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Cultura

Exposição

O modernismo via Tarsila

por Willian Vieira — publicado 09/05/2011 12h34, última modificação 13/05/2011 10h35
Obras da pintora guiam uma mostra na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte, cujo objetivo é delinear a busca da “brasilidade” pelos artistas do início do século passado

Há um pão de açúcar em cada canto. Em primeiro ou segundo plano, ele divide espaço com os negros músicos dos morros cariocas, com o carnaval e com a apropriação antropofágica da Torre Eiffel. Surgem então índios idealizados, órfãos do romantismo. E palmeiras, palmeiras diversas, mirradas ou frondosas, negras no traço simples da gravura ou roliças na exuberância verde que Tarsila do Amaral usou para cravar o modernismo no imaginário popular brasileiro. Mas nem só de formas, cores e estereótipos se nutre a “brasilidade” de Tarsila e o Brasil dos Modernistas, até 10 de junho na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte. Passeando ainda entre Goeldis e Guignards, Segalls e Nerys, a exposição oferece um diálogo entre os recorrentes símbolos do modernismo e artistas que não partilharam de suas propostas conceituais, para traçar um panorama das representações visuais, nem sempre nacionalistas, deste país de índios e palmeiras.

“É a luta do peso contra a leveza. Tarsila é limpa, calma, serena. Goeldi traz a dor e a morte”, diz a curadora Regina Teixeira de Barros, ao explicar o que as cenas sombrias das xilogravuras de Oswaldo Goeldi, prenhes de um expressionismo oposto à vivacidade estética do modernismo nativo, fazem ao lado dos desenhos singelos repletos de palmeiras de Tarsila, seu feliz e colorido Religião Brasileira I, seus lassos e orgânicos Sol Poente e Floresta. E o que dizer de Ismael Nery, um universalista filho do expressionismo e surrealismo que nunca propôs uma noção de identidade nacional, cujo cadáver simbólico jaz no topo de um prédio na Baía de Guanabara?

É a paisagem-tema que surge em obras como Rio de Janeiro, de Nery, e Lagoa, de Goeldi, a base para uma justaposição tão insólita com Tarsila e o modernismo. Não é o estilo ou a forma, mas a temática iconográfica o que os aproxima. Os símbolos são os mesmos: as paisagens cariocas ou o interior mineiro, as festas populares, a cultura festiva do negro ou a natureza tropical. Segall tem seu Favela. Cícero Dias, Saudades e Sonho Tropical. É o mesmo Rio. A mesma palmeira. O mesmo carioca festivo. O que muda é o objetivo encerrado na apropriação simbólica. E o que emerge é um Brasil cheio de contradições que o modernismo hegemônico geralmente não traz.

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