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O olhar transformador

por Orlando Margarido — publicado 31/03/2011 09h19, última modificação 01/04/2011 15h00
Contador que aprendeu a ser fotógrafo, o pioneiro German Lorca, aos 88 anos, ainda se encanta com o poder modernizador das imagens.
O olhar transformador

Contador que aprendeu a ser fotógrafo, o pioneiro German Lorca, aos 88 anos, ainda se encanta com o poder modernizador das imagens. Por Orlando Margarido. Foto: Olga Vlahou

Foi uma demanda prosaica que incentivou o contador German Lorca à experiência inaugural com a câmera fotográfica, uma Welti 35 milímetros alemã recém-adquirida. Sua mulher engravidou pela primeira vez e o pai orgulhoso queria registrar as etapas que se sucederiam até o nascimento. Os familiares gostaram do resultado, entre eles um tio, o engenheiro, historiador e fotógrafo documentarista Manoel Rodrigues Ferreira, que o aconselhou a procurar formação técnica. A partir daí tudo é história, contada com a mesma casualidade impressa nas incontáveis imagens pelo profissional de 88 anos que contribuiu de forma decisiva para modernizar a fotografia brasileira desde os anos 50. Da primeira chapa, no preferencial preto e branco, do bonde incendiado por passageiros irados com o aumento da passagem, em uma São Paulo ainda sossegada de 1947, ao flagrante detectado por olhos treinados da mesa e divisória de um escritório convencional em Quadrado e Círculo, passaram-se mais de seis décadas e o corriqueiro continuou a dirigir o foco dos trabalhos. Os preciosismos, quase sempre, ficam por conta de quem os contempla.

Diga-se, contudo, que esse instantâneo banal não pressupõe necessariamente o golpe de sorte da cena pronta. Esse há, por certo, mas também o seu oposto, a imagem produzida, processo sobre o qual o contador que se reinventou detalha, com toda a franqueza e humor possíveis, sua descendência de espanhóis instalados no Brás, cenário inicial e contumaz. Ali está a menina de guarda-chuva aberto na rua de paralelepípedos a saltar uma poça d’água, por exemplo. A ideia do reflexo, ainda mais evidente no passo apressado de transeuntes pela Rua Barão de Itapetininga, no mesmo ano de 1952, tem naquela foto o expediente do arranjo, com uma sobrinha a lhe servir de personagem. Lorca relembra o recurso agora de posse de livros que catalogam seu trabalho e inicia um divertido jogo de adivinhação. “E esta, o que acha, produzi ou não?”, pergunta durante a conversa com CartaCapital, sobre um solitário guarda-chuva, talvez esquecido à porta de uma casa do bairro. Ou, da mesma série, um noturno onde outra poça divide o espaço com pernas cruzadas de cavalheiros e seus sapatos. E segue, com alegria infantil de quem começaria tudo de novo.

A quem interessar participar desse jogo há uma boa ocasião na Caixa Cultural paulista, que até 15 de maio exibe 57 fotos selecionadas pelo autor e o curador Eder Chiodetto. Exemplos não faltam para o visitante se perguntar com surpresa como Lorca fez aquilo. Seja um bem-intencionado blefe, como na pilha de pratos que cai na horizontal – “eles são de plástico”, ri malandro – seja a sensibilidade de notar o valor no cotidiano dos homens de terno lendo jornal e suas sombras em À Procura de Emprego. Por vezes um imprevisto mecânico e a prudência do fotógrafo que nunca se separa da sua ferramenta lhe permitiram registrar de cima uma paisagem de Bariloche com neve e árvores nuas. Isso num momento de falha do teleférico e sob protestos dos turistas quando as janelas do bondinho foram abertas. “Bem, fazia muito frio”, tenta se justificar.

Lorca enumera casos munido da mesma naturalidade com que traça sua trajetória de profissional da contabilidade um dia atraído pela primeira câmera. Com ela, passou a integrar um dos núcleos mais influentes da história da fotografia brasileira, qualificação não dele, mas sabida. Quando incentivado a procurar um aperfeiçoamento, numa época em que não havia escolas, apenas cursos de laboratório, Lorca foi dar no Foto Cine Clube Bandeirante. A entidade pioneira da prática em São Paulo no fim dos anos 30 tinha entre seus sócios José Yalenti, Eduardo Salvatore e Gaspar Gasparian, nomes de primeira ordem naquele cenário, e experimentava na década seguinte uma renovação pelos trabalhos de Geraldo de Barros, entre outros. O fotógrafo de cenas familiares chegou ali em 1948, disposto a aprender, e o fez primeiro com Francisco, ou Chico, Albuquerque, cearense desbravador da fotografia publicitária no Brasil. “Encontrei ainda um ambiente muito tradicional de fotografia, que o Barros e outros tentavam romper”, analisa. “Mas isso foi bom, pois com o Chico aprendi tudo sobre a imagem clássica, ele era um purista.”

