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O sonho, o artista e os bancários

por Clara Roman — publicado 22/01/2012 14h40
A exposição Matéria dos Sonhos, de Marcello Grassmann, parece uma provocação em meio à rotina banal dos funcionários que caminham pelo centro financeiro de SP
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Obra sem título.

Quem passa no saguão de entrada do Banco Citibank, na Avenida Paulista, mal percebe que está diante da obra de um dos maiores gravuristas brasileiros. Entrada para o escritório do banco e corredor de passagem entre a Avenida Paulista e Alameda Santos, o Espaço Cultural Citi trouxe para o público as gravuras de Marcello Grassmann, em exposição até o dia 3 de fevereiro. A mostra “Matéria dos Sonhos” é um convite para a introspecção. Ignorado, no entanto, pela maioria das pessoas que passa pelo local.

“Foi viajar no ano novo?”, “Consegui uma promoção!”, “Como vai a família?”. As frases, ditas por quem cumpre seus pequenos rituais diários, se confundem ao universo dos sonhos da obra de Grassmann. Nessa passagem fugaz, os quadros em preto e branco são quase esquecidos nas paredes. O espaço sugere, assim, um cenário contraditório: a movimentação incessante do dia a dia, contraposta com a atmosfera de outro mundo que Grassmann tenta construir.

“Ao contemplar as formas criadas por Marcello Grassmann, a extraordinária qualidade de seu desenho, o aprofundamento do tema de maneira tão elevada e com tanta propriedade, resta em nós a convicção de que entramos em um universo antes desconhecido e agora revelado pela lucidez do artista”, definiu Jacob Klintowitz, curador da exposição.

 

Por suas características próprias, que envolvem trabalho manual e a construção da imagem camada por camada, a gravura exige contemplação. A experiência não se basta no primeiro impacto, mas na descoberta lenta dos mistérios da obra, de detalhes que são também as pistas do processo criativo do artista. Na obra de Grassmann, isso é potencializado. Uma figura pode emergir do fundo negro dos quadros, quase imperceptivelmente, resquício intencional de uma fase anterior do processo.

Seus personagens, a princípio, nos são estranhos. Mas deixam uma sensação de déja vu quando, aos poucos, reconhecemos figuras como a Medusa, do mito grego ou São Jorge, santo que, dizem as histórias, luta na Lua contra um dragão. Algumas não têm nome, mas bem podiam ser figuras do universo infantil, como o bicho-papão, ou o boi da cara preta. Suas sombras e contornos difusos despertam lembranças até então enterradas e dialogam com o subconsciente.
O jogo de luz e sombra é construído na meticulosidade dos milhares de traços do artista. Não é à toa – a gravura surgiu da ourivesaria, ofício medieval de produção de jóias, praticado por artesãos e que encantava a nobreza da época. Em meio ao trabalho de riscar e corroer, cria-se uma superfície de formas quase tão complexas quanto a imaginação humana.
O desafio é justamente esse. Talvez encastelado em um museu, a realidade apareça como possibilidade distante. A morte da avó do colega, o acidente de trânsito, a promoção, a viagem, casamento, festa do sobrinho, o fim de semana, o saldo negativo no banco – tudo isso fica para trás, do lado de fora da galeria.

Na exposição de Grassmann, no entanto, a rua é levada para dentro do museu. Fica a provocação para deixar-se levar pelo universo mítico do artista e, ao mesmo tempo, observar a fronteira entre duas atmosferas, num mesmo ambiente.

Corre-se o risco, porém, de não se perceber nem um nem outro, e a experiência tornar-se apenas uma caminhada em meio ao burburinho no entorno de um centro de finanças.