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Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

O mundo por um fio de 'O Grande Hotel Budapeste'

por Matheus Pichonelli publicado 23/07/2014 12h40, última modificação 15/01/2015 13h05
O filme é uma bela analogia dos nossos tempos: o mundo como planejamos foi construído à beira de um penhasco. Ao falir, deixou como herança o caos e a incompreensão
O Grande Hotel Budapeste

O mundo por um fio, e à beira do precipício, do filme O Grande Hotel Budapeste

Em uma palestra recente, o psicanalista Joel Birman atribuiu parte das angústias contemporâneas à impossibilidade humana de se antecipar às catástrofes do mundo. Se antes a sociedade estava ordenada em regras claras, baseadas sobretudo na religião, o homem, a partir de certo momento, passou a ser a medida de todas as coisas. Passou a ser, assim, responsável pelo próprio destino. Um destino que tinha como combustível a razão e como ponto final, o entendimento – a paz, portanto, que durante séculos fora estraçalhada em nome de Deus.

Em vez da paz prometida, as grandes tragédias do século XX revelaram ao homem a sua capacidade de destruir e ser destruído. O Holocausto e a Segunda Guerra se tornaram mostras de que a racionalidade não nos pouparia do caos nem da angústia diante do caos. Pelo contrário: as tragédias foram pensadas, calculadas e embasadas em uma lógica até então aceita sobre fronteiras, raças e superioridade. É o que a filósofa Hannah Arendt chamou de “banalização do mal”: os executores dos genocídios, como a grande massa silenciosa, não agiam como assassinos confessos; diziam apenas cumprir ordens. Eram meras peças de um discurso, de um método, de uma máquina de moer gente.

Por algum motivo lembrei dessa digressão histórica, mal e porcamente resumida nos parágrafos acima, ao deixar a sessão de O Grande Hotel Budapeste, filme de Wes Anderson atualmente em cartaz em São Paulo. No filme, o gerente do hotel, interpretado por Ralph Fiennes (protagonista de O Paciente Inglês) é a personificação de um período anterior ao caos anunciado pela História. O enredo é simples: herdeiro de um quadro valioso de uma viúva de quem fora amante, o gerente luta contra a perseguição dos familiares da mulher para conseguir ficar com a tela. O filme intercala, então, suspense e comédia, numa espécie de corrida maluca entre os herdeiros ambiciosos e o herdeiro legítimo, o único que a amou sem qualquer interesse ou cumprimento de etiqueta.

 



O quadro tinha como imagem um menino com uma maçã – um menino parecido com o personagem, paralisado no tempo da delicadeza. Ao redor daquele hotel, o mundo se desmorona no equilíbrio mambembe das grandes potências do entreguerras.

Mas que mundo era aquele prestes a desmoronar? E que mundo é este que tomou o seu lugar? As perguntas norteiam a curiosidade dos personagens sobre o apego a um hotel que, com os anos, perdeu o charme e entrou em decadência. Pura memória afetiva ou apego a um passado desaparecido?

É nesse passado, que talvez jamais tenha existido, que M. Gustave, o personagem de Fiennes, transita enquanto o mundo ao redor pega fogo. A linguagem formal e os trejeitos contidos chegam a lembrar o personagem Sheldon, da série Big Bang Theory: como ele, Gustave se desloca do próprio mundo e passa a operar uma linguagem própria que poucos parecem entender – o que para uns é formalidade, para outros é lógica pura, sem delongas nem intenção de ofender.

A diferença é que o gerente do hotel consegue, à sua maneira, ser agradável, cordial, atencioso, detalhista e elegante o tempo todo – e não é assim porque a profissão exige, mas porque precisa sobreviver, seja no hotel, seja na relação com os superiores, seja com os subordinados, seja com presidiários, seja em um mosteiro, seja nos momentos em que todos perdem a cabeça e tudo parece pronto a explodir, inclusive a polidez. Ele, por sua vez, se controla, não se perde. Parece acima de qualquer mesquinharia, como sugere a posição da câmera: o hotel e as soluções estão sempre no alto, nos cumes de montanhas aparentemente inacessíveis, embora propícias à queda ao menor tropeço.

Se em filmes sobre a tensão pré-guerra, como E La Nave Va, de Fellini, e A Regra do Jogo, de Renoir, a mensagem é que o mundo está sentado sobre uma bomba, em O Grande Hotel Budapeste a mensagem é que o mundo está prestes a desmoronar do alto de um precipício. É como se ao fundo alguém dissesse: nunca fomos tão longe nem tão alto, e nunca estivemos tão perto da queda, do caos, da desordem.

Pois a ordem representada pelo gerente, que não dispensa o perfume nem quando anda pelo esgoto, estava com os dias contados. Em uma das cenas, quando o trem em que viajava é parado por policiais às vésperas da guerra, a explosão de uma violência inevitável é contida pelo diálogo: o gerente reconhece o policial, chama-o pelo nome e pergunta por seus pais, hóspedes recorrentes de seu hotel. A bomba é desarmada, assim, pela alteridade. É como se a relação naquele mundo próprio fosse mediada pelo reconhecimento do outro como humano, um conhecido, um próximo; uma mediação sem a qual a humanidade se desidrataria. A guerra, por sua vez, tem outra linguagem. Explode quando este outro é o estranho, de quem o caráter humano é negado: quando jovens são apenas vândalos, palestinos são apenas uma ameaça e judeus são apenas invasores pode-se fazer tudo contra eles. Eles são apenas um outro, assim nomeado pela linguagem universal, e assim destituídos de qualquer humanidade.

Talvez fosse esse o mundo ao qual M. Gustave estava ligado e que um dia se perdeu: um tempo em que a fronteira, a raça e o gênero não decidiam quem deveria ou não viver. Um mundo que dialogava, que se reconhecia, e entrava em acordo. Esse mundo, como demonstram as tragédias do Século XX até aqui, jamais foi alcançado. Era uma miragem, no topo de um mundo de gelo e à beira de um precipício. Mas havia quem acreditasse nele, antes de tudo desabar.