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O ombro de A.

por Redação — publicado 28/10/2013 09h04
Leia a íntegra do conto escrito pelo ex-ministro do STF Eros Grau para o livro "As Letras da Lei", que reúne textos de juristas e advogados
As Letras da Lei

A capa do livro que reúne contos de juristas

O livro As Letras da Lei, lançamento da editora Casa da Palavra, reúne contos inéditos de figuras importantes do Direito brasileiro. Organizado pelo advogado Pierre Moreau, o livro apresenta textos dos ex-ministros da Justiça José Gregori e Miguel Reale Junior e do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Eros Grau, cujo conto está, na íntegra, abaixo:

O ombro de A.

Três palmos nos afastavam. Havia apenas o infinito entre nós. Não somente três palmos pela frente, na mesa que ela ocupava. Uns quatro lateralmente. Eu na mesa ao lado. Absolutamente por acaso. Mas estivemos juntos por um instante. Como se fosse para sempre.

Usava uma blusa decote canoa, dois ou três dedos abaixo do pescoço, de modo que apenas os seus ombros, um de cada vez, jamais os dois, eu os podia ver. No espaço de mínimos segundos, por conta de um breve gesto seu, a blusa escorregou e vi-lhe o ombro direito e a alça do sutiã. Naquele ponto do ombro próprio ao repouso das alças dos sutiãs. Nossos olhos se encontraram, ela se aprumou, percebi que enrubescia. Não mais do que alguns segundos de nudez e o infinito entre nós. Naquele instante, assim, vi seu ombro nu, que ela não cuidou de esconder senão por conta da alça do sutiã. Naquele instante fomos delicadamente amorosos. Em nosso silêncio declaramo-nos apaixonados um pelo outro. Sonhamos ficar juntos. Estivemos em comunicação com a ternura.

***

Não voltei a vê-la desde então, nunca mais, mas não a esqueci. Não era linda. O rosto era sereno, sem qualquer sinal, ponta ou trejeito incompatível com a imagem da mulher para amar. Ela justamente, por acaso, a mulher – se viável e plausível – que eu elegera para amar.

Cinco. Dez anos talvez tenham passado desde aquele momento que me pergunto, de quando em quando, se não durou toda a minha vida. Tinha o colo branquinho, como se raramente tomasse sol. E peitinhos pequenos – dela eu jamais diria que tivesse seio assim ou assim: A. tinha peitinhos pequenos, desnecessário o sutiã [sei-lhe o nome, A., porque alguém ao seu lado, naquela mesa, chamou-a pelo nome, A.; nada mais].

Acredito ter participado, como espectador, de outro breve momento seu. A. ergueu os braços por uns segundos e vi-lhe as axilas depiladas, depiladinhas. Axilas femininas me fascinam. Suponho os púbis a elas correspondentes também assim. As e o de A. me excitam, desde aquele momento reiteradamente. O tempo todo que passou desde então. Desfruto delas e dele em meu imaginário licencioso, mas é o ombro que mais desejo.

***

Li, em um romance, de um sujeito que acompanha os movimentos da Olympia anteriores ao instante reproduzido na tela de Manet. Ela sabe que o excita ao levar as duas mãos à nuca, de modo a deixar-lhe à mostra as axilas. Como em alguns dos meus sonhos me provocam as de A. seu corpo pequeno me perturba. Agora o vejo similar à postura da Olympia no instante reproduzido na tela de Manet. O laço de fita no pescoço, a flor nos cabelos, o bracelete, o gato preto no canto da tela. Seu corpo pequeno me perturba. Apenas um detalhe me desconforta: a posição do ombro, que aqui vejo desde um ângulo diverso daquele de quando três palmos nos afastavam pela frente e havia apenas o infinito entre nós. Mas entro no relato do romance. Fico então por ali, à espera da minha vez, já que há outro com ela agora. Mais tarde, ela se mostrará de frente para mim. Mantendo a flor nos cabelos, desatará o laço de fita no pescoço, mandará sair a escrava com as flores...Faremos amor aos borbotões.

