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O peso da arte livre

por Rosane Pavam publicado 13/06/2011 16h31, última modificação 19/06/2011 11h41
Pesquisa mostra o ilustrador Angelo Agostini como um abolicionista conservador a agitar o mísero cnário cultural brasileiro do século XIX
O peso da arte livre

Pesquisa mostra o ilustrador Angelo Agostini como um abolicionista conservador a agitar o mísero cenário cultural brasileiro do século XIX. Por Rosane Pavam

O mistério cerca o mais importante artista gráfico da segunda metade do século XIX no Brasil. É o mistério de sua alegada desimportância neste País que se proclama bem-humorado e artístico. Mas Angelo Agostini, italiano de Vercelli, naturalizado brasileiro sob exigência pública do intelectual Joaquim Nabuco, dada sua ação inigualável como abolicionista em duas décadas, foi principalmente humorista, em mais de 3 mil páginas por ele desenhadas na imprensa. Se o Brasil tarda a valorizá-lo, quiçá por sua condição de caricaturista, usualmente tida por menor no terreno da arte, e apenas o reconhece como um pioneiro das histórias em quadrinhos em terras locais, não se trata de um problema de Agostini, mas do Brasil.

O desenhista, jornalista e professor Gilberto Maringoni, de 52 anos, pesquisa a arte desse italiano desde pelo menos 1996, mas, em razão dos raros compêndios em torno de seu objeto, parece compelido a jamais abandoná-lo. Sobre o artista que todos parecem olhar de maneira secundária, o silêncio, ele acredita, não pode mais pesar. Maringoni desfaz a qualificação única de quadrinista mundialmente pioneiro a ele concedida. E o vê, antes, como um impressionante autor de folhetins visuais.

O pesquisador se recorda de uma tarde na década de 1980 durante a qual, em um sebo curitibano, deparou com a coleção completa da Revista Illustrada, na qual Agostini atuara entre 1876 e 1888. Maringoni deu-se conta, então, de que a publicação semanal, “no fundo, um panfleto”, documentava, com suas possibilidades e limitações, um período em que a monarquia decaía e cresciam os apelos pelo fim da escravidão dos negros. Dentro da Revista, a obedecer seu espírito, Agostini tornava-se uma referência jornalística dissonante, ainda que central para o País. No campo da estética, suas narrativas gráficas não tinham paralelos. Naquele da política, poucos se aventuravam, como ele, contra a servidão humana que relegava à indignidade a imagem brasileira diante do mundo.

“Fiquei impressionado com a beleza do que ele fazia, mas também com sua versatilidade, a capacidade de empenhar crônicas narrativas e críticas de arte enquanto investigava a intriga palaciana e reportava, visual e esteticamente, o homem daquele período”, conta o pesquisador em entrevista a CartaCapital. Ele lembra que Agostini, fundador dos periódicos domingueiros O Diabo Coxo e O Cabrião, em seu período paulistano, além de ter criado Dom Quixote e deixado marcas profundas em publicações como Tico-Tico, O Malho e O Arlequim, lutava em silêncio para fazer seu trabalho valer dentro da imprensa incipiente brasileira, florescida no século XIX não para imprimir livros, mas para relatar notícias, estas inteiramente submetidas à Corte nos anos iniciais.

A julgar correto o que ensinara o crítico Ernst Gombrich, Agostini, como todo artista, não poderia transmitir o que via, apenas traduzir sua visão -para os meios que utilizava. No Brasil, tais meios eram muito pobres. Mas, a partir da segunda metade do século XIX, um artista detalhista como ele pelo menos poderia escolher a temática e o tom das abordagens a realizar. A partir de 1850, a imprensa gozava, no Brasil, de grande liberdade, e o próprio imperador dom Pedro II era um dos alvos mais constantes de ataques e desenhos satíricos.

Angelo Agostini – A imprensa ilustrada da corte à capital federal, 1864-1910 (Devir, 256 págs., R$ 39,50), o importante livro lançado agora, resulta da tese de doutorado de Gilberto Maringoni em História Social na Universidade de São Paulo. Sobre o artista, houve antes desta, em 2002, a publicação bem-vinda, ainda que tardia, de As Aventuras de Nhô Quim & Zé Caipora: Os primeiros quadrinhos brasileiros, na qual Athos Eichler Cardoso organizava as narrativas folhetinescas dos dois personagens da autoria do desenhista para a editora do Senado Federal.

Maringoni não faz uma biografia, nem um álbum de impressionante reprodução gráfica, algo que, contudo, espera empreender no futuro, a destacar a qualidade técnica do artista. O trabalho que publica neste momento, contudo, é altamente inovador porque finca em linguagem clara a importância de Agostini como homem de ideias livres em um cenário cultural brasileiro próximo da miséria.

