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Crônica do Villas

O Progresso

por Alberto Villas publicado 13/08/2015 11h54
O que aconteceria se alguém que morreu há mais de duas décadas, voltasse?
Divulgação
Revista Mecânica Popular

Meu pai se atualizava com a revista Mecânica Popular, sonhando com engenhocas que os americanos inventavam

O meu pai era o rei dos eletrodomésticos. Não que ele tivesse uma loja com esse nome, longe disso. Numa época em que a televisão era a válvula, o fogão a lenha, o telefone de manivela, a forminha de gelo da geladeira era de alumínio e a pilha Eveready era chamada de “a pilha do gato”, ele já sonhava com tecnologia de ponta.

Em 1960, quando ele foi para a América do Norte pela primeira vez, trouxe de lá um container de novidades. O bairro do Carmo inteiro foi lá em casa ver como se fatiava um pernil de Natal com uma faca elétrica e olhou, espantado, para aquela televisão que tinha a tela do tamanho de uma palma da mão.

- Um assombro! Disseram os moradores do bairro, com o queixo caído.

Foi dos States que ele trouxe um telefone sem fio, um monstrengo branco enorme e pesado, que acabou sendo invadido por formigas.

Foi dos States que ele trouxe também um radinho de pilha azul calcinha, minúsculo, que fez o maior sucesso no Estádio Independência.

E a Polaroid que trouxe meio escondido? Quase matou o meu avô de susto, quando ele viu uma foto, já revelada, saindo da câmera, aquela coisa esquisita.

O meu pai não era rico, ralava o dia inteiro pra levar pra casa tudo do bom e do melhor, o que havia de mais moderno.

Diz a lenda que foi dele o primeiro fogão a gás Wallig de Belo Horizonte. Foi o primeiro a ter uma máquina de lavar roupa Bendix , o primeiro a ter uma máquina de escrever portátil Remington,  uma televisão em cores e o primeiro a ter um microondas em casa. 

Ele se atualizava lendo a revista Mecânica Popular, sonhando com aquelas engenhocas que os americanos iam inventando e que custavam a chegar em Minas Gerais.

Quando vinha a São Paulo, o velho não perdia uma UD por nada desse mundo. Foi numa dessas feiras que comprou uma panela de fazer omelete de última geração.

O meu pai morreu faz mais de duas décadas e toda vez que converso com os meus irmãos pelo WhatsApp, ficamos imaginando se ele voltasse um dia ao planeta Terra e desse de cara com esse progresso todo.  

Quando ele morreu, não havia ainda caixa eletrônico, CD, DVD, Blu-Ray, Netflix, TV a cabo, notebook, iPod, iPad, iPhone, nada disso.

Não havia a moça do telemarketing, não havia propaganda nas camisas dos jogadores de futebol, não havia kiwi no sacolão, não havia velcro, nem  freio ABS.

Imagine só. Não havia iogurte grego nos supermercados, não havia o Erramos da Folha, não havia o Easytaxi, o Uber, não havia essa história de senha, não havia o Aécio enchendo o saco, não havia paleteria mexicana, nada disso.

Quando o meu pai morreu, os apresentadores dos telejornais ainda não ficavam de pé pra conversar com o telão. Já pensou?

A gente não falava postar, deletar, digitalizar, online, não fazia selfie e ainda lia jornal de papel.

A vida era mais simples. O leite, por exemplo, era um só. Não tinha esse negócio de leite A, B, C, desnatado, semidesnatado, produto sem lactose, sem glúten, 50% menos gordura, nada dessas coisas.  

O meu pai, que nunca mais voltou, era do tempo em que dúvida era saber se enchia o tanque no posto do elefantinho da Shell ou no posto das gotinhas da Esso. Se o armazém vendia fiado ou não. Se voava pela Vasp ou pela Transbrasil. Se o filme era Fuji ou Kodakchrome.

Em resumo, se o meu pai voltasse hoje, morreria de novo. De susto. 

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