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Protagonista

O retângulo eterno

por Rosane Pavam publicado 13/11/2012 09h50, última modificação 13/11/2012 09h50
Boris Kossoy realiza uma criação original enquanto reflete sobre a permanência da fotografia
kosoypost

A musa imóvel. Kossoy com Isabella em sua residência Foto: Isadora Pamplona

Os barbudos de 30 anos de idade adentram à sala Novas Proposições da Bienal Internacional de Arte de São Paulo e logo se entregam aos comentários. Notam que o maestro rege as tumbas do cemitério em uma das fotos penduradas. Um arlequim olha através do matagal. A jovem vestida de noiva senta-se sozinha no banco da estação ferroviária. Os espectadores não se conformam com o que veem e conjecturam o embuste. Nenhum maestro de fraque e batuta conduziria solitário a opereta dos mortos, eles especulam. Um arlequim jamais teria por que observar o espectador à beira da estrada.  E noiva abandonada não pega trem. Era 1971 e aqueles barbudos viam em Kossoy um impostor. Isto porque, à moda dos primeiros observadores das imagens impressas, no século XIX, eles equivaliam a fotografia a um teorema da verdade. Um outro criador talvez tivesse se divertido ao ver a própria obra poética movimentar especulações dessa natureza. Mas não Kossoy, hoje com 71 anos, artista e maior historiador da fotografia do Brasil, aferrado, portanto, à honestidade intelectual.

“Mas que burros eles eram!”, agita-se ao falar hoje sobre os antigos frequentadores daquela exposição, ele que acaba de escapar ileso dos efeitos terríveis de uma bactéria alojada em sua corrente sanguínea. O historiador, que passa parte do ano em sua casa no litoral catarinense, fala a CartaCapital na residência paulistana, lá onde as louças, os porta-retratos e as pedras alinham-se à progressão de seu tamanho sobre os móveis antigos, como se conversassem entre si. E onde os manequins, como a Isabella presente em tantas de suas imagens, parecem observar o passante sob todos os ângulos da sugestão. Essa casa no Brooklin Velho que Kossoy divide com a mulher, a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, vive agora sob o burburinho de madeiras e tijolos de uma reforma, e se refaz à imagem de seu construtor, também arquiteto, o homem por trás da exposição com 400 imagens da história brasileira a ter lugar a partir do dia 12 de novembro no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

Intitulada Um Olhar sobre o Brasil: A Fotografia na construção da imagem da nação, a mostra que também resultará em livro no próximo mês, com um total de 430 fotos, consumiu-lhe três anos de pesquisas coordenadas por Lilia Schwarcz para a Editora Objetiva. “A fotografia é aparência, mas também história”, ele considera. “Neste caso, não estou fazendo um volume sobre a história do Brasil através da fotografia, porque essa fantasia não sobreviveria sozinha. Eu a mostrarei, sim, como instrumento de construção da imagem da nação, a partir de marcos históricos, entre o Império e a República. E embora muitas vezes me oriente por datas, como faz a historiografia tradicional, entendo que lançar um olhar dessa natureza sobre o Brasil resultará numa anti-história também.”

Arquiteto e professor-titular da Universidade de São Paulo, ele argumenta que a construção está em tudo nesta vida, tanto quanto, na fotografia, nunca deixou de estar. O fotógrafo, sustenta, leva consigo sua formação intelectual, sua vivência de imagens, nascida dos filmes, dos museus, dos quadrinhos, de toda a arte, antes de se decidir pelo clique, que prisma esse conhecimento. Tal aparato pode ser consciente ou não ser. “Há uma dose muito forte de intuição no ato de fotografar, mas é uma intuição sabida. A experiência visual e a cultura geral são condicionantes para o ato criativo.” Ele viaja pelo mundo para ver. “E levo meus fantasmas comigo.” Depois que a foto sai, ela pertence, em suas palavras, ao “retângulo eterno”. Ali viverá por si, em uma segunda dimensão independente do fato, mas de alguma forma ligada a ele, como um documento ficcional a viajar pelo tempo. Ou, como Kossoy diz, a fotografia será sempre um “documento expressivo”, do qual o observador, à moda de um detetive, poderá extrair os indícios de uma história, de um pensamento, de um mistério.

Ele não atestou facilmente de que fotografia e realidade eram coisas diversas. Entre o primeiro livro a refletir sobre o assunto, Fotografia e História, publicado como opúsculo em 1980, e o último, O Efêmero e o Perpétuo, de 2007, foram 27 anos de análises. Mergulhado nas reflexões favorecidas por sua dupla condição, de caçador de imagens e historiador, em 1976 ele selou a grande descoberta de sua vida acadêmica, a de que no Brasil o francês Hercule Florence não só desenvolvera um método pioneiro de fotografar como cunhara, pela primeira vez, o termo fotografia, em 1832. “Poderia ter faturado em cima disso, mas, pelo contrário, nunca me contentei com a descoberta. Incomodava- -me ser estigmatizado por ela, como já acontecera após a publicação de meu primeiro livro, Viagem ao Fantástico. Ao fim, ultrapassei tanto aquele trabalho como este. E, mais, decidi não morrer logo porque sei que ainda tenho algumas coisas a fazer.”

