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Cultura

Brasiliana

O piano da estação

por Matheus Pichonelli publicado 30/03/2013 10h17, última modificação 30/03/2013 11h43
Amigos adotam piano "esquecido" da rodoviária do Tietê e surpreendem passageiros com shows ópera e música romântica. Por Matheus Pichonelli

A canção era cortada pelos ruídos dos vagões, alertas de alto-falantes e gritos de Vai Curintia. Alheio à balbúrdia, o professor de música Antonio Veloso seguia imerso sobre o piano. Fazia 30 anos que Pavarotti não soltava a voz, salvo uma ou outra apresentação em igrejas ortodoxas de São Paulo. Diante da cena inesperada, no meio da estação Santana do Metrô, ele se aproximou, se apresentou ao pianista e começou a cantar ali mesmo, de improviso, para espanto da multidão. A dupla deu início, naquele dia, a uma parceria que dura cerca de um ano e atraiu outros adeptos. Virou rotina: uma vez por semana, um grupo de 10 a 15 músicos se reunia em torno do velho piano para tirar a poeira das teclas e das cordas vocais. Um dia o instrumento, parte de um projeto do governo estadual para incentivar a música nas estações de metrô, foi retirado do local.

Era preciso encontrar outro instrumento, tarefa não muito simples numa cidade projetada sobre ruídos e espaços reduzidos. Veio da professora de piano Sidnéia Silvia Antonio a dica: em uma área nobre da estação Tietê, a maior rodoviária do País, havia um disponível. Não qualquer piano, mas um alemão Fritz Dobbert, preto, meia-cauda, propriedade de um café da estação e que durante anos serviu apenas como enfeite. Tempos atrás, fora destrancado a muito custo graças, segundo a lenda, aos apelos de um morador de rua cubano. Desde então, havia se tornado em um dos cantos favoritos da professora, proprietária de um piano eletrônico. “Vinha aqui para fazer o piano falar.”

A migração foi automática. Hoje quem circula nas noites de quinta-feira pela estação ouve de longe a voz grave de Pavarotti, mais ativa do que nunca. “Canto de tudo. Ópera, opereta. Até operária eu canto”, brinca.

Pavarotti é como os amigos chamam Jacob Kabderian, filho de imigrantes armênios de 73 anos que diz ter estudado música e trabalhado a vida toda com administração e comércio exterior. Na quinta-feira 21, numa rodoviária relativamente vazia na semana anterior ao feriado de Páscoa, ele chegou para o encontro de terno, boné e camisa azul marinho de listras brancas. Antonio Veloso, o amigo do metrô, estava a postos, dedilhando solitário algumas notas. Kabderian tirou o boné, enfiou as mãos no bolso do paletó e começou: “Che bella cosa na jurnata ‘e sole”. Um passageiro de óculos que tomava seu café por ali quase caiu de susto. Outros clientes se olhavam, sem esconder o estranhamento, e só as garçonetes do café, acostumadas, pareciam indiferentes. Não demorou para os poucos passageiro da estação se aglomerarem, câmeras acionadas, em busca da voz que parecia ecoar na outra rodoviária da cidade, a da Barra Funda, tal a disposição do cantor na parte final: “O sole, ‘o sole mio, sta ‘nfronte a te, sta ‘nfronte a te!”.

Entre uma nota e outra, Pavarotti conversava com os amigos do ponto. “Quer dizer que o papa é argentino? Não estava sabendo...”, brincou. Depois, em tom sério: “Esse papa, pode escrever, vai ser daqueles que vai até o povo, cumprimenta, abraça, cuida”, disse, antes de começar a cantar a Ave Maria de Gounod, sua especialidade. Fez tanto sucesso que chamou a atenção de uma freira de vestes brancas.

Ao fim da música (e dos aplausos), todos querem arranhar suas notas ao piano. Alguns deles jamais leram uma partitura, caso do fabricante aposentado de máquinas de sorvete Evaldo da Silva Carvalho, de 79 anos. “Eu toco mesmo é de ouvido. Comecei a fazer aula, o professor me explicou que musica era dó, ré, mi, fa, sol, lá e si. Para mim era grego. Na terceira aula, disse que não queria tocar mais, ele disse que eu não sabia o que era música e não voltei mais. Comecei a mexer em casa e aprendi sozinho”, conta. “Hoje eu gosto de tudo. Só tenho ódio dessas músicas que tocam dois meses e depois ninguém se lembra. Tipo esses Ai Se Eu Te Pego Tchu e Tchá.”

O gosto pela música uniu Carvalho e os amigos em uma espécie de confraria. Em volta do piano do Tietê, os novos velhos amigos improvisam saraus, festas de aniversário e até encontro de fim de ano (com torta, bolo e guaraná). Alexandre Feltran, auxiliar de serviços gerais de 43 anos, e Jair de Viveiros, servidor aposentado de 65, batem cartão nesses encontros. Segundo Viveiros, a atração chega a reunir até 200 espectadores. “Tinha um sujeito que começou a frequentar o grupo e se aproveitou. Um dia, saiu pedindo dinheiro em nosso nome. Juntou 300 reais, foi expulso e nunca mais apareceu.”

Viveiros é uma espécie de segunda voz de Pavarotti. Quando a garganta não dá conta, ele se limita a bater palma. “Esse aí”, diz o advogado Roberto Dal Coleto Batistuzo ao ver a animação do amigo, “se você disser que vai ter música no cemitério ele vai”. Batistuzo é espectador assíduo. Toda quinta avisa a mulher que vai demorar para chegar em casa. Orgulha-se de ter uma música executada em sua homenagem todas as noites do encontro, As Time Goes By, do clássico Casablanca.

A música é tocada por Sidnéia, um talento recém-descoberto na estação. Foi graças a uma apresentação gratuita entre os amigos que ela recebeu um convite para um trabalho fixo: tocar num restaurante do Shopping Morumbi. Foi ali também que, certo dia, levou às lágrimas um passageiro ao executar Somewhere in Time, música-tema do filme Em Algum Lugar do Passado. Era a música favorita de sua filha, uma aeromoça vítima do acidente da TAM. “No fim, ele chorava, eu chorava, todo mundo chorava”, conta, lágrimas nos olhos.

Não foram as primeiras nem serão as últimas. Nos corredores de uma estação fria, a música improvisada pelos amigos se tornou cartão de visita. É a primeira lembrança de quem chega, a última de quem embarca. Na Rodoviária Tietê, música e saudade se uniram no canto certo.