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O passado ensina

por Orlando Margarido — publicado 28/08/2011 17h38, última modificação 29/08/2011 15h19
O Homem do Futuro, filme de Claúdio Torres com Wagner Moura e Alinne Moraes, resgata lição de qualidade cômica. Por Orlando Margarido

Assim como O Homem do Sputnik assinalou, em 1959, dois fatos importantes à época, o sintoma da Guerra Fria e o próprio declínio dos estúdios onde foi gerado pouco tempo depois, quem sabe não possamos verificar em longo prazo relevância semelhante neste O Homem do Futuro. Pois a comédia de Cláudio Torres que estreia na sexta 2 flerta com o espírito de chanchada, sem se contentar com ele, confia quase toda a sua força a um prodigioso protagonista, Wagner Moura, a exemplo do que significou Oscarito no passado da Atlântida, e ainda reflete um estado de coisas determinantes do período que enquadra. Esse tempo, em um dos bons recursos do filme, não é o presente atual nem o futuro aquele imaginado, portanto passível de ideias destrambelhadas.

Não que a trama as rejeite, próprias que são de um universo cômico atrelado ao científico. Mas o espectador há de concordar que mais disparatado hoje do que viajar no tempo em um processador de moléculas parece ser a posse de Fernando Collor nos anos 1990, em uma das gostosas ironias apresentadas pelo filme. No fim daquela década, também  cabem, com a mesma precisão de hoje, nos lembram, a ganância e o enriquecimento pela especulação no mercado financeiro.

É nesse tipo de milionário que se transforma, em determinado momento malfadado de seu périplo, o físico interpretado por Moura. Tudo porque, ao ingressar em sua máquina, desiludido pelo possível corte da pesquisa em que trabalha, ele retorna aos tempos de faculdade e, mais especificamente,
a um show de estudantes onde sofreu suprema humilhação e teria perdido para sempre a mulher de sua vida (Alinne Moraes). Ao tentar rearranjar as coisas, o efeito obviamente será o de muita confusão.

É possível alinhar ao filme de Torres diversas referências literárias e cinematográficas, ou ambas, no caso da precursora adaptação do clássico de H.G. Wells no filme de 1960, A Máquina do Tempo. Todas procedem, mas não desempenham grande influência na medida em que servem apenas como recurso narrativo para tocar em temas como o impacto das decisões juvenis para a vida adulta. Não por acaso, o foco da ótima trilha sonora é Tempo Perdido, do Legião Urbana, canção interpretada pelos atores protagonistas e síntese de uma valorização do momento vivido. De qualidades notáveis na safra atual do gênero, O Homem do Futuro é exemplar de um tipo de cinema que procura alguma fresta aos olhos da audiência tão difícil hoje de reconquistar, aquela com que a Atlântida criou empatia em outros tempos.