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O Sherlock elementar de Guy Ritchie

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 15/01/2010 18h28, última modificação 20/09/2010 18h29
Está havendo uma completa má compreensão do problema, diria o saudoso jornalista Yllen Kerr, no que se refere ao filme Sherlock Holmes, do festejado diretor inglês Guy Ritchie e em exibição nos cinemas do planeta.

Está havendo uma completa má compreensão do problema, diria o saudoso jornalista Yllen Kerr, no que se refere ao filme Sherlock Holmes, do festejado diretor inglês Guy Ritchie e em exibição nos cinemas do planeta.

A maioria dos textos que têm sido publicados é um primor de desinformações e lugares-comuns, clichês de quem nunca leu as 56 novelas e contos de Conan Doyle, sobre seus dois imortais personagens, Holmes e Watson – agora interpretados por Robert Downey Jr. e Jude Law, ambos excelentes. Para começo de conversa, andam a considerar Holmes um cara comportadinho. Até o mundo mineral, diria um amigo nosso, sabe que ele era de sair na porrada, lutava boxe e artes marciais, em particular o bartitsu.

O bartitsu era uma mistura de luta e método de defesa japonês, que chegou à Inglaterra em 1898, tornando-se bastante popular. Como Holmes era um cara de seu tempo, certamente entrou para uma das academias abertas na Londres vitoriana. Foi com um golpe de baritsu que Sherlock mandou seu nêmesis, o Professor Moriarty, desta para outra pior.

No filme, Holmes aparece lutando também a bare-knuckle, precursora do boxe, na qual não se usavam luvas – o pau comia com as mãos nuas. Era ainda exímio esgrimista, mirolho com uma pistola, usava o que estivesse mais à mão, como uma bengala ou um chicote. Além de ser um mestre de disfarces, a ponto de tapear seu fiel escudeiro. Ou seja, Sherlock não ficava elucubrando no apartamento de Baker Street 221B. Quem fazia isso era o detetive americano Nero Wolfe, que, segundo alguns estudiosos, seria o filho que Holmes e Irene Adler tiveram em 1892. Mas, claro, essa é outra história.

Por oportuno, você sabia que o apartamento do Dr. Gregory House tem o número 221B e que existem diversos paralelos entre ele e Holmes? Por exemplo, House é viciado em paracetamol (Holmes, cocaína); toca violão, piano e gaita (Holmes era ótimo violinista); usa métodos dedutivos parecidos com os do detetive.

Quando ficava de saco cheio, Sherlock tacava no braço uma injeção de 7% de cocaína. Para acabar com a monotonia. Usou também morfina, mas não se deu bem com o ópio – drogas absolutamente legais nos tempos da rainha Vitória. Tanto ele quanto Watson eram tabagistas eméritos. O médico desaprovava o uso da cocaína, que Holmes só o teria deixado no fim da vida.

O Dr. Watson, ex-oficial médico-cirurgião do Exército da Rainha, ferido na primeira guerra do Afeganistão (epa!), que antepunha as políticas colonialistas da Grã-Bretanha e da Rússia (epa!, de novo). Não se tratava de um babaca, nem de um cara subserviente a Holmes – casou-se logo na terceira aventura e foi morar com a mulher, Mary Morstan em outro apartamento londrino. Casou-se mais duas vezes (Amelia Watson e Violet Hunter) e, como ele próprio gostava de se gabar, “conheceu mulheres de cinco continentes”.

Holmes, por sua vez, era apaixonado pela atriz Irene Adler, única mulher a derrotá-lo. No filme ela é uma espécie de socialite, mas tudo bem. Nenhum roteiro, muito mais sobre Sherlock Holmes, é perfeito. Ritchie mostra que o detetiva não era outro cidadão de hábitos estranhos. Pelo contrário. Mandava bem.

Watson costumava sacanear o amigo, por este não saber que a Terra gira em torno do Sol. Holmes dizia não ter lugar no cérebro para armazenar tais bobagens. Em suma, era contra a cultura inútil.

Enfim, Holmes nunca disse, em qualquer história, “Elementar, meu caro Watson.” Coisa inventada, em 1916, pelo ator americano William Gillete, que cunhou também a roupa e o cachimbo curvo que viraram clichês. Hollywood foi nessa, com os filmes de Basil Rathbone. Guy Rit-chie, assim, resgatou, com ampla liberdade, a memória de Holmes e Watson. Conan Doyle teria gostado. Elementar.