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O Salvador e a disenteria

por Alexandre Freitas — publicado 26/10/2011 15h16, última modificação 06/06/2015 18h55
Espectadores religiosos se sentem ofendidos com a imagem de um velho com disenteria usando fraldas face à representação do rosto de Cristo

Com um imenso rosto de Jesus Cristo projetado sobre uma tela no fundo do palco, um senhor de idade sofre de uma forte disenteria. Seu filho, com muito zelo e carinho, troca suas pesadas fraldas. Todo esse cuidado, porém, não impede que as fezes do pobre homem deixem seus traços, corrompendo assim seus alvos aposentos. O pai implora perdão ao filho e ele, pacientemente, prossegue em seu penoso labor. A situação vai ficando intolerável, tanto no palco quanto na plateia, visceralmente perturbada. O velho, impotente e abatido, soluça, grita, se revolta. O filho beija o Cristo. Saem de cena os dois atores. A atenção se volta inteiramente à face de Jesus, que impassivelmente observava a todos. Por detrás daquela imagem, sombras de homens a cobrem com um véu negro. Despejam também algo na tela (excrementos?). O rosto vai se perdendo em brumas e é rasgado pelos mesmos homens que o cobriram. Aparecem os dizeres: “Você (não) é meu pastor”.

É mais ou menos assim a trama da peça que estreou semana passada no festival de outono no Théâtre de la Ville, em Paris. Desde então, nada de tranquilidade na praça do Châtelet, diante do teatro. Policiais e seguranças armados cercam a área e revistam o público de Sobre o Conceito do Rosto do Filho de Deus, de Romeo Castellucci.

Toda essa confusão, diz o Le Monde, é a reação dos “fundamentalistas cristãos” que resolveram se engajar em uma guerra santa contra as apresentações dessa peça. Entre a maioria cética ou agnóstica na França, os católicos são associados a uma direita reacionária. Muitos são eleitores de Jean-Marie Le Pen, da Frente Nacional, e têm como padroeira Joana d’Arc, a santa que libertou Orleans dos ingleses. As palavras mais recorrentes do discurso dos religiosos contra a peça são: blasfêmia e “cristofobia”. A última tem aparência de neologismo e a segunda soa um tanto caricatural e ultrapassada. A Prefeitura de Paris, além de Frederic Miterrand, o ministro da Cultura, manifestaram seu apoio à direção do teatro e ao diretor italiano. Enquanto isso, a cada apresentação da peça, cristãos, entre eles algumas belas e bem vestidas jovens parisienses, rodeiam o teatro e rezam seus terços, implorando o perdão aos hereges. Um dia desses, um jovem escalou o muro do teatro e aspergiu algo nas pessoas que o adentravam. Água benta? Não, óleo combustível descartado.

A peça foi inspirada por uma tela chamada Salvator Mundi, de Antonello da Messina, importante pintor siciliano renascentista. Castellucci, formado em Belas Artes em Bologna, diz ter sido profundamente tocado pelo olhar daquele Cristo, que sempre se sobrepõe ao nosso olhar. Concebeu, a partir dessa imagem, uma peça que devia ser ao mesmo tempo experiência de uma profunda humilhação – a do pai, que sente escoar sua dignidade junto às fezes – e uma profunda manifestação de amor – do filho que cuida e  participa do sofrimento do genitor.

Os religiosos se sentiram ofendidos com a imagem de um velho com disenteria usando fraldas face à representação do rosto de Cristo.

Provocação gratuita? O diretor nos explica:

“Sem polêmica, sem blasfêmia, sem atalho de raciocínio nem caricatura idiota; o que eu faço requer uma leitura paciente, tempo e reflexão. O que eu faço é um apelo à inteligência e à sensibilidade dos espectadores.”

Considerações religiosas à parte, mais uma vez a destreza da condenação se apoia confortavelmente na preguiça de pensar.