes da cidade, desenvolvidas ao longo dos anos. De um ângulo, foca a persistência eterna dos conflitos. De outro, os sinais de acomodação ao novo status quo.

Por exemplo: no princípio, a história mostra parte da juventude local, seu pai principalmente, resistindo com armas na mão à ocupação israelense. Já no episódio final, ambientado nos nossos dias, ele destaca a alienação de uma parte dos jovens de origem árabe, confinando-os a uma discoteca onde dançam freneticamente ao som de música eletrônica. Eles permanecem completamente alheios ao fato que estão sendo vigiados do lado de fora do prédio por um comando do exército de Israel. Porém, frustrados seus pedidos para que o volume do som seja abaixado, os também jovens integrantes da patrulha se resignam a acompanhar o ritmo da música com a cabeça, contrariando aos espectadores que imaginavam que fosse acontecer uma ação violenta de represália.

Parece aí que Suleiman tenta mostrar que a situação se acomoda, com dominantes e dominados abrindo mão do confronto. Mas em outro momento, também ambientado nos dias de hoje, o diretor deixa claro que tudo está longe de se resolver. Surge na tela uma manifestação com dezenas de jovens palestinos que é reprimida por uma tropa israelense. O curioso é que quem consegue deter momentaneamente a repressão é uma jovem mãe árabe, que tentava atravessar a rua com um carrinho de bebê. Instada a sair do local por um soldado, que a manda “ir pra casa”, ela responde: “quem não está em casa são vocês”, os soldados da ocupação.

Em outros momentos, Suleiman vai para a tragicomédia. É marcante a sequência em que um homem concentrado numa conversa ao celular, anda de um lado a outro da rua sem perceber que seus movimentos são seguidos por um enorme tanque de guerra.

Embora seja um filme político que deixa explícito o engajamento do autor, O que Resta do Tempo não tem nada de panfletário, também não é “pesado”, nem arrastado. Quando usa do humor, nos leva a abrir um sorriso contido, mas sem jamais gargalhar. Quando procura um tom mais poético, encanta com cenas belas. Preste atenção àquela em que sua mãe, já idosa e doente, sentada na varanda, parece completamente indiferente a um grandioso espocar de fogos de artifício que anunciam o Ano Novo.

E assim, intercalando cenas de confronto com cenas de acomodação, momentos cômicos com trágicos, que Suleiman narra como sua família passou pelas últimas cinco décadas, sem abandonar a terra natal. Com exceção dele, que, conta o filme, foi instado a fugir do país quando jovem para não ser preso, retornando muitos anos depois. O “ausente presente” a que se refere o subtítulo, deduz-se.

As cenas iniciais e finais do filme, quando um taxista conduzindo um passageiro - a princípio não identificado - fica perdido numa estrada sem saber para onde ir tantos são os obstáculos, parecem ter o objetivo de sintetizar a visão de Suleiman sobre a dura realidade local.

Foi em Nova York, onde viveu dos 21 aos 33 anos que o diretor iniciou sua carreira cinematográfica, sempre focando o conflito entre árabes e israelenses. Começou em 1990 dirigindo um documentário. Ganhou seu primeiro prêmio importante no Festival de Veneza, em 1996, com Crônica de um Desaparecimento, melhor filme estreante, e em 2002, faturou, com Intervenção Divina, o Prêmio do Júri do Festival de Cannes.

O que Resta do Tempo foi exibido em Cannes no ano passado e também no Festival do Rio de Janeiro e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Agora no circuito comercial, dá para mais brasileiros a oportunidade de conhecer melhor uma realidade distante da imensa maioria de nós. Onde o tempo que passa não leva à razão.