Você está aqui: Página Inicial / Cultura / O que pode esta língua?

Cultura

Crônica do Villas

O que pode esta língua?

por Alberto Villas publicado 12/11/2015 16h37
Novas palavras e expressões surgem a cada dia, numa velocidade estonteante
Reprodução
“Gosto de sentir a minha língua roçar/A língua de Luís de Camões!”

“Gosto de sentir a minha língua roçar/A língua de Luís de Camões!”

De tempos em tempos, volto ao assunto. Abro a capinha do CD Velô e ponho pra tocar Língua, Caetano e Elza Soares cantando juntos: “Gosto de sentir a minha língua roçar/A língua de Luís de Camões!”

Já fiz um dicionário inteiro da língua morta, só de palavras que sumiram do mapa. Acontece que, de tempos em tempos, nasce uma palavra que se espalha pelos campos e pelas cidades, Brasil afora.

Nos últimos tempos, tenho tido uma certa antipatia quando ouço alguém dizendo simples assim ou me poupe. Não sei explicar porquê. Acho chato e só.

Hoje cedo, Ivan Finotti, meu amigo no Facebook,  postou sua antipatia por bora lá. Lembrei imediatamente do bora ir e ai surgiu a ideia dessa crônica.

Graças ao bom Deus, todos os meus quatro filhos já saíram da adolescência e aqui em casa desapareceram o mó legal, o então e o tipo. Tudo para eles era mó legal, tudo era tipo assim e quando eu perguntava qualquer coisa, por exemplo, que horas são?, a resposta sempre começava com um então...

Nossa língua muda a cada dia e ninguém sabe quem são os inventores das novas palavras, das novas expressões. Ninguém sabe quem teve a ideia de dizer, pela primeira vez, imagina, quando agradeceu alguma coisa ou disse obrigado eu, quando uma pessoa disse simplesmente obrigado.

Já se foi o tempo em que você batia palmas na casa do vizinho e dizia ô de casa! Já se foi o tempo em que você dizia que fulano está sentando praça, que fulana ficou pra titia ou que você ficou com a pulga atrás da orelha.

Tem dias que eu me implico com pequenas coisas. Apelidos, por exemplo. De repente, todo mundo ganha um apelido imediatamente. Fernanda vira , Simone vira Si, Valéria vira Val e Cristina vira Cris, como num toque de mágica.  

Tem dias que eu me divirto com tudo isso. Por exemplo, quando entro numa loja, a mocinha linda pergunta meu nome e, em segundos, já está me chamando de Vi.

O bora lá que o Ivan Finotti implicou,   espalhou-se pelo país de uma forma assustadora. Seja em São Paulo ou Teresina, seja em Nova Iguaçu ou Conceição do Mato Dentro. Todo mundo que quer ir a algum lugar está dizendo bora lá.

Mas não é só com o bora lá que o Fi implicou ou com o me poupe que o Vi implicou. Não vou falar do rashtag para não estender muito o assunto, mas que história é essa de #partiumiami, #partiuparis e #partiulisboa? Tudo junto, sempre, é bom lembrar.

Caetano e Elza estão com a razão. A língua é minha pátria e eu não tenho pátria, tenho mátria e quero fátria.

Vamos combinar. Não vou me estender muito aqui pra não transformar em inimigos, amigos do peito que gostam dessas novidades e se adaptam com a maior facilidade.

De boas!

Fui!

Morri!