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O novo diabo manco

por Orlando Margarido — publicado 16/03/2011 10h24, última modificação 16/03/2011 12h09
A censura do Irã, que encarcerou o cineasta Jafar Panahi, evoca um passado brasileiro no qual o veto à arte obedecia a critérios obscuros e risíveis.
A censura do Irã, que encarcerou o cineasta Jafar Panahi, evoca um passado brasileiro no qual o veto à arte obedecia a critérios obscuros e risíveis. Por Orlando Margarido, de Berlim

A diretora Sepideh Farsi, iraniana representante da diáspora da revolução de 1979 e baseada na França, não conseguiu distribuir no Irã muitos de seus filmes. Há dois anos, sem obter aprovação do regime para novos roteiros, ela lançou mão de um recurso alternativo e saiu pelas ruas da capital colhendo depoimentos com o celular e produziu com eles o documentário Téhéran sans Autorisation. Em outra ocasião, arriscou contar com a pouca astúcia dos censores locais. Questionada sobre como uma jovem personagem da ficção Rêves de Sable poderia estar no deserto com um caminhoneiro e uma criança se não eram casados, ela improvisou um matrimônio para a moça, mas não com o protagonista. Apenas a reapresentou- no script como uma mulher casada e a trama passou pelo comitê. Seu colega Ali Samadi Ahadi, alemão de origem iraniana, também sublinhou essa característica rasa tão dominante nos representantes da censura em qualquer parte do mundo quando incluiu técnicas de animação no documentário The Green Wave. Para a compilação de imagens de blogs e fotos do movimento Onda Verde, queria burlar o rigor das regras sugerindo ingenuidade e infantilidade num protesto oposicionista bem adulto, e conseguiu.

Sepideh e Ahadi não devem saber, mas os realizadores brasileiros atuantes nos anos 60 e 70 teriam muito a relatar a seus jovens companheiros do Irã sobre a ação desastrada e incansável da censura em relação às obras de arte consideradas subversivas. Casos folclóricos dessa época brasileira não faltam. Na literatura, houve o revés do romance O Vermelho e o Negro, de Stendhal, que, editado originalmente em 1830, versava sobre a trajetória do ficcional Jean Sorel, um jovem entre a carreira eclesiástica e a das armas, mas que, no Brasil da época, foi risivelmente podado das livrarias apenas por portar a palavra “vermelho” no título. Sem nem mesmo ler o livro, o ignaro censor associara a obra, cujo subtítulo é Crônica do Século XIX, à causa comunista.

E o cinema nacional tampouco vivia tempos melhores. A sofisticada rapsódia de Macunaíma, por exemplo, ao ser filmada por Joaquim Pedro em 1969, foi entendida pela censura como a história de “um preto que vira branco, vai para a cidade extravasar seus instintos sexuais e volta à selva de onde veio”. A frase “muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são” não permaneceu na tela. Passagens como essas já foram reunidas pelo pesquisador Inimá Simões, autor do livro Roteiro da Intolerância sobre a censura aos filmes, e se somavam aos borbotões. Chegavam também aos festivais de cinema, como no caso de O Desafio, de Paulo Cesar Saraceni, sobre o romance entre a mulher de um industrial e um estudante libertário. Um militar de alta patente, intrigado com o título do filme, esteve presente durante a sessão na qual a obra foi apresentada, em 1965, sem ver suas suspeitas de desafio à ordem confirmadas.

A censura também não deixou por menos no caso de uma das mais perfeitas peças teatrais a demonstrar a situação brasileira pós-1964. Em Abajur Lilás, segundo observou o crítico Sábato Magaldi, Plínio Marcos desmontava “com meridiana clareza” a estrutura do poder ilegítimo. O próprio ministro da Justiça, Armando Falcão, proibira sua exibição, em 1975, sob a alegação de que atentava contra a moral e os bons costumes, sem que alguém pudesse julgar surpreendente tal atitude. No Brasil daquela década, portanto, artistas e censores sabiam quem o regime considerava seu inimigo. Mas isso não acontece de forma nítida no país atualmente comandado por Mahmoud Ahmadinejad.

“No Irã agora é um jogo do demônio”,- sentencia a ativista também exilada Mehrangiz Kar. Mas, prossegue, “os rea-lizadores não podem mudar as restrições políticas sob as quais são forçados a operar”. Durante o debate Cinema Censurado, organizado pelo Berlinale Talent Campus comoparte da programação do 61º Festival de Cinema de Berlim em fevereiro deste ano, ela e realizadores também presentes à discussão, a exemplo de Sepideh e Ahadi, concordavam na pouca clareza das intenções e ações do regime quanto à área cinematográfica. “Nunca sabemos o que esperar deles, que atitude podem tomar quanto a um mínimo passo nosso”, diz Rafi Pitts, outro cineasta iraniano radicado na França e uma das vozes mais atuantes na defesa da liberdade criativa em seu país. Sua condição de exilado permitiu que ele levasse a Berlinale em 2010, sem maiores entraves, seu novo longa-metragem O Caçador. Trata-se deum drama desafiador às normas institucionais rigorosas do Irã na história de um pai de família de Teerã que parte com seu rifle de caça para vingar a prisão da mulher e da filha, presentes por acaso numa manifestação oposicionista.

