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O paraíso perdido

por The Observer — publicado 23/09/2011 12h04, última modificação 23/09/2011 12h10
A indústria diluiu a rebeldia de Nevermind, disco do Nirvana que faz 20 anos e agora é relançado

Por Lauren Spencer, do The Observer

Vinte anos atrás, em um dia quente e malcheiroso de agosto, atravessei o lobby de um hotel elegante em Manhattan para entrevistar a banda de rock cujo primeiro lançamento por um grande selo, o disco Nevermind, ocorria em Nova York. Como eu trabalhava para a revista Spin, ouvira as faixas antecipadamente. Iria encontrar aqueles caras que se intitulavam Nirvana e descobrir por mim mesma como misturavam céu e inferno em cada uma de suas canções.

Quando entrei no quarto deles, do tamanho de um armário, contendo camas de solteiro, uma cadeira e uma mesa, fui recebida por Kurt Cobain, o cantor-compositor e guitarrista, e por David Grohl, o homem da bateria. O baixista Krist Novoselic havia assumido um compromisso anteriormente e não poderia estar conosco. Os dois que me recebiam não tinham o aspecto de futuros astros do rock-. Pareciam-se, antes, com garotos deixados à vontade com seus brinquedos. Era impossível prever, naquele início de década, o fato de o Nirvana ter-se tornado o responsável por abrir, a um público maior, o caminho de grupos alternativos de espírito semelhante, como o Sonic Youth. Tampouco parecia possível detectar em Nevermind, a ser relançado no fim deste mês pela gravadora Universal (no Brasil, em formatos de CD simples, CD duplo e DVD), o disco que derrubaria o gigante do pop Michael Jackson do topo da Billboard americana.

Havia algo nas canções, na apresentação ao vivo e na atitude dessa banda baseada em Seattle que rapidamente deixou a indústria do rock de orelhas em pé, de modo a que aquilo antes considerado um som underground emergisse -para -confundir as classificações dos discos e os modelos tradicionais da indústria musical. Certamente, não fui a única a responder àquele chamado, como testemunhei em 24 de setembro de 1991, dia do lançamento de Nevermind, ao ver o Nirvana ao vivo pela primeira vez, em Boston. O show ocorreu em um clube chamado Axis. A energia era palpável desde as primeiras notas de seu cover de Jesus Doesn’t Want Me for a Sunbeam, dos Vaselines, e durante seu próprio single, Dive. As notas rebatiam nas paredes, o suor -escorria do palco para fora, os garotos sacudiam os alicerces do prédio abandonado.*

*Leia a íntegra na matéria na edição 665 de CartaCapital, nas bancas nesta sexta-feira 23