Assistente de estúdio de Albuquerque, Lorca era atraído para a inovação de Geraldo de Barros. O também artista plástico e mais tarde fundador da Unilabor e Hobjeto, núcleos de mobiliário prático e moderno, alinhava-se com os colegas ao conceito artístico, proposta alternativa ao caráter documental da fotografia. “A composição de linhas era o mais importante”, lembra o paulistano. Aos poucos, chegava-se a uma simplificação das formas, à imagem arquitetônica.

A primeira exposição individual de Lorca ocorreu no Museu de Arte Moderna de São Paulo. A contabilidade saía dos planos e, em 1952, inaugurava seu próprio estúdio, dedicado a reportagens, trabalhos técnicos e industriais. “Eu me inspirava, principalmente, pelas fotos de Peter Scheier para a revista O Cruzeiro.” Sob a alcunha de G. Lorca Foto Studio, ele registrava matrimônios badalados, como da cantora Maysa, ou acompanhava visitas ilustres, a exemplo de Nelson Rockefeller. Algumas encomendas foram determinantes, como a de uma indústria de retífica de motores, cujo proprietário era um entusiasta da fotografia. O filho deste, Ubirajara Marien, surge envolto em sombras na foto Les Diables aux Corps, único título sugestivo das séries sempre nomeadas pelo local ou situação, de modo direto, como sugeriu Geraldo de Barros.

Nenhum projeto foi tão significativo como o convite a fotógrafo oficial do IV Centenário da cidade, em 1954, contratado por Ciccillo Matarazzo. A partir daí, já de posse de máquinas superiores como Leica e Rollei, adota uma atitude constante. Ao lado da obrigação contratual, no caso o registro das festividades nas ruas ou na Catedral da Sé, deriva para os interesses pessoais, aproveitando-se da oportunidade. É assim que a foto da atual Oca, então recém-erguida no Parque do Ibirapuera, torna-se referencial de seu trabalho, com uma velha senhora puxando pela mão um menino de calças curtas. O encontro foi planejado com a avó e um dos bisnetos dos Lorca, Frederico.

A conjugação de dever e prazer valeria para o ofício mais duradouro, a publicidade. Ela está presente desde os ensinamentos de Chico Albuquerque até hoje, no estúdio da Vila Mariana que leva o nome da família, administrado por Frederico e pelo ex-engenheiro José Henrique, único filho a dar continuidade à vocação do pai, também registrado criança no Jardim da Glória. O imóvel é espaçoso, mas não a ponto de deixar entrar os novos caminhões que precisam ser clicados, o que o levou ao aluguel de um galpão extra. Os caminhões ficaram maiores, ele explica.

Quando começou na área, a propaganda era novidade e não permitia muita ousadia. Mas Lorca fala com orgulho da silhueta, quase uma mancha, de uma mulher elegante em fundo branco que o Mappin- aprovou para seu catálogo. Sua tarefa poderia ser fotografar cavalos para o lançamento de um carro, mas ele voltaria com outra imagem impactante, a do animal em pinotes, para a coleção particular. Se, no estúdio, notasse belas pernas femininas torneadas junto às de uma mesa de madeira, por que não tiraria proveito?

Ele indica a contracapa da brochura da exposição, um jogo geométrico que lhe saltou do vitral da antiga estação ferroviária Sorocabana, de onde a mulher certa vez embarcava. A foto recebeu o nome de Homenagem a Mondrian, uma das poucas referências que denota influência artística na obra de Lorca, assim como Morandi e suas naturezas-mortas. Se tanto, Lorca arrisca Man Ray como vislumbre para uma composição moderna.

Ray ficou conhecido por melhor utilizar a solarização, quando a imagem é exposta à luz de modo breve durante a revelação, processo que constitui um dos orgulhos de Lorca. “Fiz algumas solarizações perfeitas, como a de um homem fumando.” Essa disposição para o experimento, ele mantém hoje com o advento do digital, já que sabe ser difícil repetir aquilo tudo realizado no meio analógico. “O digital permite transformar, retocar, sem que a foto mude. É uma maravilha”, diz, com a mesma fascinação de quem um dia descobriu um novo mundo pela curiosidade de documentar.