O filme é representativo da complexa teia que envolve o fazer cinematográfico, dos conceitos morais, religiosos e políticos em xeque no Irã. “Essa complexidade de uma nação em que religião e poder estão atrelados deve sempre ser levada em conta para uma discussão mais aprofundada”, alertou Pitts. “Tende-se a simplificar a questão apenas pelo autoritarismo, o que no caso de nós cineastas é vivido desde que se lança a ideia de um filme; a censura no Irã já se dá a priori”. O périplo para conseguir a anuência das autoridades quanto à realização de O Caçador foi exemplar de que são alvos- todos os projetos de cinema, sem exceção, conforme Pitts explicou a CartaCapital em conversa à época. “A primeira etapa da censura acontece quando se expõe o esboço do roteiro a um comitê; se aprovado, os responsáveis voltam a lê-lo quando concluído, acompanham as filmagens e assistem ao filme finalizado, para decidir se vai para as salas do país ou não, escolhendo o número e quais.” Esse sistema, segundo sua avaliação agora, só fez recrudescer com a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad em 2009, no que concorda Sepideh Farsi. “O regime pode intervir ainda na escolha de atores, técnicos e produtores.”

A razão maior do encontro estava evidentemente ligada ao protesto desta Berlinale à condição do cineasta Jafar Panahi, que foi convidado a integrar o júri do evento, presidido pela atriz Isabella Rossellini. A participação, contudo, resumiu-se a uma simbólica cadeira vazia com seu nome ao lado dos demais jurados. Em dezembro de 2010, o diretor de Fora do Jogo e O Círculo foi banido da esfera artística do país dos aiatolás, condenado a seis anos de prisão e a 20 de interdição em exercer seu ofício. A acusação baseia-se num provável filme de propaganda contra o regime que Panahi teria realizado e cujos únicos indícios são um esboço de roteiro e alguns minutos de imagens caseiras rodadas em sua residência. Ele é o exemplo mais pungente de uma censura de que muito se ouve falar, mas pouco se entende. “A inconsistência das provas mostra bem com quem estamos lidando; é um caso gravíssimo de corte aos direitos de expressão”, aponta Pitts. Uma carta sua a Ahmadinejad questionando a drástica atitude e pedindo a soltura de Panahi e de seu colega e jornalista Mohammad Rassoulov, outro acusado de mesma intenção, tornou-se referência dos recentes protestos, inclusive de uma passeata realizada em Berlim.

A truculência das autoridades iranianas também revolta diretores e intelectuais em todo o mundo, entre eles o francês Bernard-Henri Lévy, que disse ser Panahi vítima de um recém-inventado “delito da sinopse” por um regime que se tornou insano.  Sua declaração à revista Transfuge, uma das mais interessantes publicações culturais da França no momento, integra um dossiê dedicado ao caso na edição de fevereiro. Em quase todos os artigos, lembra-se a opção do cineasta em focar seus filmes eminentemente nas mulheres, em quem para ele está o poder de transformação da sociedade iraniana. É o que fazem as jovens garotas de Fora do Jogo, impedidas de entrar num estádio para ver uma partida de futebol, lazer permitido apenas aos homens no Irã. Assim também pensam Pitts, que em O Caçador mostra ser a mulher o esteio de um homem em desatino, e Asghar Far-hadi, premiado com o Urso de Ouro na última Berlinale por Nader e Simin – Uma separação. O filme dá conta de todo o turbilhão de conceitos em jogo na sociedade iraniana através do drama de divórcio de um casal esclarecido da classe média e um embate no tribunal envolvendo a empregada da casa, mulher humilde e religiosa. Parece um contexto perfeito para a censura aplicar seu corretivo, mas Farhadi- esquivou-se de parte dela ao não buscar fundos oficiais para a produção. Conseguiu dinheiro de instituições privadas, como bancos. Ainda assim, nas entrevistas durante o festival, foi prudente e preferiu não esclarecer uma declaração dada pelo jornalista e também diretor Mamad Haghighat de que a mesma Transfuge de que Nader e Simin teria tido intervenção das autoridades durante a filmagem.

Amigo de Panahi, chegou a telefonar para ele antes de vir a Berlim lamentando que não poderia estar ao seu lado no evento. Farhadi também procurou evitar questões espinhosas, cioso dos problemas que poderá ter com as autoridades num eventual sucesso do filme, como uma atitude mais clara de condenação à prisão do colega. Na coletiva de encerramento do festival, foi cobrado a se posicionar por uma jornalista iraniana que trabalha em Berlim. “Se eu fizer isso, posso ter problemas e ser proibido de filmar; e posso dizer o que quero se continuar fazendo meus filmes”, declarou. “Não sou um herói, sou um cineasta, acho que pelo cinema posso mudar muito mais.” Fim de festa no 61º Festival de Cinema de Berlim e o vencedor deixa a noite de premiação acompanhado da família e empurrando laconicamente um carrinho de bebê. Uma cena trivial, mas motivadora de reflexão sobre o que esperaria esse hoje respeitado realizador para o mundo na volta à sua complexa nação. Como tantos artistas brasileiros durante a ditadura, ele escolheu lutar dentro do próprio país contra o diabo manco que rouba dos iranianos a liberdade de expressão. •

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