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O Som da Imagem

O Mistral sopra

por Redação Carta Capital — publicado 06/11/2012 13h15, última modificação 06/11/2012 13h15
Em Cap de Creus, na Catalunha, a sardana é tocada pela cobla, orquestra de 11 músicos

Por Oliviero Pluviano

Cap de Creus, que significa Cabo das Cruzes em catalão, é a extremidade dos Pireneus que avança sobre o Mediterrâneo. O da foto era um dia de Mistral, o vento forte que sopra do noroeste e que varre todas as nuvens, esmagando o mar rumo à costa para depois inflá-lo em alto-mar. Daquela janela perto do farol se avista todo o litoral do promontório. Suas baías e rochas, que remetem aos afrescos de Giotto, erodidas por bilhões e bilhões de rajadas, inspiraram as paisagens oníricas de Salvador Dalí, que, de tanto amá-las, construiu na década de 1930 sua casa em uma vila de pescadores próxima: Port Lligat, ao lado de Cadaqués.

Dalí foi um verdadeiro catalão, tão raçudo como aqueles que atualmente querem a independência da Espanha. Calçava as espadrillas (alpercatas) de lona com laços de corda amarrados nas pernas e adorava a sardana, música de roda de passos miúdos dançada de mãos dadas por cidadãos comuns, alternadamente homens e mulheres, de aposentados a donas de casa, que colocam suas bolsas no centro do círculo.

A origem da sardana se perde na noite dos tempos: há quem diga que provém da Grécia antiga e há quem afirme que chegou da Sardenha (daí o nome) quando foi invadida pelos “aragoneses” no século XV. Mas foi somente no fim do século XIX que a dança se espalhou, a partir de Barcelona, para todos os poblets (aldeias) catalães, do Ebro a Ampurdan, de Valência às Ilhas Baleares, como a autêntica dança nacional da Catalunha, símbolo do impressionante espírito de união entre todos os catalans.

É sempre tocada por 11 músicos que compõem a cobla, a pequena orquestra composta de dois fibles (instrumentos agudos semelhantes ao oboé), dois “tenores”, clarinetes mais longos de pau-rosa e latão, dois trompetes e outros tantos instrumentos comparáveis à tuba, um trombone, a coulisse, um contrabaixo com apenas três cordas. O último é um músico que segura em uma das mãos um flabiol, flautim de madeira, e, na outra, uma baqueta do tamborì, a única miúda percussão da sardana.

No YouTube, você encontra uma infinidade de sardanas, mas, para ouvir uma boa, sugiro Per Molts Anys, da Cobla Mediterrania, gravada em uma noite muito fria do inverno deste ano na Plaça Sant Jaume, o verdadeiro templo da “catalanidade”, logo atrás da Catedral de Barcelona. Para assistir a uma dança absolutamente perfeita, ouça, porém, a sardana San Martí del Canigó, dançada na vila do violoncelista Pau Casals, em El Vendrell, sua cidade natal, por Dansaires del Penedes.

A maravilhosa Abadia de Sant Martí del Canigó pertence atualmente à França, mas mantém um significado especial para todos os catalães: foi nessa montanha que o conde Guifré el Pilós marcou com seus dedos ensanguentados as quatro listras vermelhas sob o fundo amarelo da bandeira catalã. É de Casals uma bela versão para orquestra de violoncelos da própria sardana dedicada a esse mosteiro. Quando eu tinha pouco mais de 20 anos, me embrenhava pela vegetação mediterrânea de Cap de Creus, descobrindo poças d’água habitadas por pequenas tartarugas e encontrando fiordes desertos, tendo ao fundo pequenas praias de areia branca. Era uma lavagem cerebral enfrentar as rajadas daquele vento perfumado de sempre-vivas, as flores amarelas que logo secam e duram anos.

O hino daqueles dias de minha juventude era o Sonet de Bartomeu Rosselló-Pòrcel, um poeta de Maiorca falecido aos 24 anos depois da Guerra Civil Espanhola, musicado por María del Mar Bonet em um LP excepcional, todo pintado por Miró. Essa menina das Ilhas Baleares, que dedicou sua vida às canções tradicionais catalãs e árabes, tem hoje 65 anos, mas mantém uma voz que, em minha opinião, a coloca entre as melhores cantoras do planeta. É uma desconhecida para a maioria do público, assim como Cap de Creus naquelas noites em que uma calma surreal empurra gradualmente um nevoeiro espesso vindo do mar, que esconde todas as maravilhas dessa orla catalã envolvida em mistério.

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