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Cultura

Fotografia

O poder em pedaços

por Rosane Pavam publicado 22/11/2010 16h10, última modificação 26/11/2010 16h14
Clicada a partir de ângulos irreverentes e risíveis, a Brasília dos palácios e gabinetes emoldura as imagens reunidas por Luis Humberto em livro
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O deputado Lula em 1981

Clicada a partir de ângulos irreverentes e risíveis, a Brasília dos palácios e gabinetes emoldura as imagens reunidas por Luis Humberto em livro

Com pouco mais de 30 anos de idade, na década de 60, o arquiteto e doutor Luis Humberto Miranda Martins Pereira tornou-se Luis Humberto, sujeito sem sobrenome, um artista que, ademais, decidira viver de fotografar a política, candidatando-se, com isso, à invisibilidade no Brasil da ditadura. O ex-professor acordava inquieto à noite, perguntando-se o que fizera da própria existência, ele que ajudara a fundar a Universidade de Brasília, em 1962, e agora, quatro anos depois, habitava uma espécie de limbo social. Até as pessoas que o conheciam de perto estranhavam o novo rumo. Entre elas, o parlamentar Leão Sampaio. O respeitável constituinte de 1934 procurou a mulher do antigo doutor com uma inquietação: “Vocês estão passando necessidade? Eu vi o Luis fotografando no plenário.”

Foi preciso que o tempo corresse e os responsáveis por atacar a democracia brasileira naquele período, derrotados, para que Luis Humberto se recuperasse do inferno dos outros e olhasse a si mesmo, e à sua nova carreira profissional, com aceitação. “Eu sofri de baixa estima por ser fotógrafo naquele começo. Mas entendi, com o tempo, que me interessava o prazer, não o reconhecimento alheio”, ele diz em entrevista por telefone a CartaCapital, de Brasília, cidade que deixou poucas vezes em seis décadas, mesmo tendo nascido no Rio há 76 anos. Do Lado de Fora da Minha Janela, do Lado de Dentro da Minha Porta (editora Tempo d’Imagem, tempodimagem@ uol.com.br), por ele intitulado “livro-testamento”, faz da capital brasileira um assunto com outro foco.

Nas fotos em boa dimensão, e sobre excelente papel, Luis Humberto escancara em preto e branco a palhaçada dos políticos, passeia ludicamente pela arquitetura de Oscar Niemeyer, examina a profundeza colorida do Cerrado e mostra com grande empenho as sombras do próprio quarto. Sua Brasília não é monumental. O livro em  capa dura, organizado pelo fotógrafo e curador Salomon Cytrynowicz, foi idealizado a partir de uma exposição realizada por Luis Humberto na Caixa Cultural, há quatro anos. E é tão rico em sua seleção de imagens que talvez não se possa falar em um livro-testamento neste caso, como o autor deseja, antes em livro-revelação para um grande público que desconhece a trajetória do artista, funcionário de diversos veículos de imprensa em cinco décadas, como as revistas Veja e IstoÉ.

*Confira este conteúdo na íntegra da edição 624, já nas bancas.