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O pior possível

por Rosane Pavam publicado 19/06/2008 16h00, última modificação 16/09/2010 16h10
O editor David Rieff escreve sobre a luta contra a morte travada por sua mãe, a intelectual americana Susan Sontag, e sobre a culpa que ele sentiu por não ter conseguido aliviar a dor sentida por ela antes de partir.

O editor David Rieff escreve sobre a luta contra a morte travada por sua mãe, a intelectual americana Susan Sontag, e sobre a culpa que ele sentiu por não ter conseguido aliviar a dor sentida por ela antes de partir. É extraordinário o trecho do livro “Swimming in a Sea of Death – A Son’s Memoir” publicado pelo caderno Mais! do último fim de semana. Susan Sontag sofreu muito a duas semanas do fim. Seu filho, que a assistiu, ainda sofre.

E sofre por não ter podido ser, naquele instante, mais do que foi, mais do que a impossibilidade que o momento lhe apresentara. Susan Sontag, diagnosticada como portadora de uma forma avançada de leucemia, a síndrome mielodisplástica, desacreditou que pereceria em função dela, já que superara duas outras situações graves no passado, um câncer no seio com ramificações linfáticas e um sarcoma uterino. Se o fato de acreditar na própria superação da doença fora suficiente para salvá-la antes, pensou, uma nova dose de convicção na cura a levaria a vencer o mal que se anunciava.

Autora de “A Doença como Metáfora”, ensaio contra o estigma que pesa sobre o doente responsabilizado pelo próprio mal, Susan Sontag exercia uma soberania intelectualizada, demasiadamente humana, sobre um fato da vida que ela sempre imaginara poder contornar. E é possível que visualizasse sua briga contra a morte como um bom exemplo de vida transmitido ao próprio filho, uma resistência saudável de exercer contra a impossibilidade. Resistir é palavra-chave. Um intelectual, escritor, filósofo, crítico ou historiador sabe desde o início que sua única chance de sobreviver no mundo das idéias se dá quando ele dribla quem o impeça de ser honesto com aquilo que pensa. Então, combater o impossível é algo que jamais lhe causará estranheza.

A ensaísta decidiu que se submeteria ao que lhe impusessem, desde que se visse curada. E ela não enxergava outra alternativa a não ser sair da cama e trabalhar. Mas a cerimônia final já vinha sendo encenada. Para ela, Susan não se preparara. Ela gritou - “Mas isso quer dizer que estou morrendo!” - no leito do hospital depois de informada pelo médico que a leucemia não fora revertida.

David Reiff está confuso. Ele se sente desesperadamente culpado por não ter, em poucas palavras, podido se despedir da mãe, ou, em um esforço para ajudá-la realmente a enfrentar as dificuldades, não ter sabido oferecer-lhe a opção da consciência do fim. Ademais, não teve tempo para acertar suas diferenças com ela, não conseguiu as respostas para questões jamais solucionadas em sua relação familiar. E agora ainda tem de desmentir todos aqueles que viram, na atitude da brilhante ensaísta, um indício de loucura.

Ela se recusou à despedida. Enquanto lutava para não morrer, submetendo-se a uma operação dolorosa, afinal malsucedida, não dedicou tempo àquilo que ocorria a sua volta e que seria definidor do futuro de David. Por circunstâncias que se pode perfeitamente imaginar, a mãe não pensou no filho.

Talvez seja falso demais dizer que somos pais para que nos vejamos continuados. Ateus ou, no dizer de Michel Onfray (“Tratado de Ateologia”, Martins Fontes), ateus religiosos, nós nos apegaremos ao que tivermos agora. Não acreditaremos que algo se seguirá a nossa própria extinção. Daí nossa tentativa de ser, diante dos filhos, afirmações de eternidade. Jorge Luis Borges dizia sentir um alívio em pensar que, depois da vida, haveria exatamente nada a lhe esperar. Gosto de me apegar a esta concisão do escritor. Mas agora o texto deste David Rieff me leva à sensação de responsabilidade para quem terá de lidar comigo, e com as memórias em torno do que sou, depois que eu morrer.

Duro como isto possa parecer, talvez devamos ponderar que a vida dos outros prossegue e que acertar alguns ponteiros com as pessoas que prezamos será o ideal a ser feito antes de partir. O ideal, claro. De que interessará algo, em momento tal, além do que sentimos? Lembro-me que, diante do agravamento de sua doença, Jorge Guinle optou por deixar o hospital e ir morrer em um quarto do Copacabana Palace, aquele hotel que lhe pertencera.

Sontag, submetida a grande sofrimento físico, manteve até o fim uma consciência racional. Não vivenciou a morte lenta da capacidade de pensar. Por um certo ângulo, não teve - como posso dizer isto?? - a pior morte do mundo. Surgiu-lhe a chance de se despedir, de realizar o último ato humano, mas ela não a usou porque não quis. Este é um aspecto da história que talvez console o filho que sofre, e nos deixe alertas.