As ferramentas do artista eram o lápis, o estilete, o esfuminho e algumas folhas de papel vegetal. E também a pedra, como observa Maringoni a certa altura do livro: “Seu universo passa pela pedra litográfica. Não é uma arma, não é exatamente um marco fundador. É um meio”. A pedra ficava em cima de sua mesa, apoiada por um cavalete ou por um livro grosso em um dos lados, o que a deixava em posição inclinada. A superfície era lisa e regular. Media cerca de 60 centímetros de largura, 40 de altura e 10 de espessura. O peso atingia 10 quilos. A mesa, os apetrechos e a pedra constituíam o ambiente de trabalho do italiano por mais de 40 anos, entre 1864 e 1907, data de seu último desenho litografado conhecido.

Morto no Rio de Janeiro em 1910, com 67 anos incompletos, Agostini jamais cercou sua vida de documentos. Ele vivia pelo fazer, desenhava, escrevia, fotografava, pintava, editava, montava jornais, constituía empresas, reunia equipes e comentava diversos assuntos em um estilo muito próximo dos atuais blogs, como acredita o pesquisador. Raramente redigia cartas ou depunha publicamente sobre seus interesses. Uma história relatada pelo escritor Múcio Leão dá mesmo conta de seu desligamento dos fatos corriqueiros, a ponto de, depois de casado, ter-se deitado na cama de sua antiga residência de solteiro, esquecido de haver se unido recentemente a uma mulher. “Agostini não tem diário íntimo, e sua intimidade é o que ele publica”, diz Maringoni, que decidiu apenas afirmar sobre o artista, em seu livro, o que “poderia controlar”.

A infância do desenhista e suas condições de vida em São Paulo, no Rio e em Paris, para onde partiu na companhia de Abigail de Andrade, sua aluna duas décadas mais nova, que engravidara dele enquanto o artista permanecia casado, não podem ser descritas com acuidade. Abandonar o Rio na efervescência da luta pela República que ele apoiava, em 1888, depois da abolição da escravatura pela qual também lutara, teria ocorrido a ele somente porque sua mulher precisava ter em paz a filha Angelina, futuramente tornada pintora. Abigail deu à luz um menino algum tempo depois, morto ainda criança. Ela própria foi vítima de tuberculose e morreu em Paris, cidade que Agostini rapidamente trocou pelo Rio.

Ele, que no início da vida brasileira atuara- em São Paulo, onde, segundo Antônio Alcântara Machado, “a tristeza hereditária e incurável do paulista” se revelava, assistia a um Rio irreconhecível a partir de 1894. Aumentava a criminalidade no País, surgiam a febre amarela e as rebeliões regionais, como a de Canudos, e os negros que Agostini quisera livres tentavam se integrar a uma sociedade racista.

Agostini defendera o fim da escravidão como muitos outros desejosos de ver o Brasil adentrar a modernidade industrial, que pressupunha o trabalho livre. Mas sua base de entendimento do mundo ainda era elitista e latifundiá-ria. Não foi difícil perder-se ao assistir à integração social dos negros. Mesmo não sendo um escravocrata, revelou-se um ideólogo do racismo, nos moldes de grandes figuras do período.

Quando Maringoni deparou com esse Agostini, pensou em desistir da pesquisa. Mas decidiu acolhê-lo justamente pela aparente incongruência, que revelava um pensamento brasileiro de então. O desenhista não estava sozinho. Não fora o próprio Nabuco quem, ao falar sobre Machado de Assis após sua morte, dissera tratar-se não de um escritor negro, mas helênico, como a lhe retirar a pecha indesejável da cor? E, em 1884, Agostini já escrevera: “Somos muito abolicionistas, mas não nos extasiamos diante das belezas da raça africana, cuja plástica deixa muito a desejar. Vê-se cada venta!”

Sua solidão maior, contudo, dizia respeito ao Brasil de terrível consenso que se anunciava nos anos posteriores ao regresso. Entre 1898 e 1902, o presidente Campos Sales, em um arranjo institucional, consolidava a República a partir da oligarquia cafeeira, anulando o Congresso com eleições fraudulentas e concentrando o capital. Toda a imprensa o apoiava, a revelar um pensamento único que não deve parecer de todo estranho a quem vive o momento presente.

Até mesmo os artistas diferiam de Agostini de maneira inconciliável. Suas- técnicas se apoiavam na existência de grandes parques gráficos. Embora o desenho dos novos fosse mais sofisticado, sua veia não era profundamente crítica. Nesse cenário, Agostini via dificuldades em ser um nanico de ideias livres. Era como o Quixote de sua revista homônima. Um modernizador conservador. Um destruidor de moinhos, que morreu envelhecido, solitário e triste.