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Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

O que diria Nelson Rodrigues sobre isso tudo?

por Matheus Pichonelli publicado 02/06/2014 04h36, última modificação 08/06/2014 07h42
Fora do Fla x Flu, do saudosismo justificável e do complexo de vira-latas, temos gente gabaritada refletindo (e muito) sobre o Brasil atual. Por Matheus Pichonelli
Rascunho

Reprodução da capa do jornal "Rascunho", uma ilustração de Dê Almeida, sobre o livro "A Cabeça do Santo"

“Isso só acontece no Brasil” e “o brasileiro tem complexo de vira-lata” são duas sentenças que se multiplicam à medida que se aproxima o pontapé inicial para a Copa no Brasil. Em tempos de rebelião virtual, de nós contra eles, de ufanismo versus derrotismo, quase sempre resumidos em 140 caracteres, tenho ouvido, também com certa frequência, perguntas sobre o que diria Nelson Rodrigues, de quem é a patente do “complexo de vira-lata”, se estivesse, com os dedos acionados e a bituca de cigarro no canto da boca, conectado hoje ao Facebook. Ele se espantaria com a indigência dos debates? E o que diria Stanislaw Ponte Preta se decidisse engordar o seu Febeapá – o Festival de Besteira que Assola o País? Que ai daria Rubem Braga à sua Copacabana em 2014? Que diria Fernando Sabino? E Otto Lara Resende?

Pode ser um exercício de elasticidade interessante para quem não se vê representado em um tempo em que fala-se de tudo, mas poucos têm algo a dizer - seja o artista que desafiou o regime com dança, voz e postura ou o centroavante que superou a dor para nos dar a glória. Mas Nelson Rodrigues não está entre nós. Imaginamos, mas não sabemos o que ele diria do novo Maracanã, da escalação do Fred e do Hulk (o apresentador e o meia-atacante), dos assentos numerados, do Messi, do coro “Não vai ter Copa” e do coro “Vai ter Copa a todo custo”. Essa é a má notícia. A boa é que não faltam pensadores ao Brasil – em que pese a sensação, inflacionada pelo eco midiático, de que “pensar” tenha se tornado uma atribuição de celebridades ou blogueiros militantes recém-saídos da fralda.

Os alentos podem estar longe da panaceia virtual, e me encontrei com um exemplo deles em tiragem analógica, quando recebi em minha mesa, dias atrás, um exemplar do Rascunho, jornal de resenhas literárias rodado em Curitiba e editado pelo escritor Rogério Pereira – sobre ele ouvi, meses atrás, de minha amiga Marsílea Gombata, após uma proveitosa entrevista na ocasião do lançamento de seu livro Na Escuridão, Amanhã: “Cara, você precisa ler esse livro. É muito foda”. (leia a entrevista AQUI)

Como sempre faço na vida, deixei o que importava para depois. E até agora não li o livro. Pelo contrario: segui a rotina, quase toda debruçada em notas de fofoca política, de diz-que-disses oficiais e repercussões eletrônicas que até divertem, mas não perturbam nem alimentam. Pensava em tudo isso – no tempo inadequado para pensar adequadamente sobre o tempo – quando abri o Rascunho no caminho de volta para casa (uma das vantagens de andar de ônibus é esta: ter tempo para ler o que postergamos durante as horas úteis). De cara fixei atenção na reportagem de capa: duas páginas inteiras de entrevista, um verdadeiro latifúndio mesmo para os padrões literários. Resultado: saí com o jornal debaixo do braço e nele fiquei durante os quase 60 minutos de viagem. Só fechei suas páginas quando era tarde e estava em casa, de pijama, com as luzes ainda acesas.

Pelo Rascunho, soube, por exemplo, da “ironia como gás lacrimogêneo” do livro O Brasil é bom, descrito como ácido relato de um período de tensões do escritor mineiro André Sant’Anna. O livro, descobri, talvez aquietasse os saudosismos literários de quem imagina que, depois dos clássicos, só houve dilúvio. É um desfile dos tipos característicos do Brasil atual: o comunista de classe média que odeia a classe C por invadir sua praia com carros de som alto; o nacionalista que culpa “o direitos humanos” pelo atraso do país; o fã de futebol que atribui o sucesso da seleção de 70 à ditadura; o que se sentencia superior por ouvir jazz e planejar uma viagem a um lugar da Indonésia que só ele conhece; o torcedor cuja terapia é transferir as frustrações para o time do coração; o pastor falso otimista em busca do dízimo”.