É preciso explicar que em tudo o que este intelectual faz e pensa há sempre dois homens, um Boris e um Kossoy, como sabemos haver, a partir do cidadão Edson, também o jogador Pelé. Nesta reportagem, ele é usualmente Kossoy, aquele que penou para entender o estranhamento que causava nos outros como criador, como Boris. Ao analisar a fotografia, buscava explicar a si. Mas não havia literatura para suas questões teóricas. Mesmo Roland Barthes ou Susan Sontag viam nas fotos apenas realidades. “Se a conclusão veio de fora, responde tudo?”, ele contestava. “Eu não engolia aquela história, mas, ao mesmo tempo, tudo me escapava. Sabe termômetro quando cai no chão? O mercúrio sai, a gente quer pegar, mas não pega?”

Ele se habituara a pensar solitariamente, filho único de um segundo casamento de seus pais. O russo Lazar Kossoy, seu pai, era fotógrafo sem exercer a profissão. Mas, durante a Primeira Guerra Mundial, compusera retratos de soldados, enviados a -suas famílias. O fato ficou desconhecido até a adolescência do artista, que, no entanto, sempre se viu cobrado pelo pai a “manter o foco” nas imagens. Kossoy carregou a observação para a vida. Menino, antes de ganhar a primeira câmera, olhava as pedras buscando focalizá-las exatamente, retê-las na memória. As plantas, o matagal a seu redor, tudo lhe parecia imóvel, a imobilidade que ele carregou para sempre nos seus personagens fotografados. Da primeira vez que viu um avião no céu, Kossoy teve a impressão de que estivesse parado no ar.

Na vida cotidiana, ao contrário disso, rejeita a imobilidade, é um homem de ação, metido em projetos difíceis de definir. Muitos fotógrafos desde seu início acharam complicado entendê-lo. Para eles, fotografia deveria ser uma coisa, poesia, outra. O então diretor do Museu de Arte de São Paulo, Pietro Maria Bardi, prefaciador de Viagem ao Fantástico, destoou da inteligência do período, abatida, é verdade, pela ditadura. E, como faria Millôr Fernandes em O Pasquim, levantou-se a seu favor. “Viagem fantástica de personagens humanos e fabricados à procura da paz que não encontram, submetidos a circunstâncias incongruentes e excepcionais”, escreveu o professor sobre a obra de Kossoy em 1971.

“Continuo na linha do realismo mágico”, ele diz hoje. Mas, ao fotografar, apenas respeita o que vê. Ele leu os escritores latino-americanos, tanto quanto os de mistério, como Edgar Allan Poe. E amou as histórias de Alex Raymond, vendo em cada um dos quadrinhos de uma narrativa uma obra completa, a sugerir estados mentais e emocionais. Um dia Kossoy abandonou as interferências sobre as cenas, as fotomontagens, e passou a preferir a fotografia direta, como James Stewart em Janela Indiscreta, um de seus filmes prediletos.

De todo modo, são imagens, agora como antes, cheias de humanismo, mesmo que nelas não exista um ser humano à vista. O estado que elas sugerem é de intimidade, muitas vezes, erotismo. Os postes falam, assim como as latas de lixo, imóveis ou inclinadas a ponto de perturbar o equilíbrio, como na foto icônica feita em Nova York, em 1971, presente no livro Boris Kossoy Fotógrafo (CosacNaify). Suas imagens pertencem a vários acervos permanentes, como os da Biblioteca Nacional da França e do Metropolitan Museum of Art, de Nova York. E Cornell Capa, o irmão do fotógrafo Robert, um dia convidou-o a escrever sobre os artistas Marc Ferrez e Hercule Florence em tomo editado pelo International Center of Photography, o ICP.

Em fevereiro do ano que vem, 40 das imagens recentes de Kossoy serão expostas na Galeria Berenice Arvani, em São Paulo. Porque ele ainda fotografa sem parar e com prazer. Não importa o meio, analógico ou digital, uma imagem colhida por mês deve ser realmente importante para suas exigências. “Dizem que vivemos o momento da pós-fotografia. Que nada. Continuamos vivendo a fotografia. Ela é um fato de interesse social a trazer cada dia mais gente para si.” E isso requer cuidado. “Com os meios digitais se fotografa tudo, embora o risco seja fazer isso distraidamente, como quem conversa com alguém enquanto digita o celular.” A palavra de ordem ainda é manter o foco, como ensinou seu pai.

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