***

Muitas vezes eu a vi na televisão, A. Em inúmeros programas. Em um deles Fernandinha é ela alguns anos mais jovem. Aquele sestro no andar, os braços especialmente assim, apenas um tantinho mais gordos em relação ao ombro. As duas análogas, muito análogas. Uma passa facilmente pela outra no meu imaginário televisivo. Penso exageradamente nas duas, se bem que A. prevalece. Se não há um programa em que Fernandinha esteja, fico somente, basta-me, com a imagem de A. Que nem a outra, estreitinha, bonitinha.

A. é assim, bonitinha. Basta que seja assim, o que é tudo para mim. Bonitinha. Se fosse linda, seria impossível. Por ser assim, bonitinha, quase a posso tocar. A.! amo essa mulher de decote canoa dois ou três dedos abaixo do pescoço, de modo que apenas os seus ombros nus, um de cada vez, jamais os dois, eu pude ver. O ombro direito e a alça do sutiã, naquele ponto do ombro próprio ao repouso das alças dos sutiãs.

Poderia ter sido tudo diferente. Um enorme abraço, ela deixando que eu a trouxesse ao meu peito – em verdade A. se atirando aos meus braços – nossos corpos juntinhos. Não nos beijaríamos ainda, teria sido um forte abraço delicado, meu rosto quase colado ao dela, repousado sobre seu ombro. Eu teria perguntado sobre o que ela pretenderia fazer durante o resto de sua vida [como em uma canção americana] e estaríamos juntos desde então, amando a vida.

***

Diariamente chegam ao meu gabinete mais e mais recursos e autos processuais. Uns correspondentes aos outros. Como às axilas e ao púbis de A. corresponde aquele ombro delicioso. Devo, contudo, afastar esse tipo de divagação, em geral imediatamente anterior às fantasias em que me perco [ou me encontro?], beijando-o e o quanto há de continuidade a partir dali.

***

Há muitos processos em meu gabinete. Matéria penal. Pertenço a uma câmara criminal. Chegam-me recursos aos montes, delitos para todos os deleites.

(-faço-me perguntas demasiadamente, eis o que me obriga a mais trabalho; pergunto-me, por exemplo, se pertenço ou faço parte de uma câmara criminal; indago a mim mesmo por qual diabo de razão relaciono deleite a delito; e vice-versa).

***

A moça da distribuição entrou no horário de sempre, trazendo-os, os processos que hoje vieram a mim, alinhando-os sobre a mesa auxiliar. Um assessor os classificou por matérias e me alertou com um comentário tipo “este caso é interessante”. Pedi que separasse, traria os autos para casa. Trabalharia neles à noite, como faço com tantos outros, à noite. Dou minha palavra: nessa tarde não me restou só um minuto para o ombro de A.

Jantei só, como de hábito. O desembargador celibatário pouco sai de casa. Trabalha a noite toda, salvo algum programa na televisão ou algum filme capturado via internet (com minúscula ou maiúscula? nunca sei).

Aqueles autos de repente estavam ali. Os do caso interessante que o assessor mencionou. RHC número tal, recurso em habeas corpus impetrado por G.T.A., paciente A.**!

Na hora próxima da meia-noite, os autos do caso interessante em minhas mãos. Seria ela, pensei, a mulher do ombro que me fascina, seria ela – a mulher que amo – seria ela a paciente? Finalmente, após tantos anos de (im)paciência, uma pista dessa mulher. Mais do que pista, caminhos abertos para o nosso encontro. Finalmente.

A circunstância de o nome ser A. nada significava. Folheei os autos, como quem trisca as cartas que pediu em um jogo de pôquer. Ergui devagarinho o verso da folha anterior à fotocópia ou Xerox da carteira de identidade da paciente, que havia de estar ali...

Na hora ainda próxima da meia-noite peguei uma folha de papel e anotei “declarar suspeição, motivo de foro íntimo, enviar redistribuição”. Pequenas lágrimas, vez por outra, desde então escapam dos meus olhos.

 

As Letras da Lei traz também contos dos juristas e advogados Denis Borges Barbora, Eduardo Muylaert, José Alexandre Tavares Guerreiro, José Renato Nalini, Luciana Gerbovic, Luis Francisco Carvalho Filho, Luis Kignel, Marcelo S. Barbosa e do próprio Pierre Moreau, organizador do livro. Além de um conto, Eduardo Muylaert participa do livro com fotografias de São Paulo, a partir de seu olhar atento e detalhista sobre a cidade.

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