A sensação, ao ler a resenha de Guilherme Pavarin (obrigado, Guilherme) sobre O Brasil é bom, é que esse retrato de um país órfão de Nelson Rodrigues e companhia está, de certa forma, desenhado: faltava se conectar (ou se desconectar) a ele. “Com a ironia, abre-se, para citar Hegel, a possibilidade de mostrar que uma realidade sem valor não pode ser tomada a sério, e deve ser a todo momento invertida e pervertida. Eis o efeito que o autor busca em cada conto ao falar de um esquerdista que se sente incomodado por pobres ou de um homem que não suporta o direito do outro”, escreveu o resenhista.

Na mesma edição descubro que Socorro Aciolo, uma premiada autora de livros infantis, acabava de estrear na literatura adulta com um romance chamado A Cabeça do Santo, um marco da literatura fantástica inspirada em uma reportagem de jornal sobre uma cabeça oca, gigantesca e inacabada de Santo Antonio, que ficava no meio da rua e servira de moradia para “um homem qualquer”. “Ao desenvolver a narrativa, decidi que esse homem teria o poder de ouvir as orações das mulheres pedindo por casamento e que armaria uma confusão com as informações que tinha em mãos”, descreveu. Sua definição, na mesma entrevista, sobre literatura em nossos tempos é certeira: “Ela nos dá o poder de sonhar, especialmente na infância. Existe também a literatura que dói e que faz enxergar a dor do outro. Nada mais necessário do que o exercício da empatia nos dias de hoje, esses tempos de egoísmos”. Resultado (2): comprei o livro.

Mais à frente caio em uma entrevista do ficcionista Godofredo de Oliveira Neto e me pego repetindo as suas respostas sobre o ofício para mim mesmo:

-O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?

- Ler o parágrafo que acaba de ser escrito e achar que não é meu.

- Se pudesse recomendar um livro à presidenta Dilma, qual seria?

- “São Bernardo”, de Graciliano Ramos. Ela veria que Paulo Honório, o narrador, apesar de sair vitorioso como gestor de uma fazenda, é depressivo e angustiado.

- O que é um bom leitor?

- O que se deixa levar pela onda da narrativa. Daí ele vai entender que a literatura é sinônimo de liberdade, já que ela traz para o palco iluminado a ilusão consentida. Me lembrei do Nelson Rodrigues sobre o dinheiro: o dinheiro compra tudo, até amor sincero. A literatura também.

(Nelson Rodrigues, com o cigarro pendurado na boca, ri consternado em algum canto).

No dia seguinte, no caminho contrário (de novo de ônibus, de novo com o jornal-papel debaixo do braço, algo que havia tempos não fazia), chego ao trabalho um tanto desconcertado com um conto de Rogério Pereira, chamado À Espera do Pai, sobre um garoto de nove anos que anseia por uma bola de capotão como presente no Natal, mas, em vez disso, ganha uma bola preta, pequena, de borracha – o suficiente para odiar o doador, o próprio pai. “Nosso pés sofriam para dominá-la. Aos poucos, arrefecemos a sua fúria. Driblamos e a chutamos vida afora. Dói menos odiar o pai quando se está feliz”.

Sem perceber, acabava de ler uma das mais belas crônicas sobre Brasil e seu futebol – sem nem passar perto do “ame-o ou deixei-o” que parece predominar o debate padrão-Fifa dentro e fora das cidades-sede do Mundial. De certa forma, me sentia menos órfão por não ter por perto meus autores favoritos, quase todos mortos ou quase mortos, para me dar de pronto a leitura sobre esses tempos de Fla x Flu. Repetindo os que clamam por Nelson Rodrigues e companhia: "o que eles diriam sobre isso tudo?" As respostas jamais saberemos. Mas não deixa de ser um alento ver, pelas páginas de um jornal de resenhas, tanta gente disposta a refletir (e bem) sobre um período de certezas agudas e desesperanças crônicas.